Guerra sem fim

Quase três décadas separam as expedições da fotógrafa Mônica Zarattini a Canudos, cidade baiana que abrigou resistência popular, mito, morte, e que traz questões sociais ainda presentes

A paulistana Mônica Zarattini chegou pela primeira vez a Canudos pelas mãos de Euclides da Cunha. Então fotojornalista de “O Estado de S.Paulo”, ela foi enviada ao sertão baiano em 1989 para fazer as imagens em preto e branco de uma reportagem especial sobre os 80 anos da morte do escritor. Euclides da Cunha trabalhou como repórter do mesmo jornal e cobriu a Guerra de Canudos, vivência que deu origem a uma das suas obras mais emblemáticas: “Os Sertões”. Em 2016, quando o final sangrento dessa guerra estava prestes a completar 120 anos, Mônica decidiu voltar a Canudos para realizar um projeto autoral. Mais uma vez, ela refez a trajetória da expedição fotojornalística, que foi o mesmo percurso realizado pela quarta expedição do Exército brasileiro ao povoado.

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Nas três expedições anteriores, os militares tinham perdido as batalhas para os sertanejos liderados pela figura mítica de Antônio Conselheiro. Estes últimos defendiam o uso coletivo da terra sem pagamento de impostos e eram contra o casamento civil. Esses ideais levaram latifundiários, a Igreja e o Estado republicano recém-instaurado no Brasil a se unirem contra o grupo. O resultado da quarta investida do Exército foi de 25 mil mortos: 20 mil civis e 5 mil soldados. “Se hoje já seria um número impressionante, era um escândalo para a época”, destaca Mônica.

Mais do que reviver essa história, o objetivo principal da nova visita de Mônica era reencontrar seus fotografados. Com um intenso trabalho investigativo, quase três décadas depois, ela conseguiu localizar cinco deles. Esses personagens foram clicados novamente em ambientes escuros, com a imagem antiga projetada sobre eles. No livro, um verdadeiro “túnel do tempo” faz a ligação entre as duas imagens. Um recorte sobre a projeção da foto, na altura do rosto da pessoa, mostra o rosto mais jovem impresso na página seguinte, que traz o original da foto feita no primeiro encontro.

“Pude ver que a condição de vida dessas pessoas mudou bastante para melhor, nesses 27 anos”, afirma Mônica. Com a chegada da energia elétrica, as famílias passaram a ter comodidades como luz, fogão e geladeira, que antes não existiam ali. O chão de terra batida foi substituído por pisos de cerâmica dentro dos casebres. E muitas cisternas – em formato que lembra discos voadores – foram instaladas do lado de fora, criando cenas contrastantes no meio da caatinga baiana.

Vidas mudadas

Esses paralelos estão expostos no fotolivro: as lavadeiras no açude, na primeira passagem por lá, são mostradas ao lado das imagens das cisternas da atualidade, e as pessoas percorrendo estradas a pé, no passado, estão coladas à foto do ponto de ônibus, mais recente. “Hoje eles já têm acesso a telefone por satélite e até a wi-fi, inclusive na área rural. As condições mínimas de sobrevivência melhoraram muito. Mas a pobreza continua.”

Como era de se esperar, a paisagem da caatinga não mudou quase nada. Para retratá-la, Mônica usou rolos de filmes infravermelhos que ficaram esses 27 anos guardados na geladeira. Na hora de transformar os ensaios em publicação, que recebeu o título “Plano, Seco e Pontiagudo” (Editoras Madalena e Ipsis, 2018), Mônica rompeu completamente com seu histórico de “26 anos e meio” no fotojornalismo e decidiu pela impressão de apenas 400 exemplares numerados e assinados, dando à produção um toque de obra de arte.

O livro foi dedicado aos moradores dos prédios ocupados na região central de São Paulo e um agradecimento foi registrado à líder da Frente de Luta por Moradia, Carmen Ferreira, pelo apoio dado ao projeto. “Acho que a luta das pessoas que estão morando nessas ocupações do Centro é basicamente a mesma das pessoas que estavam no arraial de Canudos, queriam um lugar para morar e não podiam pagar impostos”, afirma Mônica. Ela destaca que até as regras de convivência são parecidas.­ Na época de Antônio Conselheiro, a terra era de todos e a produção era para todos. Já hoje, nos edifícios, os próprios moradores se revezam na portaria e na limpeza das áreas comuns, por exemplo.

Devido a essa causa, o projeto de Mônica ainda vai além. “Eu não queria ficar restrita a museus ou galerias. Queria que a exposição das fotos ganhasse as ruas e abrisse espaço ao debate.” Para financiar essas ações, a fotógrafa criou uma campanha no site Kickante de crowdfunding (a “vaquinha virtual”). Duas semanas antes de acabar o prazo para reunir as doações, a campanha já havia superado a meta de R$ 7 mil.

Com o dinheiro arrecadado, as imagens serão ampliadas para 2 metros ou mais em formato de banner, impressão em pano ou lambe-lambe para ganhar a fachada de cinco dos edifícios ocupados, ainda neste semestre. Mônica também promoverá encontros com os moradores dessas ocupações para tratar da Guerra de Canudos. “Muitos deles são nordestinos, mas não conhecem esse capítulo da história.”

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