Grandes símios de hoje são mais inteligentes que nossa ancestral ‘Lucy’

Estudo revela que taxa de fluxo sanguíneo cerebral de ancestrais humanos fica bem abaixo da observada em primatas não humanos modernos

Reconstituição de como seria 'Lucy', no Museu Den Haag, na Holanda: os grandes primatas de hoje têm mais inteligência. Crédito: Ellywa/Wikimedia

Pesquisas de cientistas australianos e sul-africanos sugerem que os grandes símios vivos são mais inteligentes que nosso ancestral pré-humano, o Australopithecus, grupo que incluía a famosa ‘Lucy’. O estudo, realizado em parceria com o Instituto de Estudos Evolucionários da Universidade de Witwatersrand (África do Sul) e publicado na revista “Proceedings of Royal Society B”, desafia a ideia de longa data de que, uma vez que tinha um cérebro maior que o de muitos macacos modernos, o Australopithecus era mais inteligente.

A nova pesquisa mediu a taxa de fluxo sanguíneo para a parte cognitiva do cérebro, com base no tamanho dos buracos no crânio pelo qual passavam as artérias que a supriam. Essa técnica foi calibrada em humanos e outros mamíferos e aplicada a 96 crânios de grandes símios e 11 crânios fósseis de Australopithecus.

Roger Seymour, professor da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Adelaide e líder da pesquisa, disse que o estudo revelou uma maior taxa de fluxo sanguíneo para a parte cognitiva do cérebro de grandes macacos vivos em comparação com o Australopithecus. “Os resultados foram inesperados para os antropólogos, porque geralmente se supõe que a inteligência está diretamente relacionada ao tamanho do cérebro”, disse ele.

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“No começo, o tamanho do cérebro parece razoável porque é uma medida do número de células cerebrais, chamadas neurônios. Pensando bem, no entanto, a cognição depende não apenas do número de neurônios, mas também do número de conexões entre eles, chamadas sinapses. Essas conexões governam o fluxo de informações dentro do cérebro, e uma maior atividade sináptica resulta em maior processamento de informações.”

Suprimento alto

O cérebro humano usa 70% de sua energia na atividade sináptica, e essa quantidade de energia depende de um suprimento sanguíneo proporcionalmente alto para fornecer oxigênio. Embora nosso cérebro ocupe apenas 2% do peso corporal, ele usa de 15% a 20% de nossa energia e requer cerca de 15% do sangue do coração.

Segundo Seymour, os grandes símios são muito inteligentes. Eles incluem a fêmea de gorila Koko, que aprendeu a se comunicar com mais de mil sinais, a fêmea de chimpanzé Washoe, que aprendeu cerca de 350 sinais, e Kanzi, um bonobo macho que não apenas desenvolveu um boa compreensão e sintaxe de inglês, mas também criou ferramentas de pedra.

“Como a inteligência dos grandes símios modernos se compara à dos nossos parentes de 3 milhões de anos, os australopitecíneos como Lucy? Os grandes símios não humanos têm cérebros de tamanho menor ou igual ao tamanho indicado pelos casos fósseis de espécies de Australopithecus, de modo que Lucy é geralmente considerada mais inteligente”, afirmou Seymour.

“Sabe-se que o cérebro humano grande parece um cérebro de primata em escala em termos de tamanho e número de neurônios”, acrescentou ele. “No entanto, o estudo mostra que a taxa de fluxo sanguíneo cerebral de ancestrais humanos fica bem abaixo dos dados derivados de modernos primatas não humanos.”

“Com base nos resultados, estima-se que o fluxo sanguíneo para os hemisférios cerebrais de Koko seja cerca do dobro do de Lucy. Como a taxa de fluxo sanguíneo pode ser uma medida melhor da capacidade de processamento de informações do que o tamanho do cérebro, Koko parece ter sido mais inteligente.”