Filosofia na era de Britney Spears

Em uma era de vulgaridade e fé no dinheiro.

 

A cantora americana Britney Spears, em concerto no México, em dezembro.

 

Alain de Botton é autor dos bestsellers Religião para ateus (Intrínseca, 2011), Como Proust pode mudar sua vida (Rocco, 2009) e As consolações da filosofia (Rocco, 2001).

 

O sucesso do escritor suíço Alain de Botton é um exemplo da sedução do público contemporâneo pela filosofia de autoajuda. Considerado um “filósofo da vida cotidiana”, Botton expressa-se com frequência em séries de televisão e artigos de jornal e fundou, em Londres, onde reside, a School of Life (Escola da Vida), uma instituição de ensino que oferece cursos sobre filosofia, antropologia e questões da vida cotidiana. Em 2012, uma filial da Escola da Vida deverá ser aberta justamente no Brasil, em São Paulo ou no Rio de Janeiro. “Estamos conversando com parceiros nas duas cidades para escolher o local mais adequado”, revela o autor.

Com dezenas de livros traduzidos e publicados em 20 línguas e vários países, o escritor de 42 anos está escrevendo um ensaio curto sobre sexo, que será publicado no Brasil no próximo ano. Várias de suas obras já são bestsellers. Uma das mais polêmicas, Religião para ateus, foi tema de uma conferência recente em São Paulo, no seminário “Fronteiras do Pensamento”, ao término do qual o escritor, preocupado com a vulgarização da cultura e o ocaso da religião, concedeu esta entrevista exclusiva à PLANETA.

Houve quem saísse batendo os pés da sua conferência em São Paulo quando você falava de ateísmo. Isso é frequente?

Sou um homem gentil e tento nunca deixar as pessoas irritadas, mas é verdade: deixei uns poucos ateus chateados com meu novo livro. Isso porque sou um deles, pertenço ao mesmo grupo, mas não sou um ateu inteiramente fiel. Sou inspirado por certos aspectos da religião, mas não pelas doutrinas. Não acredito em nada sobrenatural, mas constato o que as religiões têm de bom na sua organização e nos seus sistemas: os rituais, as peregrinações, a comunidade, a arte, a arquitetura, a educação. Tudo isso é inspirador. O mundo moderno está cheio de boas ideias, mas não sabemos como transmitilas ou efetivá-las. As religiões estão cheias de más ideias, mas são geniais na transmissão delas.

Quais são as grandes virtudes das religiões?

Elas sabem como influenciar porque entendem que temos dois grandes medos na vida: o medo da morte (que inclui a dor e o sofrimento) e o medo da solidão (que inclui a desgraça, a exclusão social e o desamor). As religiões sabem que não somos seres puramente intelectuais. Então, tentam penetrar não só na nossa mente, mas no nosso corpo e nos sentidos. É por isso que constroem catedrais, fazem banquetes, tocam músicas e nos mandam fazer peregrinações. O problema do homem sem religião é que ele esquece o que deve fazer. Nós esquecemos porque o mundo contemporâneo acha que basta dizer alguma coisa a alguém uma vez (“Seja bom”; “Lembre-se dos pobres”). As religiões agem de maneira diversa: elas insistem em nos lembrar e relembrar seus predicados todos os dias, em todas as horas.

Muita gente não vive sem Deus.

Para mim, acreditar em Deus simplesmente não é possível. Ao mesmo tempo, se você elimina a crença, aparecem perigos. A gente não precisa cair neles, mas precisa saber do que se trata. Para começar, há o risco do individualismo, de colocar a pessoa no centro de tudo. Em segundo lugar, o risco do perfeccionismo tecnológico, de acreditar que a ciência e a tecnologia podem suprir todos os problemas humanos, que é apenas uma questão de tempo para os cientistas encontrarem a cura dos problemas humanos. Em terceiro lugar, sem Deus, é fácil enxergar o nosso próprio tempo como tudo, esquecer a brevidade do presente e deixar de apreciar a minúscula natureza de nossas conquistas. Finalmente, sem Deus há o risco de deixar de lado um comportamento ético. Mas também é possível não acreditar em nada e se lembrar dessas lições vitais. Eu apenas procuro chamar a atenção para algumas lacunas, para algo que faz falta quando dispensamos Deus rapidamente. Podemos dispensá-lo, sim, mas com simpatia, com cuidado e sensibilidade.

 

Achar que tudo acaba e nada faz sentido não é mais difícil?

Não acredito que ser ou não ser ateu seja uma escolha racional. Isso é algo determinado por nossa psicologia e história. É por isso que considero fútil e desinteressante tentar persuadir alguém a não acreditar. Por muito tempo os ateus viram seu trabalho como um ataque à religião. Esse tempo acabou. Precisamos aprender a roubar as inspirações das religiões. Eu não sinto que preciso debochar de quem acredita. Realmente discordo do tom duro de alguns ateus que se aproximam da religião como se ela fosse um estúpido conto de fadas.

