Humanos já estavam no México há 30 mil anos

Ferramentas de pedra encontradas em caverna no norte do México fazem a ciência recuar em 15 mil anos a presença confirmada de seres humanos nas Américas

Cientistas trabalham nas diferentes camadas achadas na caverna Chiquihuite: descobertas implicam dizer que o homem já estava presente nas Américas 15 mil anos antes da data oficialmente aceita hoje. Crédito: Devlin A. Gandy

A descoberta de ferramentas de pedra fez a primeira migração de seres humanos para as Américas retroceder pelo menos 15 mil anos. Isso é revelado em um novo estudo internacional publicado na revista “Nature”, em que pesquisadores analisaram material antigo de uma caverna no norte do México. De acordo com o trabalho, os primeiros humanos chegaram às Américas há pelo menos 30 mil anos, cerca de 15 mil anos antes do que a ciência aceita oficialmente.

A equipe por trás do artigo é composta por arqueólogos e especialistas em DNA da Universidade de Copenhague, da Universidade Autônoma de Zacatecas (México) e de outras instituições de ensino superior do México, Reino Unido, EUA e Brasil, entre outros países. Os brasileiros envolvidos no estudo são Vanda B. de Medeiros e Paulo E. de Oliveira, ambos do Laboratório de Micropaleontologia do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP).

“O artigo da ‘Nature’ é uma granada de mão científica. O fato de que ele faz retroceder significativamente o tempo da imigração para a América garante um debate acalorado”, disse Eske Willerslev, do St. John’s College, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), e diretor do Centro de Geogenética da Fundação Lundbeck, da Universidade de Copenhague, e um dos autores correspondentes do texto. Willerslev liderou o estudo com o arqueólogo Ciprian Ardelean, da Universidade Autônoma de Zacatecas.

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Quase 2 mil ferramentas

Os pesquisadores fizeram análises de DNA de restos de material animal e vegetal encontrados durante as escavações da caverna Chiquihuite, no norte do México. Trata-se de um lugar alto, a 2.750 metros acima do nível do mar. Está em uma área que agora é controlada por cartéis de drogas. Os acadêmicos foram escoltados pela polícia armada até a base da montanha antes de chegarem à caverna a pé.

Há 30 mil anos, os humanos já haviam desenvolvido técnicas para produzir ferramentas. Na caverna mexicana, os pesquisadores encontraram 1.900 ferramentas de pedra.

Pesquisadores ingressam na caverna: local alto. Crédito: Devlin A. Gandy

A característica única da caverna Chiquihuite é o “piso”. Ele consiste em seis camadas de detritos e poeira – ao todo, uma coluna de três metros de vestígios antigos. As camadas se encontram tão compactadas e estáveis que, usando vários métodos avançados de medição, foi possível datá-las uma a uma, de cima para baixo.

Cada camada contém depósitos de ferramentas de pedra, como facas, raspadores e pontas de flechas, que os pesquisadores também conseguiram datar.

“Os achados das cavernas são extremamente interessantes. Esses achados são até agora os mais antigos da América. E as ferramentas de pedra escavada são de um tipo exclusivo da América”, afirma Ciprian Ardelean, primeiro autor do artigo publicado na “Nature”.

Calota de gelo na América do Norte

Até agora, a ciência assumia que a primeira imigração para a América ocorreu aproximadamente há 15 mil anos. Na época, foi criada uma estreita ponte de gelo ao longo da costa norte do Pacífico, o que tornou possível caminhar da Sibéria para o continente americano.

Na época, não havia outras vias de acesso ao continente, porque a América do Norte estava coberta por uma espessa calota de gelo, que só mais tarde (cerca de 13 mil anos atrás) derreteram o suficiente para permitir a passagem.

Há 30 mil anos, quando as primeiras ferramentas de pedra foram deixadas na caverna Chiquihuite, a enorme calota de gelo ainda não havia coberto toda a América do Norte. Isso significa que seria possível caminhar da Sibéria e descer o continente americano, explicou Willerslev.

“E é assim que devemos entender a presença desses humanos no México nesse momento específico”, disse o pesquisador dinamarquês. “Infelizmente, porém, não temos ideia de quem eles eram. Porque, embora tenhamos pesquisado minuciosamente o DNA humano nas amostras que coletamos durante os dez dias que passamos na caverna Chiquihuite, não havia vestígios humanos. No entanto, ainda podemos encontrar alguns nas centenas de amostras de terra que reunimos, porque ainda não tivemos tempo de analisar todas elas.”

Origem desconhecida

Ardelean reiterou que ainda não dá para saber quem era o grupo que ocupava a caverna. “Não sabemos quem eles eram, de onde vieram ou para onde foram”, afirmou. “Eles são um enigma completo. Assumimos falsamente que as populações indígenas das Américas hoje são descendentes diretos dos primeiros americanos, mas agora não pensamos que é esse o caso. (…) Quando a famosa população de Clovis entrou na América, os primeiros americanos haviam desaparecido milhares de anos antes. Poderia ter havido muitas colonizações fracassadas que foram perdidas no tempo e não deixaram vestígios genéticos na população hoje.”

Willerslev acrescentou: “Durante décadas, as pessoas debatem apaixonadamente quando os primeiros humanos entraram nas Américas. A caverna Chiquihuite criará muito mais debate, pois é o primeiro local que data a chegada de pessoas ao continente há cerca de 30 mil anos. Esses visitantes não ocupavam a caverna continuamente. Pensamos que as pessoas passavam parte do ano lá como abrigo de inverno ou verão ou como base para caçar durante a migração. Esse pode ter sido o mais antigo hotel das Américas”.

Segundo Mikkel Winther Pedersen, da Universidade de Copenhague, encarregado das análises de DNA, seus achados contêm amostras de DNA de inúmeras plantas e animais. Ele disse: “Por exemplo, encontramos DNA de um urso-negro americano, uma grande variedade de roedores, vários tipos de morcegos, além de um pardal e um falcão. Esses são todos os animais que esperamos encontrar no México na época”.

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