Fome de sustentabilidade

A alimentação servida para atletas e torcedores nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 deve seguir um manual oficial de boa proveniência

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13_PL514_OLIMPIADA6Os desafios no preparo dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 ultrapassam as arenas, piscinas, pistas e tatames para chegar a outro campo, o da alimentação saudável e sustentável. Não poderia haver ocasião melhor de atrair os olhos dos torcedores para esse tema: afinal, o exemplo já vem dos próprios atletas, que mantêm uma alimentação de primeira. Tudo começou com a proposta Rio Alimentação Sustentável, lançada em março de 2013 por uma aliança voluntária e independente de organizações da sociedade civil, governo e instituições de pesquisa, sob a coordenação da Conservação Internacional (CI-Brasil) e do WWF-Brasil.

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Cerco flutuante no litoral fluminense, uma das técnicas incentivadas na pesca sustentável

“Um evento como esse dá visibilidade ao conceito da sustentabilidade alimentar. É uma ótima oportunidade para os produtores e os consumidores aprenderem sobre práticas mais amigáveis nessa área”, diz Anna Carolina Lobo, coordenadora do Programa Marinho e Mata Atlântica do WWF-Brasil. Um grande indicativo de que a iniciativa já está colhendo frutos – orgânicos, claro – é que o próprio Comitê Olímpico Rio 2016 abraçou oficialmente a ideia. Em outubro de 2014, foi assinado o documento “Taste of the Games” (O Sabor dos Jogos), que estabelece como diretriz, para todos os prestadores de serviços alimentares do evento (catering), as recomendações desenvolvidas pela Rio Alimentação Sustentável (leia os quatro princípios essenciais ao final da reportagem).

Em resumo, a prioridade deve ser dada aos alimentos certificados e, caso não haja essa opção no mercado, deve-se partir para a lista dos fornecedores que adotam práticas socioeconômicas e produtivas verdes. “Como a oferta de produtos com selos de sustentabilidade ainda é pequena no Brasil, criamos duas listas”, conta Frederico Machado, analista de Políticas Públicas do WWF-Brasil.

Mar de problemas

Para o público em geral, as informações educativas sobre alimentação saudável e sustentável estarão distribuídas em um portal (ainda em desenvolvimento), banners e quiosques de vendas e informações distribuídos por pontos estratégicos no evento. Mas o maior marco da iniciativa será um restaurante com 100% de comidas sustentáveis e saudáveis que deverá ocupar a entrada da Praça de Alimentação na Vila Olímpica. A praça deverá concentrar 45% do total de 14 milhões de refeições servidas durante os Jogos, contando somente os meios oficiais.

Embora esteja bastante focada na cadeia de produção dos alimentos, a proposta envolve indiretamente embalagens e resíduos. E no campo da alimentação, o enfoque não é apenas na preservação do meio ambiente, mas também da própria saúde. “O pescado barato costuma vir de áreas poluídas, com pesca predatória”, alerta Anna Carolina. Os alimentos provenientes da pesca, aliás, são o maior desafio dessa empreitada. Como não temos nenhum pescado certificado no país, alguns peixes devem ser importados, como o salmão do Chile e da Argentina, os únicos com selo. O que não deixa de ser pouco sustentável.

Essa questão é só a ponta do iceberg, já que o país não tem ao menos um monitoramento de seus estoques pesqueiros há mais de três anos e permite métodos de captura proibidos em outros lugares do mundo, como a pesca de arrasto, equivalente a passar a corrente em uma floresta derrubando todas as árvores para capturar uma espécie que está lá no meio. Os avanços na área são lentos, mas estão surgindo. “Atualmente, alguns pescadores, como os de Niterói e Araruama, já demonstram interesse e disposição em investir na certificação. Esse é um processo de alto custo que leva de quatro a cinco anos”, diz Anna Carolina.

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Brasil ainda não tem nenhum pescado certificado

Ela reconhece que em março de 2013, quando a iniciativa Rio Alimentação Saudável foi criada, esperava-se que hoje, a menos de um ano das Olimpíadas, já se tivesse avançado mais do que se alcançou até aqui. “Mas foram encontradas tantas lacunas para resolver…”, lamenta. Machado complementa argumentando que tudo é um aprendizado e não se pode colocar no Comitê Olímpico uma carga maior, que não é deles.

“Esse é um atraso histórico e estrutural do país. O papel do evento é ajudar a desenvolver política de alimentos saudáveis e sustentáveis.” Muitos resultados não vão chegar a tempo para as Olimpíadas Rio 2016. Um grande legado do evento na área deve ser a continuidade desse projeto, com resultados transformadores nas cadeias de fornecimento de alimentos no Brasil.

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Manual de boas maneiras

Esses são os parâmetros a serem aplicados na seleção dos alimentos que serão servidos e vendidos nos Jogos Olímpicos de 2016:

Princípio da Saúde – Sustentar e aumentar a saúde do solo, das plantas, dos animais, do homem e do planeta, seja por meio do manejo do solo, do processamento dos alimentos, da distribuição ou do consumo.

Princípio da Ecologia – Ajustar-se aos ciclos biológicos, baseando-se nos processos ecológicos e na reciclagem; cumprir a legislação ambiental brasileira; não desmatar e utilizar produtos sem contaminação química ou biológica.

Princípio da Equidade – Baseia-se em relações que garantam a vida e o bem-estar comum e assegurem respeito, igualdade, direitos e gestão responsável. Elas não devem deixar espaço para a exploração infantil ou qualquer forma inadequada de trabalho na cadeia de abastecimento.

Princípio da Precaução – Procurar aumentar a eficiência e a produtividade, mas sem colocar em risco a sustentabilidade dos agroecossistemas.13_PL514_OLIMPIADA7

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