‘Feitiço do Tempo’, a comédia que é uma aula de mindfulness

Comédia clássica dos anos 1990 estrelada por Bill Murray, ‘Feitiço do Tempo’ contém ensinamentos sobre atenção plena preciosos para os atuais tempos de pandemia e quarentena

Bill Murray em "Feitiço do Tempo": comédia com lições preciosas em tempos de covid-19. Crédito: Columbia Pictures

Muitos de nós se lembrarão da comédia americano Feitiço do Tempo (Groundhog Day).

Lançado originalmente em 1993, o filme é estrelado pelo incomparável Bill Murray como Phil Connors, um insuportável meteorologista de Pittsburgh. Uma pequena celebridade local que acredita estar destinada a coisas muito melhores, ele se ressente de sua tarefa insignificante de reportar a celebração do Dia da Marmota em Punxsutawney, Pensilvânia.

O plano é voltar a Pittsburgh após as festividades. Mas quando uma nevasca fecha a rodovia, Phil se encontra preso em Punxsutawney. Ele acorda no dia seguinte apenas para descobrir que não é o dia seguinte. É o Dia da Marmota novamente.

Por alguma razão, ele está preso em 2 de fevereiro, forçado a reviver o mesmo dia indefinidamente.

Lição de atenção plena

Os especialistas têm algo a acrescentar ao debate público?

“E se não houver amanhã?”, ele pergunta a certa altura, acrescentando: “Não houve um hoje”.

É uma questão que vai ressoar com milhões de pessoas que vivem em quarentena hoje – já que as pessoas acordam todas as manhãs se perguntando se o dia seguinte será diferente das 24 horas que acabaram de aguentar.

Mas eu tenho uma visão mais positiva. Como estudioso da comunicação e da ética, defendo que a lição central do filme é que, como nunca podemos contar com o amanhã, a vida deve ser vivida plenamente no presente, não apenas para nós, mas também para os outros. No final das contas, Feitiço do Tempo nos dá uma lição de atenção plena (mindfulness).

A atriz Andie MacDowell, que no filme interpreta Rita, o interesse amoroso de Phil Connors, segura a marmota Nibbles em evento comemorativo de “Feitiço do Tempo” em 2008. Crédito: anoldent/Flickr
Metáfora para a estupidez?

Phil ficou preso no Dia da Marmota, talvez por centenas de anos. O roteiro original dizia 10 mil anos, embora o diretor tenha dito que eram 10. De qualquer forma, é muito tempo para acordar com a mesma música todas as manhãs.

Finalmente, Phil acorda, e é 3 de fevereiro, ou seja, o dia seguinte.

Acredito que o que ocasiona o amanhã para Phil é que ele aprende a praticar a consciência plena.

A existência repetitiva de Phil pode representar uma metáfora da negligência, de como todos nós ficamos presos em ciclos de reatividade, vício e hábito. Presa em nossas rotinas, a vida pode perder seu brilho.

Rapidamente pode parecer que nada do que fazemos importa tanto. “O que você faria se estivesse preso em um lugar e todos os dias fossem exatamente iguais e nada do que você fizesse importasse?”, pergunta Phil a dois moradores locais na pista de boliche. “Isso resume tudo para mim”, responde um deles.

Salvação após muitos nascimentos

As práticas contemporâneas de atenção plena podem encontrar suas raízes no budismo. Para os budistas, o conceito de reencarnação ou renascimento é importante. Muitos budistas acreditam que todos os seres vivos passam por muitos nascimentos até alcançar a salvação.

Como um estudioso, acredito que a ideia de renascimento é mais complexa do que muitas vezes é entendido na cultura popular.

Páli é a antiga língua sagrada do budismo theravada. O estudioso do budismo Stephen Batchelor observa que a antiga palavra em páli punabbhava, frequentemente traduzida como “renascimento”, significa literalmente “tornar-se novamente” ou o que podemos pensar como “existência repetitiva”.

Essa é a vida de Phil, preso no Dia da Marmota. É disso que Phil está tentando escapar, e do que todos nós estamos tentando escapar nos tempos de covid-19 – existência repetitiva, uma vida presa em uma marcha, congelada por hábitos e padrões que fazem todos os dias parecerem iguais, como se nada importasse.

