Florestas plantadas não recuperam fluxos originais de rios

Segundo estudo, as maiores reduções percentuais na disponibilidade de água foram observadas em regiões da Austrália e da África do Sul

Reflorestamento na Inglaterra: novo estudo mostra que não basta sair plantando árvores aleatoriamente. Crédito: John Illingworth / Reforestation/Wikimedia

Os fluxos de rios são reduzidos em áreas onde as florestas foram plantadas e não se recuperam com o tempo, revela um estudo da Universidade de Cambridge (Reino Unido) publicado na revista “Global Change Biology”. Os rios em algumas regiões podem desaparecer completamente dentro de uma década. Isso destaca a necessidade de considerar o impacto na disponibilidade regional de água, bem como o benefício climático mais amplo, dos planos de plantio de árvores.

“O reflorestamento é uma parte importante para combater as mudanças climáticas, mas precisamos considerar cuidadosamente os melhores locais para isso”, observou Laura Bentley, cientista do Instituto de Pesquisa em Conservação da Universidade de Cambridge e primeira autora do relatório. “Em alguns lugares, as mudanças na disponibilidade de água alterarão completamente os custos-benefícios locais dos programas de plantio de árvores.”

Mecanismo não compreendido

O plantio de grandes áreas de árvores tem sido sugerido como uma das melhores maneiras de reduzir os níveis atmosféricos de dióxido de carbono, uma vez que as árvores absorvem e armazenam esse gás de efeito estufa à medida que crescem. Embora se saiba há muito tempo que o plantio de árvores reduz a quantidade de água que flui para os rios próximos, anteriormente não se compreendia como esse efeito muda à medida que a floresta envelhece.

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O estudo analisou 43 locais em todo o mundo onde as florestas foram estabelecidas e usou o fluxo do rio como uma medida da disponibilidade de água na região. Ele descobriu que, dentro de cinco anos de plantio de árvores, o fluxo do rio havia reduzido em média 25%. Em 25 anos, os rios caíram em média 40% e, em alguns casos, secaram completamente. As maiores reduções percentuais na disponibilidade de água foram em regiões da Austrália e da África do Sul.

“O fluxo do rio não se recupera após o plantio de árvores, mesmo depois de muitos anos, uma vez contabilizados os distúrbios na captação e os efeitos do clima”, disse o professor David Coomes, diretor do Instituto de Pesquisa em Conservação da Universidade de Cambridge, que liderou o estudo.

Tipo de terra e impacto

A pesquisa mostrou que o tipo de terra onde as árvores são plantadas determina o grau de impacto que elas têm na disponibilidade local de água. As árvores plantadas em campos naturais, onde o solo é saudável, diminuem significativamente o fluxo do rio. Em terras anteriormente degradadas pela agricultura, o estabelecimento de florestas ajuda a reparar o solo para que ele possa reter mais água e diminui o fluxo do rio próximo em menor quantidade.

Por outro lado, o efeito das árvores no fluxo do rio é menor em anos mais secos do que os mais úmidos. Quando as árvores sofrem estresse hídrico, fecham os poros das folhas para economizar água e, como resultado, retiram menos água do solo. No tempo chuvoso, as árvores usam mais água do solo e também capturam a água da chuva em suas folhas.

“As mudanças climáticas afetarão a disponibilidade de água em todo o mundo”, disse Bentley. “Ao estudar como a floresta afeta a disponibilidade de água, podemos trabalhar para minimizar as consequências locais para as pessoas e o meio ambiente.”