Fogo ameaça arara-azul e outras espécies da fauna do Pantanal

Incêndio já consumiu 60% de reserva; cobras, jacarés e tatus parecem ser os animais mais atingidos, mas um retrato mais fiel da situação só será possível quando o fogo for extinto

Arara-azul: estação reprodutiva estava atrasada pelo clima muito seco e pela ausência de chuvas. Crédito: Ana_Cotta/Wikimedia

Um incêndio originado em uma fazenda vizinha em período de seca já destruiu cerca de 60% do Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda (MS), desde 9 de setembro. O local, que abriga uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), sedia os trabalhos de campo do Projeto Arara Azul, comandado pela bióloga Neiva Guedes, que vem alcançando resultados importantes para a espécie, ameaçada de extinção até 2014.

Por conta do clima extremamente seco e sem chuva, a estação reprodutiva das aves encontrava-se bem atrasada e havia cerca de 30 ninhos ativos com ovos e filhotes. Neiva, que não vê um quadro otimista de melhora na reprodução da espécie neste ano, afirma que a equipe do Projeto Arara Azul está atuando junto às equipes do Refúgio Ecológico Caiman e auxiliando o trabalho de mais de 150 profissionais, entre funcionários, vizinhos, bombeiros e outros órgãos ambientais, para combater o fogo, durante 24 horas por dia.

“Neste momento, o mais importante é conseguir conter o fogo, para que ele não destrua a RPPN Aracy Klabin, com ambientes naturais protegidos há mais de 20 anos”, salienta a bióloga. Ela acredita que será necessária uma avaliação mais crítica do impacto ambiental após o término do incêndio.

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“Na madrugada, com temperaturas mais amenas, o fogo tende a se alastrar menos. No entanto, à medida que o dia avança e a temperatura aumenta, pequenas rajadas de vento são suficientes para reiniciar o fogo e espalhá-lo rapidamente”, explica Neiva. Especialistas preveem chuva apenas para a última semana de setembro, o que pode contribuir com a contenção dos focos de incêndio.

Avaliações diárias

No momento, não é possível mensurar o número de mortes de espécies da fauna do Pantanal. No caso da arara-azul, que está em período reprodutivo, a equipe de biólogos está avaliando diariamente as condições. A boa notícia é que, até o momento, os incêndios não destruíram muitos ninhos, diretamente. No entanto, já houve a perda de um filhote por calor e desidratação, e de outro por predação. Sabe-se, porém, por situações semelhantes, que deverão aumentar a competição e a predação.

De acordo com avaliações prévias, uma grande área natural foi destruída, o que diminui a oferta de abrigo e alimento para os animais, aumentando a concorrência para os que continuam vivos. Diversos mamíferos e aves teriam conseguido migrar para outras áreas. Cobras, jacarés e tatus, porém, são alguns dos animais que se tornaram vítimas do fogo.

Assim que o fogo for contido, os projetos Arara Azul e Onçafari, pesquisadores da Embrapa Pantanal e universidades deverão conduzir um censo para avaliar os impactos na fauna. O grupo deverá também estabelecer um plano de longo prazo para acompanhar a recuperação da região.

Taxa reprodutiva baixa

Para Neiva, esse desastre afetará drasticamente a reprodução das espécies do Pantanal nos anos seguintes. O problema é mais grave em relação à arara-azul, uma vez que ela tem baixa taxa reprodutiva.

“Filhotes que nasceriam esse ano estariam aptos a reproduzir apenas daqui a sete ou oito anos, para ter um, no máximo, dois filhotes”, explica a bióloga. “Já os casais aptos neste e nos próximos anos sofrerão para encontrar cavidades adequadas para reprodução. Portanto, nosso trabalho de pesquisa e conservação terá que ser ainda mais focado e fortalecido para seguirmos com o equilíbrio do meio ambiente.”

O Projeto Arara Azul completa neste ano três décadas de atividades com o apoio da Fundação Toyota do Brasil e da montadora japonesa, as quais estão mobilizadas em relação ao que está acontecendo no Pantanal. “É justamente para reverter essa situação e dar vida à biodiversidade do Pantanal brasileiro que a Fundação Toyota permanece firme no combate aos danos que afetam o ciclo reprodutivo da espécie”, afirma Saori Yano, diretora-executiva da Fundação Toyota do Brasil.

Contribuições

Muitas pessoas têm procurado as entidades envolvidas a fim de ajudar os projetos de conservação de espécies com base de campo no Refúgio Ecológico Caiman. Além de, evidentemente, evitarem desmatamento e queimadas, os interessados (pessoas físicas e jurídicas) podem realizar doações no site do Instituto Arara Azul utilizando o link http://institutoararaazul.org.br/como_ajudar. As doações partem de R$ 1,00.

É possível também doar materiais e equipamentos como laptops, câmeras, cartões de memória, binóculos, GPS, entre outros itens que também são necessários. Para isso, os interessados podem entrar em contato pelo e-mail contato@institutoararaazul.org.br.