Golfinhos aprendem de modo semelhante ao de grandes símios

Técnica de capturar peixes é compartilhada por colegas, numa forma de aprendizado comum a grandes primatas, inclusive humanos

Roaz-do-índico: aprendizado transmitido entre colegas. Crédito: Aude Steiner/Wikimedia

Os golfinhos usam técnicas incomuns para obter alimentos. Uma delas, chamada “descasque”, é usada por esses animais em Shark Bay, na Austrália Ocidental. Esses golfinhos prendem os peixes dentro de grandes conchas vazias de gastrópodes (moluscos). As conchas são então trazidas à superfície e vigorosamente sacudidas para que a água escorra e o peixe caia na boca aberta. Usar a concha vazia dessa maneira é comparável ao uso de ferramentas em humanos.

Antes, pensava-se a única maneira de os golfinhos aprenderem novos métodos de alimentar-se era enquanto eles estavam com a mãe, um processo conhecido como transmissão social vertical. No entanto, um estudo iniciado por Michael Krützen, diretor do Departamento de Antropologia da Universidade de Zurique (UZH, na Suíça), mostrou agora que o “descasque” é transmitido principalmente entre pares, e não entre gerações – ou seja, por transmissão horizontal. A pesquisa foi publicada na revista “Current Biology”.

“Nossos resultados fornecem a primeira evidência de que os golfinhos também conseguem aprender com seus pares quando adultos”, afirmou Krützen. A análise de extensos dados comportamentais, genéticos e ambientais, abrangendo mais de uma década, levou a esses achados.

LEIA TAMBÉM: Animais marinhos morrem cada vez mais por causa do lixo plástico

“Este é um marco importante. Mostra que o comportamento cultural de golfinhos e outras baleias com dentes é muito mais semelhante ao comportamento de grandes símios, incluindo humanos, do que se pensava anteriormente”, disse Krützen. Gorilas e chimpanzés também aprendem novas técnicas de forrageamento através da transmissão vertical e horizontal.

Embora sua história evolutiva e seu ambiente sejam muito diferentes, existem semelhanças impressionantes entre cetáceos e grandes símios, segundo Krützen “Ambos são mamíferos de vida longa, com cérebros grandes, capazes de inovar e transmitir comportamentos culturais”, afirmou ele.

Mais de uma década de observação

Os pesquisadores fizeram sua descoberta entre 2007 e 2018 na área ocidental da Shark Bay, onde observaram golfinhos da espécie roaz-do-índico (Tursiops aduncus) e documentaram como o comportamento de descasques se espalhou na população. Durante esse período, eles identificaram mais de mil indivíduos em cerca de 5.300 encontros com grupos de golfinhos. “No total, documentamos 42 usos individuais de descasques por 19 golfinhos diferentes”, disse a líder do estudo, Sonja Wild, que concluiu seu doutorado na Universidade de Leeds (Reino Unido) e agora é pós-doutoranda na Universidade de Konstanz (Alemanha).

Essa descoberta de que os golfinhos selvagens podem aprender novas técnicas de forrageamento fora do vínculo mãe-filhote amplia significativamente a compreensão de como eles podem se adaptar às condições ambientais flutuantes por meio de mudanças comportamentais. “Aprender com os outros permite uma rápida disseminação de novos comportamentos entre as populações”, afirmou Wild.

Por exemplo, uma onda de calor marinha sem precedentes em 2011 foi responsável por eliminar um grande número de peixes e invertebrados em Shark Bay, incluindo os gastrópodes que habitam as conchas. “Embora possamos apenas especular se a onda de calor e o subsequente esgotamento das presas deram aos golfinhos um impulso para adotar novos comportamentos de forrageamento de seus colegas, parece bem possível que uma abundância de conchas mortas possa ter aumentado as oportunidades de aprendizado para o comportamento de descasque”, disse Sonja Wild.

Veja também

+ Invasão de vespas assassinas aumenta tensão com 2020 nos EUA
+ Anticoagulante reduz em 70% infecção de células pelo coronavírus
+ Assintomáticos: 5 dúvidas sobre quem pega o vírus e não tem sintomas
+ 12 dicas de como fazer jejum intermitente com segurança