Favela sustentável

Transformar favelas e ocupações irregulares em locais aprazíveis, onde os moradores possam viver com conforto e dignidade, é possível.

Cantinho do Céu: lazer na beira da Represa Billings

Marcos Boldarini é arquiteto, paulistano, 37 anos, responsável por 1,4 mil projetos de apartamentos da Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo, sem contar 1 mil em formulação.

Quando vão conversar sobre projetos habitacionais com a Prefeitura de São Paulo, não raro os líderes comunitários pedem: “Chamem o Boldarini”. Os conjuntos populares do arquiteto – como o Alexandre Mackenzie, na Favela Nova Jaguaré – chamam a atenção pelas soluções só vistas em edifícios sofisticados: os prédios têm área a cobertura, usada para festas, churrascos ou como solário, e os apartamentos possuem grandes janelas com cômodos iluminados e boa circulação de ar. Não é à toa que se tornaram populares.

Outra sensação da obra de Marcos Boldarini é o projeto Cantinho do Céu, área irregular às margens da Represa Billings, reurbanizada para 40 mil pessoas, integrante do Programa Manancial, que visa promover a inclusão social da população e proteger as fontes d’água da cidade. Barracos sem esgoto foram substituídos por casas, e vielas deram lugar a ruas largas e asfaltadas. Os bueiros foram instalados em declives no meio das ruas, em vez das laterais, para evitar o alagamento das chuvas. Está em construção um parque linear de 7 quilômetros (dos quais 1,5 km já foi entregue), cujo calçadão foi revestido com tijolos permeáveis. Cada rua possui área de lazer e os moradores dispõem de academia para a terceira idade, pista de skate, mesas de pingue-pongue, quadra de bocha, campo de futebol, playground e deques de madeira à beira da represa. Quem nunca havia ido ao cinema tem a oportunidade de ver filmes projetados ao ar livre.

Nessa entrevista à PLANETA, o “Isay Wenfeld da periferia” fala da importância do apoio da Prefeitura de São Paulo aos projetos, da sua inspiração e da luta para reurbanizar áreas de risco e integrá-las às cidades.

Há quanto tempo você se dedica à moradia popular e reurbanização de favelas? Por que fez essa opção?

Eu me formei pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Braz Cubas, em 1998 e, desde o estágio, sempre estive envolvido com arquitetura pública, pois é o que me interessa. Trata-se de uma afinidade: poder exercer plenamente a capacidade de intervir e transformar. Há um enorme déficit habitacional no país e, numa cidade como São Paulo, a arquitetura pública se faz, mais do que nunca, necessária, além de ser muito valorizada. Interessa-me trabalhar com populações estabelecidas em áreas críticas e tenho encontrado apoio por parte da prefeitura, que tem aceitado as soluções e inovações que propomos para projetos de conjuntos habitacionais populares e reurbanização de áreas precárias.

Cinema público no Cantinho do Céu

Seu trabalho é diferente. Foge do convencional e humaniza as condições de vida dos moradores. Você segue algum modelo?

Um bom projeto sempre busca transformar e qualificar os locais em que se insere, compreendendo e valorizando suas especificidades. Meus projetos trazem ideias novas, mas também tentam resgatar elementos que a arquitetura brasileira já utilizou em algum momento. Na verdade, trabalho com um somatório de referências e de interpretação de leituras técnicas aliadas à nossa própria maneira de ver os temas, a cidade, as questões com as quais estamos trabalhando e as soluções que pretendemos dar a determinados problemas.

O Cantinho do Céu e a Nova Jaguaré apresentam soluções inovadoras. Você se preocupou em tornar a vida dos moradores mais bonita?

Sem dúvida. Temos a preocupação de tentar compreender quais são as necessidades dos moradores, consultando a comunidade. Por isso a nossa intervenção é integrada e diferenciada. Quando valorizamos o espaço com deques, playgrounds, áreas de lazer e cinema, pretendemos que os moradores tenham melhor qualidade de vida, orgulho do local onde moram e a sensação de pertencer à cidade.

Você já projetou 1,4 mil apartamentos para a Secretaria de Habitação. Como conseguiu que eles comprassem a ideia de um trabalho tão diferenciado?

Um projeto de urbanismo, por si só, não é suficiente para que a coisa aconteça. Há necessidade de apoio da municipalidade e de uma gestão pública para a manutenção do local, após a ocupação. Só acontece com o aval da prefeitura. Não adianta propor uma determinada solução se o governo não conseguir se organizar para fazer com que se materialize e funcione. Nesse processo, a arquiteta Elisabete França, superintendente de Habitação Popular da prefeitura, tem desempenhado um papel muito importante. Ela valoriza os arquitetos e urbanistas, o trabalho na revisão dos programas e a articulação com universidades, além de estabelecer convênios, realizar debates, seminários e promover até um concurso de projetos, o Renova, SP.

