Humanos têm moldado a ecologia da Terra por pelo menos 12 mil anos

Grande estudo internacional revela que povos indígenas têm gerenciado e impactado ecossistemas por milhares de anos, principalmente de maneiras positivas e sustentáveis

Angkor, no Camboja: civilizações antigas alteraram ecossistemas, mas raramente da forma danosa que a humanidade faz atualmente. Crédito: Piqsels

Um grande estudo internacional mostra que o uso da terra pelas sociedades humanas remodelou a ecologia na maior parte das terras do nosso planeta por pelo menos 12 mil anos. A equipe de pesquisa, de mais de dez instituições ao redor do mundo, revelou que a principal causa da atual crise da biodiversidade não é a destruição humana de áreas selvagens desabitadas, mas sim a apropriação, colonização e o uso intensificado de terras anteriormente manejadas de forma sustentável. O trabalho foi publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)”

Os novos dados derrubam reconstituições anteriores da história global do uso da terra, algumas das quais indicavam que a maior parte das terras do planeta estava desabitada, mesmo recentemente, em 1500 d.C. Além disso, o novo estudo apoia o argumento de que uma maneira essencial de acabar com a atual crise de biodiversidade da Terra é capacitar a gestão ambiental dos povos indígenas e comunidades locais em todo o planeta.

“Nosso trabalho mostra que a maioria das áreas descritas como ‘intocadas’, ‘selvagens’ e ‘naturais’ são, na verdade, áreas com longas histórias de ocupação e uso humano”, disse Erle Ellis, professor de geografia e sistemas ambientais da Universidade de Maryland no Condado de Baltimore (UMBC, nos EUA) e autor principal do estudo. Ele observa que essas áreas podem ser interpretados assim porque, nelas, “as sociedades usavam suas paisagens de maneiras que sustentavam a maior parte de sua biodiversidade nativa e até aumentavam sua biodiversidade, produtividade e resiliência”.

Mapeando 12 mil anos de uso da terra

A equipe de pesquisa interdisciplinar inclui geógrafos, arqueólogos, antropólogos, ecologistas e cientistas conservacionistas. Eles representam os EUA, Holanda, China, Alemanha, Austrália e Argentina, reunindo seu conhecimento e experiência em um estudo em grande escala que exigiu uma abordagem altamente colaborativa. Os pesquisadores testaram o grau em que os padrões globais de uso da terra e população ao longo de 12 mil anos foram associados estatisticamente aos padrões globais contemporâneos de alto valor de biodiversidade em áreas priorizadas para conservação.

“Nossos mapas globais mostram que, mesmo 12 mil anos atrás, quase três quartos da natureza terrestre eram habitados, usados ​​e moldados por pessoas”, afirmou Ellis. “Áreas intocadas por pessoas eram quase tão raras 12 mil anos atrás quanto são hoje.”

Os mapas criados para o estudo estão disponíveis para visualização interativa online.

Cinco mapas que ilustram mudanças globais em antromos (biomas antropogênicos) e populações de 10000 a.C. a 2017 d.C. Crédito: Erle Ellis, professor de Geografia e Sistemas Ambientais da Universidade de Maryland no Condado de Baltimore (UMBC)
Biodiversidade sustentada no geral

As práticas culturais dos primeiros usuários da terra tiveram algum impacto nas extinções. No entanto, em geral, o uso da terra por comunidades indígenas e tradicionais sustentou a vasta maioria da biodiversidade da Terra por milênios. Essa descoberta chega em um momento crítico de grande necessidade de desenvolver respostas sustentáveis ​​de longo prazo para nossos maiores problemas ambientais.

“O problema não é o uso humano em si”, explicou a professora e coautora Nicole Boivin, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana em Jena (Alemanha). “O problema é o tipo de uso da terra que vemos nas sociedades industrializadas – caracterizado por práticas agrícolas insustentáveis ​​e extração e apropriação não mitigadas.”

Para compreender verdadeiramente a natureza terrestre hoje, é necessário compreender a profunda história humana dessa natureza. Fora de algumas áreas remotas, “a natureza como a conhecemos foi moldada por sociedades humanas ao longo de milhares de anos”, disse Ellis. Ele acredita que os esforços para conservar e restaurar “não terão sucesso sem capacitar os povos indígenas, tradicionais e locais, que conhecem sua natureza de maneiras que os cientistas estão apenas começando a entender.”

Apoio a práticas de uso de terras indígenas

Os autores argumentam que suas descobertas confirmam que a conservação e a restauração da biodiversidade se beneficiarão mudando o foco da preservação da terra em uma forma imaginada como “intocada” para apoiar os povos indígenas e tradicionais cujas práticas de uso da terra ajudaram a sustentar a biodiversidade a longo prazo.

“Este estudo confirma em uma escala não compreendida anteriormente que os povos indígenas têm gerenciado e impactado ecossistemas por milhares de anos, principalmente de maneiras positivas”, disse Darren J. Ranco, professor associado de antropologia e coordenador de pesquisa nativa americana na Universidade do Maine (EUA). “Essas descobertas têm relevância particular para os direitos e a autodeterminação indígenas contemporâneos.”

Para Ranco, cidadão da nação indígena penobscot (EUA), os povos indígenas atualmente exercem algum nível de gestão de cerca de 5% das terras do mundo, nas quais existe 80% da biodiversidade mundial. Mesmo assim, os povos indígenas foram excluídos da gestão, acesso e habitação de terras protegidas em locais como os Parques Nacionais dos Estados Unidos.

“Devemos também garantir que as novas tentativas de proteger as terras e a biodiversidade não sejam apenas uma apropriação verde das terras indígenas”, disse Ranco. “Não podemos recriar o pior das políticas coloniais destinadas a excluir os povos indígenas. Isso sem dúvida tornaria a situação muito pior para o meio ambiente e para a humanidade.”

Um futuro sustentável

“Nossa pesquisa demonstra as conexões entre as pessoas e a natureza que se estendem por milhares de anos”, afirmou Torben Rick, coautor do estudo e curador de Arqueologia da América do Norte no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian Institute, em Washington (EUA). “Essas conexões são essenciais para entender como chegamos ao presente e como alcançar um futuro mais sustentável.”

A pesquisa representa uma nova forma de colaboração entre arqueologia, ciência da mudança global, conservação e estudiosos do conhecimento indígena. Os coautores esperam que esse trabalho abra a porta para aumentar o uso de dados históricos de uso da terra global por cientistas naturais, legisladores, ativistas e outros. Os líderes em uma variedade de campos podem usar esses dados, eles observam, para melhor compreender e colaborar com os povos indígenas, tradicionais e locais a fim de conservar a biodiversidade e os ecossistemas no longo prazo.

“Está claro que as perspectivas dos povos indígenas e locais devem estar na vanguarda das negociações globais para reduzir a perda de biodiversidade”, disse Rebecca Shaw, cientista-chefe do World Wildlife Fund (WWF) e outra coautora do estudo. “Há uma crise global na forma como a terra tradicionalmente usada foi transformada pela escala e magnitude do intenso desenvolvimento humano. Temos de mudar o curso se quisermos sustentar a humanidade nos próximos 12 mil anos.”

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