Harmonia na diversidade

Destaque indiscutível nas cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas, o samba, um dos maiores símbolos brasileiros, evidencia um momento de conciliação entre as culturas europeia e africana, como mostra o texto a seguir, de Luis Pellegrini, publicado em PLANETA 281

O samba é um dos recursos de que os negros brasileiros dispõem para compensar a exploração econômica e as injustiças sociais de que ainda hoje são vítimas. “Quem canta seus males espanta”, diz a letra de um samba. Ao som dos tambores, do violão, do pandeiro e do tamborim, nos morros do Rio de Janeiro, nos pagodes da periferia de São Paulo, o negro afugenta suas penas cantando-as. Tristezas de amor, falta de dinheiro, ciúmes, a violência do preconceito, a psicologia negra e mulata revela-se nas palavras desses sambas.

Mas elas também descortinam toda a poesia do povo, o amor pela natureza, a ternura pelo mar, o vigoroso pulsar da vida. No carnaval, como a ilustrar o mito da fênix que renasce das próprias cinzas, as nações africanas retornam sob a forma de escolas de samba. Sob o feitiço do samba, tudo volta às origens: os totens reaparecem, os mestiços voltam a ser índios, os brancos encontram de novo, na barafunda dos sexos­ e das classes sociais, as raízes­ profundas das saturnais romanas.

Trecho de “O feitiço do samba”, de Luis Pellegrini, publicado em PLANETA 281 (fevereiro de 1996)
Trecho de “O feitiço do samba”, de Luis Pellegrini, publicado em PLANETA 281 (fevereiro de 1996)

No samba, as duas civilizações, a dos terreiros xamânicos da África e a das igrejas barrocas de Portugal, não contrastam uma com a outra, mas se interpenetram, se harmonizam, dando origem a um amálgama espiritual que energiza o Brasil. Como escreveu [o sociólogo francês] Roger Bastide, “o cintilar contínuo do ouro corresponde, no domínio da vista, ao barulho do tantã no domínio da audição; ambos são um apelo para sair da vida profana e entrar no mundo sagrado”.

O samba brasileiro é a prova evidente de que as duas civilizações, a católica europeia e a xamânica africana, que parecem tão afastadas uma da outra, não precisam se chocar como forças antagônicas, mas podem, como disse Bastide, “compor uma única música a duas vozes: o órgão barroco e o tambor febril; os santos óleos do batismo e dos moribundos, e o azeite de dendê que escorre das pedras sagradas da África; a mística dos santos e a mística dos orixás”.

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