Você é um ateu incomum?

Sim, tenho profundo respeito pela religião, mesmo que não acredite nos aspectos sobrenaturais de nenhuma delas. Sou respeitoso, mas sou herege. Escrevo para um tipo de leitor que pensa: “Realmente não posso acreditar em nada sobrenatural. O lado sobrenatural da religião é impossível para mim, mas gosto muito do ritual, da arquitetura, da música, da conexão com o passado.” Por que devemos ser forçados a fazer a escolha brutal entre acreditar em coisas implausíveis ou sermos excluídos para ficar com um mundo dominado pelo McDonald’s e pela CNN?

Você cita filósofos para minimizar o estresse urbano. A quem recorrer numa cidade como São Paulo?

Os homens sabem como construir boas cidades. O urbanista Jan Geld disse tudo o que precisa ser dito sobre quantos parques são necessários por hectare, quantas escolas e qual a altura que os edifícios devem ter. As respostas estão nos livros. O problema é como dizer isso às construtoras e aos políticos. O problema não é a ignorância, mas sim como convencer as pessoas a agir de acordo com o conhecimento dos especialistas. Tenho esperança de que o Brasil – antes de outros países – encontre coragem e energia para fazer as mudanças necessárias a fim de garantir cidades belas, saudáveis e sustentáveis.

Você é herdeiro de uma abastada família judia suíça e não tem problemas financeiros. Dinheiro demais atrapalha?

É um paradoxo. Vivemos num mundo dominado pela ambição de ganhar mais dinheiro do que o necessário. Ainda assim, todas as pesquisas da psicologia mostram que o dinheiro herdado faz as pessoas infelizes porque rouba delas seu senso de iniciativa e de individualidade. Essa é a razão pela qual sempre me mantive distante de meu pai afortunado. Vivo independente dele desde os 22 anos. Vendi meu primeiro livro para 30 editores no mundo. Isso quer dizer que me preocupo muito com dinheiro, mas que essa preocupação me motiva e me dá energia e ambição. Posso lhe dizer que foi muito prazeroso quando eu, finalmente, fui capaz de comprar a primeira casa para minha família, há uma década.

Como você vê o consumismo da nossa era?

Ter fé no dinheiro e enriquecer é totalmente lógico para os 2% mais ricos do mundo. Mas não é possível para os bilhões menos sortudos. Então, devemos nos perguntar: qual o sentido da vida para alguém que nunca será rico? Uma resposta tradicional está na religião. Mas acredito que o mundo contemporâneo pode e deve oferecer alternativas, além do amor romântico e do frenesi pelas compras. A melhor cura possível é viver para as outras pessoas e estar conectado a elas. O problema do consumismo é o isolamento e o sentimento de ansiedade que ele desenvolve. Isso é especialmente cruel para pessoas que nunca terão a chance de ser grandes consumidoras de nada.

É verdade que você baniu a televisão e a internet da vida de seus filhos? Não teme marginalizá-los?

Eu não bani a tevê ou a internet de forma total, mas as censurei pesadamente, em especial a inundação de desenhos animados americanos vulgares, séries de vampiros e reality shows. A infância é um estado precioso. Eu não quero entregar a imaginação dos meus filhos aos poderes combinados da Disney e do Crepúsculo. Parece racional que alguém controle a comida das crianças – pouco sal ou gordura, muitos vegetais e frutas –, portanto, as famílias também podem controlar a oferta cultural. Quando meus filhos forem mais velhos, poderão fazer o que quiserem. Mas, por enquanto, sou eu quem providencia história, arquitetura, geografia, ciências e muito amor!

Seus críticos o acusam de tratar a filosofia superficialmente para colocá-la ao alcance de todos. O que você diz?

Na era de Britney Spears, honestamente não acho que seja um grande problema vulgarizar o pensamento de Heidegger ou Merleau-Ponty. Discutir as ideias de Kant e Hegel em prosa legível, capaz de ser entendida por todos, não me parece um pecado.

O filósofo francês Luc Ferry acha absurda a ideia de encontrar a felicidade após uma espécie de longa viagem individual. Ele acha que a serenidade, sim, pode ser o objetivo de uma vida. A felicidade é possível?

Estou pouco interessado na felicidade. Para mim, o que importa é o sentimento de plenitude, de alguém que leva a vida corretamente, que está engajado em projetos que valem a pena, o que é compatível com estar bastante estressado e ao mesmo tempo entediado a maior parte do tempo. Assim sou eu. Acho que a felicidade é um estado breve, de uns 15 minutos no máximo, depois de alguém ter resolvido um grande problema. Depois de 15 minutos virão mais ansiedade e um novo desafio – e tudo bem.

O que você se imagina fazendo daqui a dez anos?

Se eu não estiver morto – o que espero que não aconteça –, gostaria de ter escrito alguns bons livros, de gerenciar bem a Escola da Vida e de estar mais ou menos saudável, alegre e jovial.

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