Faca de fezes, arroto de jacaré, líderes x coronavírus: saiu o Ig Nobel 2020

A premiação anual que salienta a bizarrice na ciência também incluiu desta vez o Brasil, graças à abordagem dada pelo presidente Jair Bolsonaro à pandemia de covid-19

Jacaré-da-china: cientistas puseram uma fêmea da espécie para arrotar numa câmera com gás hélio, um estudo ao feitio do prêmio Ig Nobel. Crédito: US Fish and Wildlife Service

A 30ª edição da premiação anual Ig Nobel, realizada nos Estados Unidos no mês anterior ao da divulgação dos prêmios Nobel, teve de ser online, por conta da pandemia. O evento, vale lembrar, homenageia trabalhos que “primeiro fazem as pessoas rir e depois fazem elas pensar”. Mas a falta da cerimônia ao vivo não foi motivo para evitar os risos, como salientaram o jornal “The Guardian” e a BBC.

Um dos destaques da cerimônia pré-gravada, apresentada pelo criador da premiação, Marc Abrahams (editor da revista “Annals of Improbable Research”), foi o antropólogo Metin Eren, da Kent State University (EUA), que dividiu o prêmio na categoria Ciência dos Materiais. Ele resolveu verificar se era verdadeira a história de que um inuit (antigamente chamado de esquimó) havia feito uma faca usando excrementos. Para tanto, congelou dejetos humanos a 50 °C negativos e transformou o resultado numa faca de lâmina afiada. Mas o objeto fracassou miseravelmente na sua primeira função, o corte da pele de um animal. Eren disse aos organizadores do Ig Nobel que era “uma honra ser reconhecido” e que seu prêmio era “um sonho tornado realidade”.

O prêmio da Acústica foi para um grupo de investigadores da Áustria, do Japão e dos EUA que fez uma fêmea de jacaré-da-china arrotar numa câmara hermética com ar rico em hélio. O objetivo era analisar o papel dos berros desses animais em termos de comunicação das dimensões do corpo no que se refere a situações de namoro e reivindicações territoriais.

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Beijos na boca e desigualdade de renda

O prêmio de Psicologia foi para pesquisadores que descobriram uma maneira de identificar narcisistas pomposos a partir de suas sobrancelhas. “É emocionante, é um prêmio divertido”, disse Miranda Giacomin, que trabalhou no estudo na MacEwan University em Alberta, Canadá. O trabalho escolhido se baseou em pesquisas que descobriram que as pessoas às vezes podiam identificar narcisistas por meio de suas características faciais.

A pesquisa sobre o efeito da vibração de alta frequência no corpo de uma minhoca arrebatou o prêmio de Física. Chris Watkins, psicólogo da Universidade de Abertay (Reino Unido), foi um dos vencedores do prêmio de Economia com seu estudo da correlação entre a desigualdade de renda e a média de beijos na boca dados por cidadãos de determinados países. (Parceiros em áreas de alta desigualdade de renda beijam mais na boca, “descobriu” a pesquisa.) Os governos da Índia e do Paquistão conquistaram o prêmio da Paz por fazerem seus diplomatas tocarem as campainhas uns dos outros no meio da noite e fugirem antes que alguém respondesse.

Política x ciência

O Brasil foi aquinhoado este ano em uma das dez categorias do Ig Nobel, a de Educação Médica. O prêmio foi concedido a líderes do mundo que demonstraram, conscientemente ou não, que políticos podem ter um efeito mais imediato em questões de vida ou morte do que cientistas e médicos. O presidente Jair Bolsonaro entrou nessa lista. Ele aparece ao lado dos colegas presidentes Donald Trump (EUA), André López Obrador (México), Vladimir Putin (Rússia), Alexander Lukashenko (Belarus), Recep Tayyip Erdogan (Turquia), Gurbanguly Berdimuhamedov (Turcomenistão) e primeiros-ministros Boris Johnson (Reino Unido) e Narendra Modi (Índia). “Esses indivíduos aperceberam-se de que o seu juízo é melhor do que o juízo das pessoas que passaram uma vida inteira estudando”, ironizou Abrahams. Oficialmente, nenhum deles aceitou o prêmio.

Um estudo de holandeses e belgas sobre misofonia – a condição de enervar-se ao ouvir outras pessoas fazer certos sons, como mastigar – venceu na categoria Medicina. (A terapia da fala ajuda a tratar esse problema, revelou o trabalho.) O americano Richard Vetter, da Universidade da Califórnia em Riverside, arrebatou o prêmio na categoria Entomologia. Ele investigou por que os pesquisadores de insetos desenvolvem aversão a aranhas.

A premiação deste ano também foi compatível com o nível dos estudos selecionados. Cada vencedor fez jus a um cubo de papel e uma cédula de 10 trilhões de dólares do Zimbábue.

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