Geleira na área do Monte Branco corre risco de entrar em colapso

Fenômeno foi atribuído ao aquecimento global; região alpina atrai milhares de visitantes a cada ano

Face sul da Grande Jorasses, com a geleira Planpincieux à esquerda na foto: degelo perigoso. Crédito: Arjuno3/Wikimedia

Autoridades italianas fizeram um alerta na quarta-feira (25 de setembro) sobre a mudança climática devido à ameaça de uma geleira numa montanha do maciço do Monte Branco (o mais alto dos Alpes), que está derretendo e se movendo rapidamente para um vale próximo da cidade de Courmayeur, noticiou a agência Associated Press (AP). O prefeito de Courmayeur, Stefano Miserocchi, fechou uma estrada na montanha e proibiu o acesso a parte de Val Ferret, uma área para caminhadas fora do centro urbano, no lado sul do maciço do Monte Branco.

As medidas foram tomadas depois que especialistas alertaram que uma massa de 250 mil metros cúbicos da geleira Planpincieux corre o risco de desabar. A geleira, que ocupa uma área de 1,327 quilômetro quadrado, está se movendo até 60 centímetros por dia.

“Não há modelos para nos dizer se vai cair totalmente ou em partes”, disse Miserocchi à emissora Sky TG24. “Precisamos ficar de olho no monitoramento.” Segundo o prefeito, a culpa do problema está no aquecimento global. Mas ele garantiu que, mesmo que um grande pedaço da geleira desmorone, nenhum morador estaria em risco – apenas a área da estrada que foi fechada, denominada Rochefort.

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A Planpincieux está na montanha Grande Jorasses, situada no maciço do Monte Branco, que se estende pelas fronteiras de Itália, França e Suíça. O maciço possui 11 picos acima de 4 mil metros de altitude e atrai centenas de milhares de turistas a cada ano.

Temperaturas elevadas

Autoridades explicaram que temperaturas extraordinariamente altas durante agosto e setembro aceleraram o derretimento do gelo na Planpincieux, monitorada desde 2013 pela organização Safe Mountain Foundation.

O alerta repercutiu no primeiro escalão do governo italiano. O premiê Giuseppe Conte alertou os líderes mundiais sobre o risco de colapso da geleira durante seu discurso na noite anterior na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Conti ressaltou que a situação da geleira “é um alarme de que não podemos ser indiferentes”. Para o ministro do Meio Ambiente, Sergio Costa, a emergência mostra “a necessidade e a urgência de ações fortes e coordenadas para o clima, para evitar eventos extremos que envolvem o risco de consequências dramáticas”.

Segundo Moreno Vignolini, porta-voz de Courmayeur, ninguém precisou ser evacuado da cidade. Ele explicou que a estrada fechada é usada sobretudo como acesso a casas de veraneio. O prefeito Miserocchi reuniu-se com moradores da área para ouvir suas preocupações e se eles estavam com acesso limitado a suas propriedades.

Rapidez 

Um novo relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) informou na quarta-feira que geleiras ao redor do mundo, exceto na Groenlândia e na Antártida, estão perdendo 220 bilhões de toneladas métricas de gelo por ano. De acordo com o trabalho, o derretimento das geleiras está acontecendo mais rapidamente do que antes e está acelerando.

Os autores do relatório calculam que, se nada for feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, essas geleiras em geral encolherão 36% entre agora e o fim do século. No caso de geleiras menores, como as dos Alpes, porém, a perda poderá chegar a 80% de seu gelo até o ano 2100, no pior cenário.

Matthias Huss, glaciologista da ETH Zurich e chefe do grupo Glacier Monitoring Switzerland, disse à AP que a perda de gelo na Suíça e na Europa nos últimos cinco anos é a mais acentuada desde o início das medições, nos anos 1950. Ele observou que, neste verão, a linha de congelamento de 0 grau centígrado superou o topo do Monte Branco, algo muito difícil de acontecer. “Estamos derretendo a uma altitude de quase 5 mil metros acima do nível do mar, o que realmente está mudando o sistema e pode servir de suporte a eventos como geleiras caindo”, disse.