Gratidão mapeada

Cientistas americanos coletaram imagens das áreas do cérebro ativadas pela gratidão que confirmam o papel benéfico desse sentimento em relação à saúde de quem o pratica

Gratidão (acima): para localizar no cérebro onde esse sentimento se manifesta, Fox usou experiências extraídas do Holocausto (abaixo, prisioneiros em Auschwitz) como matéria-prima (Fotos: iStockphotos e Divulgação)

Como mapear a gratidão no cérebro? O neurocientista americano Glenn Fox criou uma fórmula engenhosa para vencer o desafio: selecionar relatos de gratidão em estado praticamente puro e convocar pessoas a colocar-se como os indivíduos ajudados dessas histórias. O resultado é uma revolução no estudo desse sentimento e o associa ainda mais à saúde e ao bem-estar pessoal. Fox foi ao Instituto de História Visual da Fundação Shoah, da Universidade do Sul da Califórnia – que contém o maior arquivo mundial de testemunhos de sobreviventes do Holocausto gravados em vídeo – e escolheu, com a ajuda de uma equipe de alunos, histórias em que o narrador foi ajudado por alguma pessoa.

Cada uma dessas histórias foi convertida em cenas curtas e repassada para a segunda pessoa (por exemplo, “você está numa marcha no inverno e outro prisioneiro lhe dá um casaco quente”) antes de ser apresentada aos participantes do experimento. A estes foi pedido que se imaginassem na cena e descrevessem, tanto quanto possível, como se sentiriam se enfrentassem aquela situação. Enquanto os participantes pensavam sobre isso, sua atividade cerebral era medida por meio de ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês).

Os pesquisadores perguntaram aos participantes quanta gratidão eles sentiam em cada uma das cenas e correlacionaram essa classificação com a atividade cerebral desenvolvida naquele momento. Fox reconhece que, a princípio, as sensações não são exatamente as mesmas, mas foram descritos intensos sentimentos de gratidão e envolvimento profundo com a experiência – além de um conhecimento maior, aliado à empatia e à compreensão, sobre o que foi o Holocausto.

No cérebro, isso se refletiu em atividade em áreas situadas no córtex pré-frontal medial, região nos lobos frontais do cérebro onde os dois hemisférios se encontram. Essa região está associada à compreensão das perspectivas de outras pessoas, à empatia e a sentimentos de alívio. Ela também está intensamente ligada aos sistemas do corpo e do cérebro que regulam a emoção e dão suporte ao processo de alívio do estresse.

Relaxamento

As regiões ligadas à gratidão integram as redes neurais que se iluminam quando socializamos e experimentamos prazer. Elas também estão fortemente conectadas às partes do cérebro que controlam a regulação básica da emoção, como a frequência cardíaca e os níveis de excitação, e estão associadas ao alívio do estresse e, portanto, à redução da dor.

Também estão intimamente ligadas às redes de mu opioides (um dos três tipos de receptores opioides) do cérebro, que são ativadas durante o contato interpessoal e o alívio da dor. Ou seja: como a gratidão depende das redes cerebrais associadas ao vínculo social e ao alívio do estresse, isso pode explicar em parte como os sentimentos de gratidão geram benefícios para a saúde ao longo do tempo. “Sentir-se grato e reconhecer a ajuda de outros cria um estado corporal mais relaxado e permite que sejamos banhados pelos benefícios subsequentes do estresse reduzido”, afirma Fox.

Um estudo posterior da equipe liderada por Prathik Kini, da Universidade de Indiana (EUA), sobre como a gratidão pode alterar a função cerebral em indivíduos deprimidos, reuniu evidências de que a gratidão pode induzir mudanças estruturais nas mesmas partes do cérebro ativas no experimento de Fox. As duas pesquisas reforçam a noção de que a prática mental de gratidão pode até mesmo mudar e reconectar o cérebro.

Fox considera que a capacidade da gratidão para melhorar o sofrimento em circunstâncias como as das experiências não decorre da nossa capacidade de “pensar pensamentos felizes” ou negar a realidade. Em vez disso, seus benefícios provavelmente advêm das mesmas funções presentes em outros aspectos da vida: “Ela nos reúne, eleva a consciência do que temos e nos faz considerar como podemos reconhecer e espalhar o bem humano”. A investigação nessa área ainda está no início, lembra o neurocientista, mas os primeiros passos são entusiasmantes.

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