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Consolidar invasões, como em margens de represas, exige compensação ambiental

Por que é importante integrar as favelas ao contexto urbano?

Em São Paulo temos 1,6 mil favelas que reúnem 20% da população, ou 30% se somarmos os loteamentos irregulares. Há um déficit habitacional enorme. Precisamos tratar isso como um fato relevante sobre os demais problemas da cidade. Não é necessário nem desejável remanejar todos os moradores, pois não há local para a realocação de todas essas famílias. Diante disso, é mais interessante integrar os espaços à cidade, fazendo com que o transporte público chegue até lá, bem como as obras de infraestrutura, os equipamentos públicos e as novas moradias. A desocupação é necessária quando os moradores estão em áreas de risco que afetam sua segurança, como alto de morros ou beira de córregos, ou em locais de interesse para a qualificação do bairro. Mas a integração tem de ser feita com critérios.

A ocupação irregular em locais de risco vai contra todos os conceitos de sustentabilidade. Como recuperá-la em espaços já degradados?

Em defesa do próprio meio ambiente, beira de represas, cursos d’água e nascentes não deve ser ocupada por moradores. Mas hoje, na área de mananciais entre as represas Guarapiranga e Billings, em São Paulo, há cerca de 1,2 milhão de pessoas que lá se estabeleceram nos últimos 30 anos. Por isso, é importante verificar a possibilidade de consolidação desses assentamentos, desde que se estabeleçam critérios de compensação ambiental.

O Cantinho do Céu é um exemplo, pois aumentamos a área de permeabilidade do solo e separamos o esgoto da água da chuva – ele agora é tratado e não corre mais para a represa, beneficiando a água consumida pela população. Também pavimentamos as ruas a fim de impedir que a chuva leve detritos e sedimentos para a represa, diminuindo sua capacidade como reservatório. Por último, qualificamos os espaços verdes, implantando espécies vegetais nativas e áreas para recuperação ambiental em função do relevo e da hidrografia.

O economista peruano Hernando de Soto afirma que a primeira providência para integrar a favela é titulá-la. Tornar os moradores proprietários legítimos, conferindo escrituras sobre os imóveis, traz vantagens?

A titulação tem que ser parte do processo, porém deve ser o ponto final de tudo. Se dermos primeiro o título, isso poderá dificultar a negociação entre a prefeitura e os moradores, pois nem todas as famílias poderão permanecer no local num projeto de reurbanização e terão de ser remanejadas.

O arquiteto Jaime Lerner destaca três pontos essenciais num projeto urbanístico: mobilidade, sustentabilidade e coexistência entre a cidade e os moradores. O que você acha?

Acho o trabalho do Lerner muito relevante. Esses pontos que ele aborda são essenciais. Grande parte do funcionamento das cidades depende de deslocamentos, em especial do transporte coletivo. A sustentabilidade, por sua vez, é imprescindível, pois temos uma ação predatória sobre o planeta e há uma série de atitudes reparadoras que se fazem necessárias. Isso deve ser considerado nos projetos desde a construção em si – com telhados verdes, utilização de energias renováveis, aproveitamento da água de chuva, etc. – até o espaço urbano onde se insere. Interacão entre a cidade e os moradores por meio de infraestruturas alternativas, universalização do saneamento básico e uso de pavimentação mais adequada, garantindo maiores coeficientes de permeabilidade, aumento das áreas verdes, etc.

Não basta regularizar a propriedade nas favelas

A sustentabilidade é um modismo. Você já foi patrulhado?

Para nós, sustentabilidade não é moda, mas necessidade. Na questão da drenagem urbana, por exemplo, experimentamos elementos e materiais novos e pesquisamos, em escala menor, critérios de infraestrutura verde e de permeabilidade específica do solo, conjugados ao escoamento das águas. Não sofremos qualquer tipo de patrulhamento. Na verdade, nos impomos a auto-cobrança de fazer projetos adequados às necessidades das comunidades e dos locais. Sob o ponto de vista técnico, econômico e social, tivemos uma aceitação muito grande do nosso trabalho no Cantinho do Céu. Tanto que o projeto virou objeto de pesquisas.

Não há críticas ao seu trabalho?

Sim. Houve episódios com famílias que tiveram de ser remanejadas. Alguns moradores direcionados aos novos conjuntos reclamaram do espaço, alegando que a metragem da residência original era maior. Procuramos esclarecer que agora viviam em locais planejados para crianças e idosos, com mais qualidade de vida, além de desfrutarem de um ambiente com mais salubridade, graças a apartamentos ventilados e iluminados. A arquitetura deve ser parte de um suporte maior para a transformação da vida das pessoas. A cidade democrática precisa ser ser mais saudável.

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