Fúria Torcedora

Quando o assunto é violência em estádios, os hooligans ingleses são referência. As autoridades do país conseguiram reduzir bastante o problema, mas ele continua a exigir atenção às vésperas da Olimpía

Os hooligans – bandos de torcedores que praticam vandalismo, atiçam brigas e cometem crimes – existem em vários países, mas, no futebol, nenhuma torcida violenta se tornou mais temida do que a inglesa. O fato de a palavra ter nascido no país ajuda (Hoo­ligan Boys era o nome de uma gangue de Londres no fim do século 19), mas é inegável que os fãs ingleses superaram todos, a ponto de o hooliganismo ser chamado de english disease (“doença inglesa”). O pior exemplo foi o ataque de hooligans do Liverpool a torcedores da Juventus, da Itália, na final da Copa dos Campeões da Europa de 1985, em Bruxelas.

Na ocasião, as torcidas organizadas dos dois times foram colocadas em áreas opostas do Estádio de Heysel, mas os hooligans do Liverpool não se contiveram: superaram uma barreira de policiais, derrubaram um alambrado e atacaram uma área ocupada. Na confusão, um muro desabou e 39 juventinos morreram. Por causa da tragédia, os clubes ingleses foram banidos por cinco anos (o Liverpool, por seis) das competições europeias.

Heysel expôs um problema que vinha se agravando. Nos anos 1970, vários clubes ingleses ganharam torcidas organizadas e as confusões logo se multiplicaram, contabilizando feridos e mortos. Apesar do governo da primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990) propor ações duras contra os torcedores violentos em 1985, as mudanças substanciais só vieram após um incidente sem relação com o hooliganismo: a morte de 96 fãs do Liverpool no superlotado estádio de Hillsborough, em 1989, num jogo contra o Nottingham Forest.
Encarregado de estudar o caso, o juiz Peter Taylor redigiu um relatório, em 1990, recomendando medidas que acabaram adotadas por outros países. A principal foi obrigar os estádios a acomodar todos os torcedores sentados. Só essa iniciativa já reduziu os tumultos. Outras ações efetivas foram a instalação de circuitos internos de tevê nos estádios e a criação, pela polícia, de uma “inteligência do futebol”, que, entre outras medidas, obriga os torcedores fichados a se apresentar à delegacia antes dos jogos de seus times. Assim, rufiões comprovados são impedidos de ir aos estádios: 2,5 mil torcedores são banidos dos estádios, todo ano.

Com o Football Spectators Act, de 1990, o governo Thatcher tentou enrijecer a legislação anti-hooligans, apostando na introdução de cartões de identidade dos torcedores. Mas a ideia não foi bem recebida pelos clubes. Outras leis, como o Football (Disorder) Act, de 2000, que proíbe suspeitos de hooliganismo de sair do país, foram criticadas em meio a muitas controvérsias, uma vez que restringem as liberdades civis. Na copa de 2010, 3 mil torcedores foram impedidos de embarcar em vôos para a África do Sul.

O que torna uma pessoa hooligan? Nos diversos estudos feitos sobre o assunto, os ingleses observam que, em geral, os desordeiros de vários países se as semelham pelo senso de “comunidade poderosa”, pelo tribalismo e pelo prazer transgressivo de se envolver em tumultos nos jogos dos seus clubes. Fatores externos, como o consumo de álcool e drogas, também ajudam.

Em tal contexto, as características “carnavalescas” dos jogos atraem um número cada vez maior de fãs. Se os ingleses conseguiram afastar as brigas dos estádios, elas continuam a ser rotina em bairros da periferia, promovidas pelas torcidas organizadas, via internet ou redes sociais. Tanto no Reino Unido quanto em outros países, como o Brasil, o Egito e a Itália, as autoridades sabem que, nessa questão, não podem baixar a guarda.

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