Hospital de bonecas – Como restaurar sonhos e sudades

Loja centenária no centro de Lisboa faz mais que vender e restaurar bonecas.

 

À esquerda, bonecas alemãs do início do século 20 expostas no museu do Hospital de Bonecas; à direita, fachada do Hospital, na Praça da Figueira, centro histórico de Lisboa.

Embora seja bastante discreta, uma pequena loja na Praça da Figueira, número 7, no centro de Lisboa (Portugal), não costuma passar despercebida. Seu toldo de cor clara, de pouco mais de dois metros de comprimento, sobre uma única porta, traz impressas três palavras que chamam a atenção dos mais curiosos: Hospital de Bonecas. Mas é ao adentrar seu estreito corredor, repleto de detalhes que chegam a atordoar os olhos, que o visitante percebe estar diante de um local realmente diferente, especial, no início de uma viagem no tempo.

O Hospital de Bonecas de Lisboa começou a atender o público, por volta de 1830, sempre com o ofício de consertar e vender bonecas. Tornou-se muito mais que isso. No decorrer desse longo período, passou por várias gerações de proprietários e se transformou num patrimônio cultural da cidade, testemunho de grandes mudanças ocorridas no mundo e que tiveram seus reflexos na infância e no brincar.

ESPELHO DO MUNDO

“O mundo dos brinquedos é um espelho do mundo em que vivemos. Antigamente, embora as bonecas fossem feitas de materiais mais frágeis, como a louça e a porcelana, duravam muito mais, pois as crianças só brincavam em situações especiais, na companhia de alguém. Hoje, elas têm mais liberdade para brincar, mas tudo é mais rápido, descartável, as bonecas são jogadas fora com muito mais facilidade e não fazem parte da história das pessoas”, diz Manuela Cutileiro, proprietária da loja há 17 anos, desde que herdou o negócio de Ana Tavares, neta dos fundadores. Manuela conta que Ana, última dona, era amiga dos avós dela. Como não tinha filhos, o negócio estava fadado a fechar. “Fiquei responsável por dar continuidade a essa atividade que não pode morrer”, completa, antes de ser interrompida por uma das clientes, que atravessa o corredor cheio de armários e brinquedos.

É Conceição Toreiro, 62 anos, que parece ansiosa. Veio buscar uma antiga boneca sua que estava para ser restaurada e que daria agora para sua neta Carolina, de 4 anos, depois dos devidos reparos. Tinha um braço quebrado e as roupas estavam todas rasgadas e manchadas. “Essa boneca tem mais de 50 anos. Ganhei da minha avó quando eu tinha apenas uns 5 anos, bem miú da”, diz a senhora, com orgulho. Ao receber a boneca das mãos de Manuela, os olhos brilham e imediatamente ela pergunta por novas roupas. Escolhe-as como se o brinquedo fosse um bebê de verdade – pergunta pelo tamanho, olha as costuras e busca um modelo que combine com tudo. “Mas a senhora vai ter coragem de dar mesmo para sua neta?”, pergunto. “Acho que sim, vamos ver quando eu chegar em casa”, responde Conceição, com ar de criança quando ganha um novo presente e não vai dividir com as amiguinhas.

Quase ao mesmo tempo, outra senhora chega trazendo uma boneca para que arrumem os olhos e o braço, que estão quebrados. É também uma boneca de mais de 50 anos, que ganhou de seus pais aos 7 anos. “Mas vou manter essas mesmas roupinhas que foram feitas pela minha mãe”, afirma a cliente, que se identifica como Ana Lúcia da Silva e diz que vai colocar o brinquedo em um lugar de destaque em seu quarto.

Para que os olhos voltem a abrir e fechar, ela vai pagar 75 euros. O reparo do braço vai custar mais 38 euros. No total, ela iria pagar 113 euros (aproximadamente R$ 250) para ver sua boneca restaurada, muito mais do que desembolsaria por uma boneca nova. “Essa tem muita história, sabe?” explica a senhora.

Manuela mostra os detalhes do que foi feito no brinquedo e justifica os valores cobrados: “Para nós, é o preço justo por um trabalho demorado, meticuloso, que exige paciência e material de primeira qualidade. Para as pessoas, é o preço que vale a lembrança de uma vida inteira”, diz a proprietária, que também se apoia na filosofia de que tudo se pode recuperar, reinventar, arranjar. “O fim das coisas não precisa ser o lixo, pois não concordamos com esse mundo onde tudo é descartável”, completa.

Mesa de trabalho repleta de peças de bonecos e materiais que serão usados para restauração.

