Faixa de algas se estende da África às Américas

Sargaço: alga está se tornando um problema sério nas águas do Atlântico. Foto: University of Southern Mississippi Gulf Coast Research Laboratory

A crescente presença do sargaço, alga que já dificultava as navegações no século 15, deve ser o novo normal, segundo cientistas 

 

Quem se lembra da história das Grandes Navegações certamente vai se recordar dos problemas de Cristóvão Colombo e dos que o sucederam para chegar ao Caribe superando os sargaços (Sargassum), algas de cor marrom que infestavam aquelas águas. Pois a barreira está voltando em grande estilo, segundo artigo publicado na semana passada na revista “Science” e abordado pelo site Earth Observatory, da Nasa.

Liderada por pesquisadores da Faculdade de Ciências do Mar da Universidade do Sul da Flórida (USF), e contando com o apoio de imagens dos satélites Terra e Aqua, da Nasa, a equipe de cientistas americanos confirmou que o cinturão de sargaços pode crescer a ponto de formar uma faixa sobre a superfície do Oceano Atlântico tropical da costa oeste da África até o Golfo do México.

Foi o que aconteceu em 2018. Nesse ano, mais de 20 milhões de toneladas da alga (o equivalente a mais de 200 porta-aviões totalmente carregados) flutuaram em águas superficiais e causaram estragos nas costas do Atlântico tropical, do Mar do Caribe e do Golfo do México.

 

Influência do Amazonas

Utilizando dados ambientais e amostragens diretas de oceanos, os cientistas deduziram que o cinturão se forma sazonalmente em resposta a dois principais insumos de nutrientes. Na primavera e no verão, a água trazida pelo rio Amazonas adiciona nutrientes ao oceano, os quais podem ter aumentado nos últimos anos devido à expansão do desmatamento e do uso de fertilizantes.

No inverno, a ressurgência (processo de afloramento das massas de água profundas e frias do oceano à superfície) na costa da África Ocidental fornece nutrientes de águas profundas para a superfície do oceano, onde o sargaço cresce. Com base em simulações numéricas, os cientistas descobriram que a florada toma forma de acordo com as correntes oceânicas predominantes.

Chuanmin Hu, da USF, que liderou a pesquisa, ressalva que essas conclusões ainda precisam ser confirmadas por pesquisas mais aprofundadas. “Por outro lado, com base nos últimos 20 anos de dados, posso dizer que o cinturão provavelmente será um novo normal”, afirma.

Os mapas a seguir correspondem à densidade da presença de sargaços no Atlântico no mês de julho, de 2011 a 2018, e reforçam a impressão de Hu.

Densidade de sargaços em julho entre 2011 e 2018. Crédito: J. Stevens/Nasa/Wang et. al.

 

Vantagens e prejuízos

Em quantidades irregulares no oceano aberto, o sargaço contribui para a saúde dos oceanos, fornecendo habitat para tartarugas, caranguejos, peixes e pássaros e produzindo oxigênio via fotossíntese. Mas essas algas também dificultam a movimentação e a respiração de certas espécies marinhas, especialmente quando se acumulam na costa.

Quando morre e vai para o fundo do mar em grandes quantidades, o sargaço pode sufocar corais e ervas marinhas. Na praia, ao apodrecer, ele libera gás sulfídrico e cheira a ovo podre.

Antes de 2011, a maior parte do sargaço era encontrada principalmente flutuando em áreas ao redor do Golfo do México e do Mar dos Sargaços (região do Atlântico Norte). Naquele ano, as populações da alga começaram a explodir em lugares que não tinham estado antes, representando um incômodo para o meio ambiente e as economias locais. Alguns países, como Barbados, declararam uma emergência nacional em 2018 por causa do prejuízo trazido pela alga ao turismo.

“A química do oceano deve ter mudado para que as algas fiquem tão fora de controle”, afirma Hu.