Ilha Macquarie

O desastre das boas intenções

 

Em tempos de despertar ecológico e de avanços na responsabilidade ambiental, a antes glorificada interferência do homem na natureza ganha cada vez mais contornos de anátema. Montanhas liquefeitas pela chuva em Santa Catarina, seca na Argentina, nevascas impiedosas na Europa e nos Estados Unidos e calor extremo no sul da Austrália (e, simultaneamente, enchentes no nordeste do país) forneceram novos indícios, no início deste ano, de que o aquecimento global está em pleno andamento e fazendo estragos. Mas as mudanças climáticas têm uma atenuante: não são responsabilidade única dos humanos. Quando nos atrevemos a tentar controlar as condições ambientais de um ecossistema, o resultado pode ser ainda pior. É o que está acontecendo na , um pedaço de terra de 128 quilômetros quadrados a meio caminho entre a Austrália e a Antártida que entrou em 1997 para a lista dos sítios históricos do Patrimônio Mundial organizada pela Unesco.

Descoberta em 1810, a ilha faz parte do Estado australiano da Tasmânia desde 1900 e ganhou o status de reserva natural em 1933. Hoje em dia, ela é administrada pelo Tasmanian Parks and Wildlife Service. Uma base de pesquisas mantida por uma agência governamental, a Australian Antarctic Division (AAD), é o único local habitado por humanos – um contingente que varia entre 20 e 40 pessoas.

 

 

A tragédia de Macquarie começou ainda no século 19, logo depois de a ilha entrar para os mapas dos navegadores europeus: rapidamente, sua população original de focas, pinguins e elefantes-marinhos foi quase toda exterminada por caçadores interessados em peles e gordura animal. Mas esse nem chegou a ser o principal problema em termos ambientais. A encrenca surgiu mesmo com os ratos e camundongos que vieram clandestinamente a bordo dos navios. Sem predadores na ilha, eles se multiplicaram rapidamente e levaram os responsáveis pela ilha a introduzir gatos selvagens para combatê-los. Cerca de 60 anos depois, a tradição de deixar alimento para eventuais náufragos justificou a decisão de autoridades australianas de desembarcar coelhos em Macquarie. Até então, a competição pela sobrevivência entre gatos e ratos era equilibrada, mas os coelhos acabaram por dar vantagem aos felinos. Com presas maiores e mais fáceis de capturar à sua disposição, a população de gatos cresceu rapidamente. No sentido contrário, duas espécies nativas de pássaros que não voavam – um tipo de frango-d’água e outro de periquito – foram extintas.

Mesmo com os gatos à solta, os coelhos se multiplicaram e devastaram a vegetação de Macquarie. Na década de 1970, eles já eram mais de 130 mil, o que obrigou as autoridades a uma solução drástica: a introdução na ilha do vírus que provoca uma doença específica desses animais, a mixomatose. Essa arma já havia dado certo na Austrália duas décadas antes, e em Macquarie apresentou resultados rápidos: em uma década, a população de coelhos caiu para menos de 20 mil.

Sem a ameaça representada por esses mamíferos, a vegetação da ilha começou a recuperar-se. Mas os gatos, ainda sem predadores à altura e com menos alimento à disposição, voltaram seu interesse para outras espécies de pássaros, como corujas. Seu comportamento se tornou uma ameaça de tal porte que, por volta de 1985, ambientalistas concluíram que esses felinos tinham de ser exterminados.

 

Fauna resistente

Em busca de peles e gordura animal, os caçadores do século 19 praticamente exterminaram os pinguins e elefantes-marinhos da . A matança só foi interrompida quando o negócio se tornou economicamente inviável. Desde então, porém, a população desses animais voltou a crescer gradualmente na ilha e hoje atinge proporções respeitáveis. Estima-se que vivem ali cerca de 400 mil pinguins-reis (Aptenodytes patagonicus) e 3 milhões de pinguins-reais (Eudyptes schlegeli), além de exemplares de pinguimde- penacho-amarelo (Eudyptes chrysocome) e Gentoo (Pygoscelis papua). Macquarie também serve de lar para várias espécies de albatroz e é local de procriação de elefantes-marinhos.

O último gato de Macquarie foi morto em 2000. Sem esses animais, a população de coelhos voltou a crescer – e, dessa vez, a mixomatose já não dava mais conta do problema. Coelhos resistentes à doença destruíram toda a flora local recuperada pela natureza em cerca de duas décadas, e a destruição se ampliou a ponto de esses animais terem sido responsabilizados por um deslizamento de terra em 2006 que destruiu boa parte de uma grande colônia de pinguins da ilha. Em um artigo publicado em janeiro no Journal of Applied Ecology, da British Ecological Society, uma equipe da AAD comandada por Dana Bergstrom descreve como os coelhos eliminaram cerca de 40% da cobertura vegetal de Macquarie. “Quando os coelhos se movem para áreas litorâneas, as encostas de vegetação exuberante se tornam terra nua”, diz ela. “Um tipo de gramínea chamado Poa annua constantemente se estabelece, e as áreas sem vegetação se transformam no que parecem ser campos de golfe agradavelmente aparados – aparados por coelhos.”

Os especialistas denominam o que tem acontecido em Macquarie como um raro exemplo de “cascata trófica”, ou seja, efeitos indiretos de mudanças envolvendo uma espécie abundante. Se a situação não for controlada, pode derivar para um estágio mais grave, o de “derretimento do ecossistema”.

Para que esse ponto não seja atingido, os governos da Austrália e da Tasmânia desenvolveram um ambicioso plano conjunto destinado a eliminar da ilha todos os cerca de 130 mil coelhos, 36 mil ratos e 103 mil camundongos que, segundo as estimativas, moram ali hoje em dia. A estratégia, anunciada em 2007 e prevista para durar sete anos, naturalmente não é barata: está orçada em cerca de R$ 36 milhões. E, embora tenha sido usada com êxito em outra ilha subantártica um pouco menor (a neozelandesa Campbell), também não tem sucesso garantido, reconhecem os especialistas. “Essa é a maior ilha na qual esse tipo de programa de erradicação será testado”, adverte Dana Bergstrom. Um novo fracasso vai representar mais um indício preocupante da (in)capacidade humana de recompor a natureza do jeito como a havia encontrado.

PARA SABER MAIS

Sites: Sub-Antarctic Islands (www. subantarcticislands.com); Island Life (www.abc.net.au/nature/island); Australian Antarctic Division – Macquarie Island (http://www.aad.gov. au/defaut.asp?casid=7151).

 

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