Sair do piloto automático

Se a estagnação de Phil é uma metáfora para a ausência de consciência, o despertar de Phil, eu afirmo, é uma metáfora para a consciência. Mindfulness é a prática de experimentar a vida como ela está acontecendo, diretamente no agora, sem reagir imediatamente a ela ou ser levado por ela.

Mindfulness é uma prática de conhecer a nós mesmos e ao nosso condicionamento um pouco melhor. O condicionamento é um padrão automático de reação ao mundo. Ao sair do piloto automático, pausar e perceber, muitos de nós podemos descobrir que não estamos mais presos ao nosso condicionamento. Consequentemente, ganhamos espaço para fazer escolhas sobre como queremos responder à vida.

Isso é o que Phil faz no filme – ele escapa da existência repetitiva superando suas reações iniciais condicionadas, desagradáveis ​​e egoístas ao mundo. No início do filme, ele se autodenomina o “talento” e repreende os “caipiras” que moram na pequena cidade. Ele é bom demais para o Dia da Marmota. Ele quer escapar de Punxsutawney o mais rápido possível.

A compaixão está no centro do ato de meditar. Crédito: Marcela Karner/Pixy/CC0 Public Domain
Oportunidade de crescimento

Conforme o filme continua, Phil aceita sua situação e transforma a repetição em uma oportunidade de crescimento. Ele começa a encontrar significado no lugar onde está preso. Ele abraça a vida plenamente, o que também significa que ele percebe seu próprio sofrimento e o sofrimento daqueles que o cercam.

Phil trata de seu próprio sofrimento perseguindo suas paixões e desenvolvendo suas habilidades. Ele aprende a tocar piano e se torna um talentoso escultor do gelo.

Inicialmente, Phil não sentia nada por aqueles ao seu redor. As pessoas eram objetos para ele, se é que as notava. No final do filme, ele sente compaixão, o que, segundo a professora de mindfulness Rhonda Magee, significa “a vontade de agir para aliviar o sofrimento dos outros”. A atenção plena é uma prática que nos atrai para o mundo, para o serviço. A compaixão está no cerne da prática da atenção plena.

Atenção plena em tempos de pandemia

Mindfulness não significa afastar-se das dificuldades. É uma prática de enfrentar as dificuldades com compaixão. Embora Phil finalmente aceite que pode não haver um amanhã, ele age para garantir que se o amanhã vier para ele e para aqueles ao seu redor, será melhor do que hoje.

Por exemplo, Phil salva a vida de pelo menos duas pessoas: um menino que, antes da intervenção de Phil, cai de uma árvore em uma calçada dura, e o prefeito da cidade, que, antes de Phil irromper para lhe aplicar a manobra de Heimlich [técnica que limpa as vias aéreas, ajudando a desengasgar uma pessoa que tenha se entalado com comida, por exemplo – N. da R.], engasga em seu almoço.

A consciência atenta de Phil do que está acontecendo no momento permite que ele aja para o amanhã sem perder de vista o hoje. A atenção plena de Phil e sua compaixão conduzem a história de amor central do filme entre Phil e Rita. No início do filme, ele era capaz de amar apenas a si mesmo. No final do filme, Phil aprendeu a amar com atenção.

Em vez de posse, colaboração

De acordo com Thich Nhat Hanh, amar com atenção significa que “você deve amar de tal forma que a pessoa que você ama se sinta livre”. Phil aprendeu que o amor não se trata de manipulação ou posse, mas sim de colaboração na construção de uma vida compartilhada.

Com o melhor de sua capacidade, Phil se dedica a aliviar o sofrimento dos outros em um presente que é real e por um futuro que pode não vir. Ele faz isso com pequenos atos de compaixão, como consertar um pneu furado, e atos mais importantes, como salvar uma vida. Essa dedicação cuidadosa ao futuro diante da incerteza é, afirmo, o que lhe permite acordar para um novo dia.

Esta é uma boa lição para todos nós, presos, como estamos, em uma pandemia perpétua do Dia da Marmota, e sonhando, como estamos, com o amanhã.

 

* Jeremy David Engels é professor de Artes e Ciências da Comunicação na Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State, EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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