Fotos de família

Na era do selfie e da pose para as redes sociais, o fotógrafo Renato dPaula propõe o resgate do que há de mais autêntico na vida cotidiana das pessoas por meio da fotografia documental de família

O sol está raiando, a família começa a despertar, o café da manhã nem foi preparado ainda, mas o fotógrafo Rena­to dPaula já está pronto para clicar. E não se trata de retratar sua própria filha, esposa ou parentes próximos. Ele está na casa de outras pessoas e passará o dia inteiro com elas, observando e registrando as atividades rotineiras do seu cotidiano. Sem interferir, sem pedir ou sugerir nada. “Não acendo nem sequer uma luz, nem aperto o botão do elevador. A única coisa que repito é para que elas façam tudo como costumam fazer, como se eu não estivesse ali”, explica.

Essa é a essência da fotografia documental de família, uma vertente que quer reter o lado mais autêntico das histórias de vida das pessoas. Completamente diferente da cobertura de eventos (como casamentos ou aniversários) e dos ensaios fotográficos, que contam com muito planejamento e controle sobre a situação (iluminação, figurino, cenário, etc.). Uma proposta que chega a ser bastante ousada na atual era dos selfies e das poses produzidas para as redes sociais.

Em “Um Dia na Vida”, como intitula a proposta para facilitar o entendimento, Renato sempre começa bem cedinho, mas sabe que a melhor parte só vem depois do almoço. “No início as pessoas estão mais ‘armadas’ para sair bem na foto. É natural do ser humano”, conta. Mas, ao longo do dia de convivência, as máscaras vão caindo, elas se entregam e acabam acontecendo os melhores momentos. Assim como as melhores fotos.

Renato já viajou boa parte do país acompanhando um dia – ou mais – na vida de dezenas de famílias, de Porto Alegre (RS) a Recife (PE), incluindo Campo Grande (MS). Mas ainda são, na maioria, os colegas fotógrafos que abrem as portas de suas casas para essa ideia. Há um longo caminho a ser pavimentado na divulgação desse estilo. “Meu principal objetivo é educar as pessoas sobre a importância de uma foto da criança chorando.”

Ele ilustra seu argumento com uma fotografia da criança aos prantos dentro do carro com a mãe ao lado, respirando fundo. A criança revoltada por ter de ir embora de uma tarde intensa na praia. A mãe firme na sua decisão de que é hora de ir para casa e ciente de que tudo isso é pura demonstração de cansaço, e de que é preciso paciência, porque ainda tem muito mais por vir: banho,­ comida, cama. Em outro caso, o clique congela aquele instante em que um pai precisa lidar com a frustração do filho que não consegue fazer a tarefa­ da escola, mas também não quer escutar suas explicações­ a respeito da matéria. “A magia dessas fotos é que, na verdade, elas não mostram o choro ou a cara emburrada das crianças, mas, sim, o amor dos pais pelos filhos e a dedicação em educá-los”, ressalta.

Memórias vivas

Embora sejam os pais – logicamente – que contratam seus serviços, Renato revela que é para os filhos que ele fotografa. “Para que, no futuro, tenham memórias vivas da sua infância e de como eram como família. Para mostrar a relação entre eles, porque envolve muita dedicação dos pais e as crianças não estão cientes disso até crescerem”, pondera. E talvez, até que tenham os próprios filhos.

Para os pais, esses registros do cotidiano se tornam a melhor forma de fixar lembranças que tendem a ser esquecidas. “O tempo passa e aquela caretinha que a criança fazia se apaga da memória, por exemplo. Além disso, nós, pais, às vezes também não temos noção de quanto nos doamos para os filhos”, destaca Renato. Ele mesmo sente tudo isso na pele e imprime essas marcas na sua fotografia.

A evolução da carreira de Renato está completamente ligada à sua própria história de vida. Primeiro foram as fotos de viagem, ainda amador, para um blog que produziu durante sua experiência viajando como mochileiro pela América Latina. Na época do seu casamento, acabou indo fundo nessa vertente de evento.

Mas, sete anos atrás, Isabella chegou para lhe apresentar um mundo novo: a paternidade. O profissional passou então a se dedicar mais a ensaios de gestante, partos e, claro, foto documental de família. “Quando nasce um filho, muda totalmente a perspectiva. Depois que minha filha nasceu, ainda fiz vários casamentos, mas só via crianças na cerimônia. As noivas se tornaram um detalhe”, diz, rindo.

Renato começou a atuar na fotografia documental de família há apenas quatro anos. É um dos pioneiros na área no Brasil e já coleciona diversos prêmios nacionais e internacionais nessa categoria, incluindo Fotógrafo de Família do Ano e Fotógrafo Mais Premiado do Ano, em 2017, pelo diretório Inspiration Photographers (o Oscar da sua profissão).

Todo esse trabalho agora acaba de virar livro: “A Essência da Família” (Editora Photos). Como não podia deixar de ser, a primeira parte da obra está dedicada a divulgar esse estilo aos pais e mães. Só na segunda parte vêm as dicas para os fotógrafos, sejam eles amadores ou profissionais. Para Renato dPaula, o importante é começar a documentar as coisas mais simples e autênticas da vida hoje mesmo, porque o tempo não vai esperar.

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