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Crenças e religiões14/03/2022

Guerras santas: como uma catedral de armas e glória simboliza a Rússia de Putin

O patriarca da Igreja Ortodoxa Russa Cirilo I, ao centro, participa de uma cerimônia de consagração da Catedral das Forças Armadas Russas nos arredores de Moscou. Andrey Rusov, Mil.ru/Wikimedia Commons

14/03/22 - 11h51min

Uma curiosa nova igreja foi inaugurada nos arredores de Moscou em junho de 2020: a Igreja Matriz das Forças Armadas Russas. A enorme catedral de cor cáqui em um parque temático militar celebra o poderio russo. Ela foi originariamente planejada para abrir no 75º aniversário da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista, em maio de 2020, mas a data foi adiada devido à pandemia.

Concebida pelo ministro da Defesa russo após a anexação ilegal da Crimeia pelo país em 2014, a catedral incorpora a poderosa ideologia defendida pelo presidente Vladimir Putin, com forte apoio da Igreja Ortodoxa Russa.

A visão do Kremlin sobre a Rússia conecta o Estado, os militares e a Igreja Ortodoxa Russa. Como estudiosa do nacionalismo, vejo esse nacionalismo religioso militante como um dos elementos-chave na motivação de Putin para a invasão da Ucrânia, meu país natal. Também ajuda bastante a explicar o comportamento de Moscou em relação ao “Ocidente” coletivo e à ordem mundial pós-Guerra Fria.

Anjos e armas

A torre do sino da Igreja das Forças Armadas tem 75 metros de altura, simbolizando o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. O diâmetro de sua cúpula é de 19,45 metros, marcando o ano da vitória: 1945. Uma cúpula menor tem 14,18 metros, representando os 1.418 dias que a guerra durou. Armas de troféu são derretidas no chão para que cada passo seja um golpe para os nazistas derrotados .

Afrescos celebram o poderio militar da Rússia através da história, desde batalhas medievais até guerras modernas na Geórgia e na Síria. Arcanjos lideram exércitos celestiais e terrestres, Cristo empunha uma espada e a Santa Mãe, retratada como a Pátria, dá apoio.

“Berço” do cristianismo

Os planos originais para os afrescos incluíam uma celebração da ocupação da Crimeia, com pessoas exultantes segurando uma faixa que dizia “A Crimeia é nossa” e “Com a Rússia para sempre”. Na versão final, o polêmico “A Crimeia é nossa” foi substituído pelo mais benigno “Estamos juntos”.

Quando a Rússia anexou a Península da Crimeia da Ucrânia em 2014, a Igreja Ortodoxa Russa celebrou, chamando a Crimeia de “berço” do cristianismo russo. Essa mitologia baseia-se na história medieval do príncipe Vladimir, que se converteu ao cristianismo no século 10 e foi batizado na Crimeia. O príncipe então impôs a fé a seus súditos em Kiev, e ela se espalhou de lá.

A Igreja Ortodoxa Russa, também chamada de Patriarcado de Moscou, há muito reivindica esse evento como sua história fundamental. O Império Russo, que se vinculou à Igreja, também adotou essa história fundacional.

“Mundo Russo”

Putin e o chefe da igreja russa, patriarca Cirilo I, ressuscitaram essas ideias sobre o império para o século 21 na forma do chamado “Mundo Russo” – dando um novo significado a uma frase que data dos tempos medievais.

Em 2007, Putin criou a Russian World Foundation, encarregada de promover a língua e a cultura russas em todo o mundo, como um projeto cultural que preserva as interpretações da história aprovadas pelo Kremlin.

Para a Igreja e o Estado, a ideia de “Mundo Russo” abrange a missão de tornar a Rússia um centro espiritual, cultural e político da civilização para combater a ideologia liberal e secular do Ocidente. Essa visão tem sido usada para justificar políticas internas e externas.

A Grande Guerra Patriótica

Outro mosaico planejado retratava as comemorações da derrota da Alemanha nazista pelas forças soviéticas – a Grande Guerra Patriótica, como a Segunda Guerra Mundial é chamada na Rússia. A imagem incluía soldados segurando um retrato de Josef Stálin, o ditador que liderou a URSS durante a guerra, entre uma multidão de veteranos condecorados. Este mosaico teria sido removido antes da abertura da igreja.

A Grande Guerra Patriótica tem um lugar especial, até mesmo sagrado, na visão da história dos russos. A União Soviética sofreu imensas perdas – 26 milhões de vidas é uma estimativa conservadora. Além da pura devastação, muitos russos veem a guerra como uma guerra sagrada, na qual os soviéticos defenderam sua pátria e o mundo inteiro do mal do nazismo.

Sob Putin, a glorificação da guerra e o papel de Stálin na vitória atingiram proporções épicas. O nazismo, por muito boas razões, é visto como uma manifestação do mal supremo.

A retórica desse nacionalismo religioso militante foi exibida quando a Rússia ameaçou e, finalmente, invadiu a Ucrânia. Durante um discurso em 24 de fevereiro de 2022, Putin pediu bizarramente a “desnazificação” da Ucrânia. Ele também falou das relações fraternas entre russos e ucranianos e negou a existência do Estado ucraniano. Na sua opinião, a soberania da Ucrânia é um exemplo de nacionalismo extremo e chauvinista.

A afirmação de Putin de que o governo da Ucrânia é dirigido por nazistas é absurda. No entanto, a manipulação dessa imagem faz sentido no quadro dessa ideologia. Pintar o governo de Kiev como o mal ajuda a pintar a guerra na Ucrânia em preto e branco.

Missão messiânica

Questões geopolíticas tangíveis podem estar impulsionando a guerra de Putin na Ucrânia, mas suas ações também parecem motivadas pelo desejo de garantir seu próprio legado. Em sua visão da “Grande Rússia”, restaurada ao seu tamanho e influência anteriores, Putin é um defensor que deve derrotar seus inimigos.

O próprio presidente russo apareceu em versões anteriores dos afrescos da catedral, junto com o ministro da Defesa Sergei Shoigu e o ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov. No entanto, o mosaico foi removido após controvérsia, com o próprio Putin dando ordens para derrubá-lo, dizendo que era muito cedo para celebrar a atual liderança do país.

O patriarca Cirilo I, que chamou o governo de Putin de “milagre de Deus”, disse que a nova catedral “mantém a esperança de que as gerações futuras peguem o bastão espiritual das gerações passadas e salvem a Pátria de inimigos internos e externos”.

Esse nacionalismo religioso volátil se manifesta no militarismo que se desenrola na Ucrânia.

Em 24 de fevereiro de 2022, dia em que a invasão começou, o patriarca Cirilo I pediu uma resolução rápida e proteção dos civis na Ucrânia, enquanto lembrava aos cristãos ortodoxos a conexão fraterna entre as duas nações. Mas ele não condenou a guerra em si e se referiu às “forças do mal” que tentam destruir a unidade da Rússia e da Igreja Ortodoxa Russa.

* Lena Surzhko Harned é professora assistente de Ciência Política na Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State, nos EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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