‘Gangorra climática’ africana impulsionou a evolução humana

Antigos padrões climáticos semelhantes ao El Niño foram os principais responsáveis pelas mudanças ambientais na África Subsaariana quando os humanos estavam evoluindo

O lago Nakuru, no Quênia, é rico em cianobactéria Spirulina platensis, o alimento básico do flamingo-pequeno. Porém, devido ao aumento das chuvas na região nos últimos anos, a bactéria e com ela os flamingos estão desaparecendo - uma amostra da influência do clima sobre os seres vivos. Crédito: Prof. Martin Trauth, Universidade de Potsdam

Antigos padrões climáticos semelhantes ao El Niño responderam pelas principais mudanças ambientais na África Subsaariana num período crítico da evolução humana. Uma equipe internacional de cientistas demonstrou que, nos últimos 620 mil anos, esses padrões alternadamente úmidos e secos tiveram impactos mais profundos na África Subsaariana do que os grandes ciclos da Era do Gelo, até agora mais comumente associados à jornada evolutiva da raça humana. Seu estudo foi divulgado na revista PNAS.

Segundo o professor Mark Maslin, do University College London (UCL, do Reino Unido), que contribuiu para o estudo, os resultados desafiam as teorias anteriores sobre o impacto das mudanças no clima nos nossos ancestrais mais antigos. “A análise detalhada do clima antigo da África, liderada pela drª Stefanie Kaboth-Bahr, da Universidade de Potsdam (Alemanha), revelou uma oscilação entre as condições úmidas e secas em todo o continente. Isso significa que, pelo menos nos últimos 600 mil anos, houve uma mudança ambiental contínua, à medida que as condições úmidas e exuberantes mudaram do leste para o oeste e depois voltaram”, ele afirmou.

“Isso levou a mudanças significativas nos padrões de migração de plantas e animais e contribuiu para a evolução de novas espécies de hominídeos. Este estudo mostra que as mudanças climáticas de longo prazo do El Niño – Oscilação Sul (ENSO, na sigla em inglês) em toda a África tiveram um efeito profundo na evolução dos primeiros humanos”, acrescentou Maslin.

A cratera de Ngorongoro, na orla do Serengeti, na Tanzânia, é o lar de uma abundante vida selvagem. As mudanças climáticas, no entanto, levam a uma dramática escassez de água, alterações na vegetação, perda de biodiversidade e doenças recorrentes que ameaçam o frágil ecossistema. Crédito: Prof. Martin Trauth, Universidade de Potsdam
Semelhança com o El Niño

É amplamente aceito que a mudança climática levou à evolução de nossa espécie na África. No entanto, o caráter exato dessa mudança e seus impactos ainda não eram totalmente compreendidos.

Os ciclos glaciais-interglaciais impactam fortemente os padrões de mudança climática em muitas partes do mundo. Eles também foram considerados como reguladores das mudanças ambientais na África durante o período crítico da evolução humana.

Na recente pesquisa, essa influência dos ciclos glaciais-interglaciais foi desafiada conforme os cientistas identificaram os antigos padrões climáticos semelhantes ao El Niño como os impulsionadores das principais mudanças climáticas na África. Isso lhes permitiu reavaliar a estrutura climática existente da evolução humana.

Para chegar a essa conclusão, eles integraram 11 arquivos climáticos de toda a África cobrindo os últimos 620 mil anos para gerar uma imagem espacial abrangente de quando e onde as condições úmidas ou secas prevaleciam no continente.

Líder do estudo, Stefanie Kaboth-Bahr disse: “Ficamos surpresos ao encontrar uma ‘gangorra’ climática distinta leste-oeste muito semelhante ao padrão produzido pelos fenômenos climáticos do El Niño, que hoje profundamente influencia a distribuição da precipitação na África”.

Hoje, um lamaçal salino, a Bacia Chew Bahir, no sul da Etiópia, já abrigou um extenso lago paleolítico durante as fases úmidas. Perfurações profundas da superfície atual produziram um registro sedimentar de aproximadamente 620 mil anos, fornecendo informações sobre as intensas mudanças do hidroclima altamente variável da África Oriental. Crédito: Annett Jungiger, Universidade de Tübingen
Mudanças entre leste e oeste da África

Os autores inferem que os efeitos do Oceano Pacífico tropical na chamada circulação de Walker – um cinturão de células de convecção ao longo do equador que impactam as chuvas e a aridez dos trópicos – foram os principais impulsionadores dessa gangorra climática. Os dados mostram claramente que as regiões úmidas e secas mudaram entre o leste e o oeste do continente africano em escalas de tempo de aproximadamente 100 mil anos. Além disso, cada uma das mudanças climáticas foi acompanhada por grandes mudanças na flora e na fauna de mamíferos.

Kaboth-Bahr afirmou: “Essa alternância entre os períodos secos e úmidos parece ter governado a dispersão e a evolução da vegetação, bem como dos mamíferos na África Oriental e na Ocidental. A colcha de retalhos ambiental resultante provavelmente foi um componente crítico da evolução humana e da demografia inicial”.

Os cientistas fazem questão de apontar que, embora a mudança climática certamente não tenha sido o único fator que impulsionou a evolução humana inicial, o novo estudo, no entanto, fornece uma nova perspectiva sobre o estreito vínculo entre as flutuações ambientais e a origem de nossos primeiros ancestrais.

Kaboth-Bahr acrescentou: “A reavaliação desses padrões de estase, mudança e extinção por meio de uma nova estrutura climática trará novos conhecimentos sobre o passado humano profundo. Isso não significa que as pessoas estivessem desamparadas diante das mudanças climáticas. Mas a mudança na disponibilidade de habitat certamente teria impactado os padrões demográficos e, em última instância, as trocas genéticas que sustentam a evolução humana”.

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