Guerreiras vikings

A exemplo da protagonista da série Vikings, do canal History, ganha força a hipótese de mulheres terem lutado em batalhas dos povos nórdicos

Lagertha (vivida na série pela atriz Katheryn Winnick, ao centro) chegou a ser líder militar

Assim como Lagertha, personagem histórica da série de televisão Vikings, do canal pago History, mulheres livres e guerreiras podem ter se destacado entre os povos vikings. Mesmo sem provas arqueológicas de que elas de fato existiram, essas guerreiras povoam a mitologia nórdica. Mitos femininos estão presentes em documentos, textos e poesias da época.

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Na série, baseada em lendas norueguesas, Lagertha é esposa do guerreiro viking Ragnar Lothbrok e uma skjaldmö (“donzela de escudo”). Ela vai a batalhas e chega ao posto de duque, tornando-se líder militar. Segundo o Gesta Danorum, livro do século 12 sobre feitos dinamarqueses, de autoria do historiador medieval Saxo Grammaticus, Lagertha era guerreira e reconhecida valquíria (veja quadro ao final da reportagem).

Os povos da Escandinávia (Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia) se estabeleceram no imaginário da cultura ocidental. Conhecidos como bárbaros, selvagens e até demônios pela fé cristã, os vikings influenciaram e dominaram regiões da Europa. O perío­do conhecido como “Era Viking” começou em 793 d.C., com o ataque ao mosteiro de Lindisfarne, na Inglaterra, e acabou em 1066 d.C., com a morte de Harald Hardrada e a invasão dos normandos, também em terras inglesas.

“Os vikings constituíram a cultura de guerreiros mais famosa da Idade Média”, relata o historiador Johnni Langer no livro As Religiões que o Mundo Esqueceu, organizado pelo arqueólogo e historiador Pedro Paulo Funari (Ed. Contexto), da USP e livre-docente da Unicamp. Possivelmente, as mulheres daquela cultura eram preparadas para certos conflitos militares. “A presença de mulheres guerreiras na mitologia parece mesmo indicar que elas tinham uma posição social mais destacada do que em outras sociedades antigas”, observa Funari.

A civilização viking era envolta em grande misticismo, a começar pelo uso das runas, alfabeto mágico dos povos germânicos. Como os povos nórdicos se fixaram nas áreas dominadas e tinham uma religiosidade basea­da em cultos, atos e ritos (e não em dogmas), sua cultura religiosa sofreu mudanças após o domínio cristão. O cristianismo introduziu novos conceitos religiosos e influenciou fontes históricas.

Transcrições dos mitos, lendas e sagas nórdicas só foram elaboradas na era cristã e com a consolidação dos reinos da Dinamarca, Noruega e Suécia. Como as expedições vikings deram lugar a ações militares, a cultura se perdeu. É preciso lembrar que viking era um ofício ligado a operações de guerra naval, pirataria e comércio marítimo, constituindo uma pequena parcela da população, formada na maioria por camponeses. O modelo feminino tinha aspectos conflitantes. De um lado, havia deusas vikings da mitologia germânica, associadas a valores guerreiros de autossuficiência, feminilidade e feitiçaria.

De outro, a imagem da Virgem Maria, como modelo de pureza, submissão e devotamento à família. “Servir ao homem era função da mulher nos antigos povos germânicos, pois nenhum guerreiro dedicava-se a serviços domésticos”, diz Marlon Maltauro, historiador da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (PR), no ensaio “A Representação da Mulher Viking na Volsulga Saga”. Eram deveres da mulher os afazeres domésticos, como cuidar das crianças, preparar os alimentos, limpar a casa, lavar roupa, dedicar-se à tecelagem, ordenhar as vacas, fazer queijo e manteiga, preparar remédios e tratar dos doentes e feridos.

Mas, diferentemente do cristianismo, havia sacerdotisas no corpo religioso. Elas podiam conduzir rituais de sacrifício e ritos de adoração a deuses. “Eram integrantes de expedições colonizadoras e podiam participar na defesa armada em casos de ataque”, relata Judith Jesch, professora de estudos vikings da Universidade de Nottingham, na Inglaterra. As mulheres também tinham alguns direitos perante a sociedade, como ter propriedades e bens legais, direito à herança do marido e ao divórcio. Um dos motivos aceitos para o fim do matrimônio, por exemplo, era a impotência masculina.

Não se sabe até que ponto foram alteradas as fontes (sobretudo as literárias) para o estudo dessa sociedade, mas discute-se o quanto as histórias são romantizadas por influência do período medieval. Sabe-se, porém, que a mulher nórdica era vista como “sustentadora da vida, do mundo natural e da comunidade, encorajando a sexualidade e o casamento”. E que as deusas eram tidas “como forças indomadas da natureza e com aspectos selvagens do comportamento humano”, relata Francielly Delvalle, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, no ensaio “As Representações da Mulher na Mitologia Nórdica”. Uma coisa é certa: o passado dos vikings segue cercado de segredos e mistérios como os da heroína Lagherta.

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