Fundação inicia mobilização para transformar atual sistema alimentar

Novo projeto da Fundação Ellen MacArthur reunirá cidades pioneiras e empresas multinacionais para estimular a criação de uma economia circular dos alimentos

A Fundação Ellen MacArthur anuncia hoje uma nova iniciativa no setor de alimentação dentro do EAT Forum, em Estocolmo. Durante os próximos três anos, a iniciativa reunirá cidades pioneiras e empresas multinacionais para transformar o sistema alimentar de hoje por meio de projetos de economia circular.

A mobilização nasce após uma fase analítica que durou um ano e gerou o relatório Cidades e Economia Circular dos Alimentos, divulgado durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro deste ano, e publicado por PLANETA. A premissa é que, para se satisfazer as necessidades alimentares de uma população globalizada em plena crise climática, o sistema alimentar precisa de um redesenho fundamental.

A produção de alimentos é atualmente responsável por quase um quarto das emissões de gases de efeito estufa, ao passo que a fertilização mal administrada intensifica a poluição atmosférica, contaminam o solo e as fontes hídricas. Esses e outros fatores associados ao sistema alimentar de hoje fazem com que, mesmo quando os consumidores tentam fazer escolhas saudáveis, a saúde deles permaneça ameaçada pela forma com que os alimentos foram produzidos.

As principais estratégias deste esforço conjunto serão: agricultura regenerativa, ampliação de compras locais, mudanças no design e comercialização de alimentos, prevenção de desperdícios e aproveitamento de coprodutos. Segundo os estudos da Fundação, tudo isso tem grande potencial para resultar em uma redução das emissões de gases de efeito de 4,3 bilhões de toneladas de CO2, equivalente a retirar um bilhão de carros de circulação permanentemente.

Estudo mostra prejuízos da agricultura convencional para saúde e economia

Outros benefícios incluem melhoria e proteção à saúde do solo, prevenção da degradação de 15 milhões de hectares de área agrícola por ano, exposição reduzida a pesticidas e poluição, no que concerne ao campo. Na saúde pública, os possíveis ganhos são uma redução significativa da resistência antimicrobiana, da poluição atmosférica, da contaminação da água e de doenças alimentares. Para as cidades, as vantagens são destravar oportunidades que somam US$ 700 bilhões ao reduzir o desperdício de alimentos próprios para consumo e aproveitar coprodutos e resíduos orgânicos em ciclos.

A Fundação irá liderar grandes projetos em três cidades emblemáticas – Londres, Nova Iorque e São Paulo – para demonstrar como a visão de uma economia circular dos alimentos pode ser realizada em grande escala. Além delas, outras cidades participantes irão inspirar e compartilhar aprendizados, insights e esforços. Inicialmente este grupo está formado por Almere (Holanda), Barcelona e Sevilha (Espanha), Lisboa, Porto e Torres Vedras (Portugal), Milão (Itália), Rio de Janeiro e Salvador (Brasil) e Toronto (Canadá). Outras serão convidadas a participar.

Essa é a primeira vez que cidades e empresas unem forças desta forma. A iniciativa de três anos é apoiada pela parceira filantrópica Calouste Gulbenkian Foundation e conta com empresas como Novamont, Mizkan, Veolia, Nestlé, Danone e Yara.

“A economia circular oferece uma visão clara para direcionar os esforços de cidades ao redor do mundo para construir um sistema alimentar regenerativo com amplos benefícios para a saúde das pessoas e dos ecossistemas e grandes oportunidades de negócio”, argumenta Luísa Santiago, líder da Ellen MacArthur Foundation na América Latina. Para ela, com a rica biodiversidade e as altas taxas de urbanização, as cidades latinoamericanas terão um papel fundamental nessa transformação global, seguindo a liderança da cidade de São Paulo e as demais Cidades Emblemáticas.

A iniciativa desenvolverá soluções alinhadas à visão de uma economia circular dos alimentos, fundamentada em três princípios:
* ADQUIRIR ALIMENTOS CULTIVADOS DE FORMA REGENERATIVA E, QUANDO FIZER SENTIDO, LOCALMENTE
Produzindo alimentos de forma regenerativa para reconstruir a saúde do mundo natural em vez de degradá-lo.
* APROVEITAR OS ALIMENTOS AO MÁXIMO
Os alimentos são cultivados, processados, transportados, preparados e seus coprodutos geridos de maneiras que beneficiem a saúde das pessoas e dos sistemas naturais. Os alimentos são projetados para aproveitamento em ciclos, de forma que os coprodutos de um empreendimento ajudam a aprimorar a saúde do solo.
* DESENVOLVER E COMERCIALIZAR PRODUTOS ALIMENTÍCIOS MAIS SAUDÁVEIS
Os resíduos são eliminados por princípio e os produtos alimentícios são concebidos para serem saudáveis, não apenas de um ponto de vista nutricional como também na forma como são produzidos.