Fio de esperança

A COP21, conferência da ONU marcada para dezembro, terá a difícil missão de definir um novo acordo mundial sobre a mudança climática em meio a diversos indicadores de que a situação está se agravando

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Desde que, em 1992, foi assinada no Rio de Janeiro a Convenção do Clima, na qual se assume que a poluição causada pelos gases de efeito estufa é um problema sério e afeta a vida na Terra, a situação do planeta piorou. As temperaturas médias estão subindo, as geleiras derretem, o nível dos mares está se elevando; os eventos climáticos extremos são mais frequentes e causam mais impactos no meio ambiente. As más notícias recentes incluem, por exemplo, a ultrapassagem da marca de 400 partes por milhão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, em março (para os cientistas, 350 ppm era o limite “seguro” ) e a extinção de 16% da biodiversidade até 2100 se nada for feito para mudar o quadro (veja sobre isso a matéria aqui).


Poluição em Pequim: os níveis de CO2 na atmosfera já são recorde

Em dezembro, o mundo se reúne em Paris em uma nova conferência sobre mudança climática da ONU, a COP 21, para fechar um acordo global que, em 2020, substituirá o fracassado Protocolo de Kyoto, de 1997. Se isso serve de consolo, pode-se dizer que desta vez há uma boa vontade maior entre os países.

Os Estados Unidos, por exemplo, que em 1992 lideravam o ranking da poluição atmosférica e não assinaram o Protocolo de Kyoto, já anunciaram suas metas (confira no quadro “Promessas para o fim do ano”). A China, que em 1992 não era protagonista na questão e hoje é o maior poluidor do mundo, divulgou que pretende atingir o pico de suas emissões em 2030. Outros países já definiram suas propostas, mas alguns poluidores importantes, como Índia e Brasil, ainda não se manifestaram.

No fundo, qualquer acordo sobre o clima mexe com um até hoje intocável pilar do desenvolvimento moderno: a dependência dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural), um setor econômico poderosíssimo. Numa curiosa demonstração de esquizofrenia, enquanto fazem contas para cortar emissões de gases-estufa, os governos fornecem subsídios abundantes para a exploração desses produtos. Segundo um relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em maio, as empresas do setor de combustíveis fósseis contam anualmente com subsídios globais de US$ 5,3 trilhões. É mais do que todos os governos gastam com saúde, diz o FMI.

O grosso da conta considera o fato de que essas empresas não pagam os custos com que os governos têm de arcar por causa da queima de petróleo, gás e carvão. Esse item inclui, além dos gastos de saúde ligados à poluição atmosférica, todos os custos causados pelos fenômenos climáticos ligados ao aquecimento global, como secas e outros eventos extremos.

“Essas estimativas [de subsídio aos combustíveis fósseis] são chocantes”, diz Vitor Gaspar, diretor do FMI e ex-ministro da Economia de Portugal. Para Nicholas Stern, economista britânico especializado em clima, o número é até modesto: “Uma estimativa mais completa dos custos atribuídos à mudança climática mostraria que os subsídios implícitos dados aos combustíveis fósseis são muito maiores do que esse relatório sugere”. Segundo o estudo, o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis reduziria as emissões globais de gases-estufa em cerca de 20%. Por aí se vê que a briga em Paris vai ser titânica.

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