Poucos minutos depois, outro cliente confirma que o Hospital de Bonecas vai além de uma loja de brinquedos ou de uma oficina de consertos. Entra na loja um senhor negro em busca de bonecas negras para suas duas filhas. Pergunto por que ele havia entrado ali, naquela loja tão pequena, entre tantas grandes do centro da cidade. “É que só encontrei esse tipo de boneca aqui, estava passando, vi na vitrine e não quis perder a oportunidade de levar uma para minhas meninas”, conta. Infelizmente, a situação esconde um reflexo social de grande força: o preconceito. Praticamente não se vendem bonecas negras na capital mais negra da Europa, uma cidade que possui dezenas de milhares de habitantes vindos das ex-colônias portuguesas no Continente Africano e que agora são uma grande porcentagem da população. “Acho uma aberração não venderem bonecas negras nesta cidade. É muito raro encontrá-las aqui”, diz Manuela, indignada. “Por isso, sempre digo que o mundo dos brinquedos é um grande reflexo da sociedade”, repete a proprietária.

Muitas bonecas vieram com o término da primeira guerra mundial, trazidas pelos pracinhas portugueses que lutaram no front

Aproveitando o assunto, Manuela ainda cita a boneca Barbie, criada em 1959 e que completou 50 anos de existência recentemente. Segundo ela, mais que um simples brinquedo, as Barbies são também uma metáfora das mudanças que ocorreram nas décadas de 50 e 60. “Foi quando a mulher começou a trabalhar fora, se tornar mais independente, em vez de ser só dona de casa. A Barbie não foi criada para a menina pensar em ser mãe, mas para começar a aprender a ser mulher”, completa.

MUSEU E LEITOS

Uma pausa na chegada dos clientes permite que Manuela nos conduza ao primeiro andar do edifício. É ali que foi montado, há dois anos, um pequeno museu, onde estão bonecas de vários tipos e materiais, divididas por nacionalidade e por tamanho, dispostas em grandes armários com portas de vidro. Um exibe bonecas orientais, outro bonecas alemãs, outro portuguesas, espanholas e assim por diante. São tantos detalhes que é perigoso se perder em meio aos pensamentos e lembranças. Há também casas de bonecas, carrinhos, roupas e outros artigos ligados ao tema. Manuela explica que entre tantas bonecas há algumas raras, que pertenceram ao Hospital de Bonecas desde a sua fundação, no século 19 – uma época que, segundo ela, foi pródiga na fabricação desse tipo de brinquedo. “Muitas vieram para cá com o término da Primeira Guerra Mundial, trazidas pelos pracinhas portugueses que lutaram no front e faziam questão de voltar para suas casas com um presente para seus filhos e esposas”, explica.

Acima, à esquerda, Catarina Cutileiro restaura os olhos de uma boneca; à direita, a proprietária, Manuela Cutileiro, no balcão onde ouve dezenas de histórias emocionantes todos os dias.

É também no primeiro andar que está a área de restauração. Ali trabalha Catarina Cutileiro, filha de Manuela, que se movimenta entre as várias salas que levam placas correspondentes ao tratamento aplicado: a “Cirurgia Plástica” é onde se pintam as bonecas, cuidam-se dos cabelos; a “Sala de Traumas” é para onde vão as bonecas que quebraram pernas e braços; na “Sala dos Transplantes” está uma mesa cheia de pernas e olhos, onde os bonecas ganham novos órgãos. Nessa mesma sala há um grande armário com partes do corpo divididos por função e tipo, que chega a ser engraçado.

“Trabalhamos com bonecas com grandes mecanismos, parecidos com o de um relógio, bastante complexos, com detalhes minúsculos que auxiliavam no choro e no movimento de membros, dos olhos, por exemplo. Há até bonecas que andam”, diz Catarina. Aliás, foi um desses modelos que ela lembra como um dos mais desafiantes, para o qual foi preciso perder dias estudando, pesquisando e conversando com outras pessoas que já haviam trabalhado com o tipo de mecanismo empregado até chegar a uma solução que fizesse a boneca voltar a andar. “Não havia quase nenhuma referência e tive de ir descobrindo aqui e ali, soltando e apertando engrenagens, engraxando e tentando entender como funcionava. Finalmente consegui restaurá-la e ver seus movimentos recuperados, dando-lhe uma nova vida. Foi muito recompensador”, diz a jovem, que hoje tem o restauro como profissão e certamente dará continuidade ao trabalho da mãe. Aliás, é em suas mãos habilidosas que se mantêm vivas as passagens do tempo, preservadas na memória de Manuela e das centenas de pessoas que passam todos os dias pelo discreto Hospital de Bonecas. É ali, na pequena porta do número 7 da Praça da Figueira, que se restauram muito mais que bonecas, se restauram sonhos e lembranças.

 

SERVIÇO

Hospital de Bonecas

Praça da Figueira, 7 Lisboa – Portugal

Telefone: 00 351 213428574

Site: www.hospitaldebonecas.com

E-mail: info@hospital debonecas.com

 

 

 

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