Fósseis revelam que cobras tinham patas traseiras

Estudo mostra que essas patas estiveram presentes durante os primeiros 70 milhões de anos da espécie najash, que vivia em terra firme

Concepção artística da najash: fósseis preservados permitiram descobertas importantes. Crédito: Raúl O. Gómez, Universidade de Buenos Aires

Um estudo de uma equipe internacional de cientistas baseado em fósseis bem preservados de uma cobra terrestre antiga, a najash, traz novidades sobre a origem dos répteis rastejantes. As descobertas, apresentadas na revista “Science Advances”, fornecem detalhes sobre como o crânio flexível das cobras evoluiu a partir de seus ancestrais lagartos. Novas análises da árvore genealógica das cobras também revelaram que esses animais possuíam patas traseiras durante os primeiros 70 milhões de anos de sua evolução.

A pesquisa, liderada por Fernando F. Garberoglio, da Universidade Maimónides (Argentina), teve a participação de cientistas de universidades da Austrália, do Canadá e dos EUA.

A evolução do corpo da cobra atraiu os pesquisadores por um longo tempo, ao representar um dos exemplos mais dramáticos da capacidade de adaptação do corpo dos vertebrados. Mas o número restrito de fósseis para estudo não permitia que sua evolução inicial até agora fosse devidamente compreendida.

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A Najash rionegrina recebeu o nome da cobra bíblica de pernas Nahash (hebraico para cobra) e da província de Rio Negro (norte da Patagônia), na Argentina, onde os fósseis foram descobertos por Garberoglio em 2013. Anos depois, novos crânios e esqueletos dessa cobra ancestral foram descobertos. Os fósseis de najash têm cerca de 95 milhões de anos (período Cretáceo) e foram descritos pela primeira vez na natureza a partir de um crânio fragmentado e do esqueleto parcial do corpo que preservava membros traseiros robustos.

Transição do crânio

“As cobras são famosas como animais rastejantes, mas muitos lagartos também são assim”, afirma Alessandro Palci, da Universidade Flinders (Austrália), coautor do estudo. “O que realmente diferencia as cobras é o crânio altamente móvel, que lhes permite engolir grandes presas. Há muito tempo que nos falta informações detalhadas sobre a transição do crânio relativamente rígido de um lagarto para o crânio superflexível de cobras.”

O crânio encontrado por Garberoglio. Crédito: F. Garberoglio

Ele prossegue: “A najash tem o crânio mais completo e tridimensionalmente preservado de qualquer cobra antiga, e isso fornece uma quantidade incrível de novas informações sobre como a cabeça das cobras evoluiu. Ela possui algumas, mas nem todas as articulações flexíveis encontradas no crânio das cobras modernas. Seu ouvido médio é intermediário entre o de lagartos e cobras vivas, e, ao contrário de todas as cobras vivas, ela mantém uma maçã do rosto bem desenvolvida, que lembra novamente a dos lagartos.”

Outro coautor, Mike Lee, da Universidade Flinders e do Museu do Sul da Austrália, acrescenta: “A najash mostra como as cobras evoluíram dos lagartos em etapas evolutivas incrementais, como Darwin previu”.

A nova árvore genealógica das cobras também revela que as cobras possuíam patas traseiras pequenas, mas perfeitamente formadas, durante os primeiros 70 milhões de anos de sua evolução.

“Essas cobras primitivas com perninhas não eram apenas um estágio evolutivo transitório no caminho para algo melhor. Em vez disso, elas tinham um plano corporal altamente bem-sucedido que persistiu por muitos milhões de anos e se diversificou em uma variedade de nichos terrestres, aéreos e aquáticos”, diz Lee.