Extração de água do subsolo põe em risco ecossistemas de água doce no mundo

Atualmente, cerca de 20% das bacias hidrográficas do planeta de onde a água subterrânea é bombeada já enfrentam fluxo baixo demais

Funcionário do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) testa qualidade de água subterrânea: aquíferos enfrentam problemas crescentes em todo o mundo. Crédito: USGS

Quase 20% das bacias hidrográficas do mundo onde a água subterrânea é bombeada sofrem com um fluxo de córregos e rios baixo demais para sustentar seus ecossistemas de água doce, afirma uma equipe internacional de cientistas. Espera-se que esse número aumente para 50% até 2050. O estudo a esse respeito foi publicado na revista “Nature”.

Maior fonte de água doce do mundo, a água subterrânea é de vital importância para a produção de alimentos. O aumento da extração de água subterrânea nas últimas décadas resultou no afundamento de lençóis freáticos em todo o mundo.

“Os efeitos já podem ser vistos no Centro-Oeste dos Estados Unidos e no projeto do Vale do Indo, entre o Afeganistão e o Paquistão”, explica a hidrologista Inge de Graaf, do Instituto de Ciências da Terra e do Meio Ambiente da Universidade de Freiburg (Alemanha), principal autora do estudo.

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O trabalho, em cooperação com a Universidade de Victoria (Canadá), a Universidade de Utrecht e o Instituto da Água Deltares (Holanda), é o primeiro a simular as águas subterrâneas e os rios como sistemas interligados em nível global e, assim, mostrar os efeitos mundiais da extração de águas subterrâneas.

Ponto crítico

Os pesquisadores usaram um modelo hidrológico global para calcular a entrada de água subterrânea na rede mundial de córregos e rios ao redor do mundo. “Se continuarmos a bombear tanta água subterrânea nas próximas décadas quanto fizemos até agora, um ponto crítico será alcançado também para regiões do sul e centro da Europa – como Portugal, Espanha e Itália – e também para países do norte da África”, diz De Graaf.

Também estão em risco áreas onde o abastecimento de água subterrânea permaneceu relativamente constante, mas os rios não são mais capazes de manter ecossistemas saudáveis. Os pesquisadores estimam que, até 2050, entre 42 e 79% das regiões onde as águas subterrâneas são extraídas terão atingido seus limites.

“As mudanças climáticas podem até acelerar esse processo, pois esperamos menos precipitações, o que aumentará ainda mais a extração de águas subterrâneas e fará com que as regiões áridas sequem completamente”, diz De Graaf.

Desde os anos 1960, o aumento da temperatura tem levado a demanda por água para seres humanos, animais e plantas a crescer tão velozmente que houve um rápido aumento no uso das águas subterrâneas em todo o mundo. De Graaf ressalta que mais água subterrânea é bombeada do que ocorrem precipitações pluviométricas.

Os autores do estudo salientam que é impressionante como os ecossistemas de água doce são sensíveis a uma queda relativamente pequena no nível das águas subterrâneas. “Os resultados mostram que a extensão da extração de águas subterrâneas geralmente só se torna visível décadas depois.”