Império da Poluição

O uso de carvão na produção de energia ajudou a China a tornar-se a segunda economia do planeta. Mas o custo à saúde pública está pesando. Nuvens de poluição abafando cidades viraram rotina.

AFP

Desde 1º de janeiro de 2014, a Administração da Aviação Civil da China exige que os pilotos que voam entre o Aeroporto Internacional de Pequim e outras dez cidades, entre as quais Xangai, Chengdu, Guangzhou e Shenzhen, estejam capacitados a “pousar às cegas”. No jargão técnico, os aviadores têm de apresentar uma certificação de “pouso às cegas categoria 2”, prova de que são capazes de pôr o avião no solo mesmo sem ter uma visão clara da pista durante os últimos instantes da aterrissagem.

A exigência caiu na lista de efeitos colaterais da pior poluição atmosférica urbana do mundo. O formidável crescimento econômico da China nas últimas décadas foi conquistado com termelétricas produzindo eletricidade à base de carvão, o mais poluente combustível fóssil. Os custos para a saúde pública são altos e estão subindo, e os problemas se espalham por outros setores, como economia e turismo.

O país é o principal consumidor e produtor de carvão do mundo, respondendo por 50% do consumo mundial e por 49% da produção, em 2011. A queima do mineral “produz poluição por metais pesados e poluição de material particulado numa escala que está se tornando extraordinária”, afi rma Isabel Hilton, editora do site ambiental independente China Dialogue. As consequências dessa política econômica estão se tornando dramaticamente populares. Recentemente, o caso de uma menina de 8 anos da província de Jiangsu com câncer de pulmão, atribuído à poluição do ar, tornou-se tema de um intenso debate online.

A cada aproximação do inverno (dezembro-março), o céu de várias cidades, sobretudo no norte do país, é tomado pelo smog, a combinação de nevoeiro com fumaça poluente. Em outubro de 2013, Harbin, cidade de 10,6 milhões de habitantes, paralisou as atividades por causa de níveis de poluição superiores ao recorde anual (registrado em Pequim), que reduziram a visibilidade local a dez metros.

No último dia 16 de janeiro, as autoridades de Pequim emitiram seu primeiro alerta de smog de 2014, disparado quando o índice de partículas inaláveis finas (menores que 2,5 mícrons), associadas a graves doenças respiratórias, supera 500 microgramas por metro cúbico, 20 vezes mais do que a Organização Mundial da Saúde recomenda e pouco inferior à máxima de 2013.

A visibilidade inferior a 500 metros em certos bairros da capital chinesa levou ao fechamento temporário de quatro vias expressas. Os moradores receberam a recomendação de usar máscaras ao sair às ruas. Crianças e idosos foram instruídos para ficar em casa até as condições climáticas melhorarem.

Saúde sob ataque

Uma noção dos prejuízos à saúde causados pelas emissões das usinas a carvão foi apresentada num estudo divulgado pelo Greenpeace em dezembro de 2013, The Health Impacts of Coal Power Plants. Segundo a pesquisa, a poluição atmosférica causou cerca de 260 mil mortes prematuras na China em 2011.

Analisando as substâncias encontradas no ar a partir da queima do carvão, os pesquisadores estimam que, naquele ano, o uso do combustível levou 320 mil crianças e 61 mil adultos a sofrer de asma, 36 mil bebês a nascer com peso abaixo do normal e 340 mil pessoas a procurar atendimento em hospitais. Cerca de 141 milhões de dias de ausência no trabalho por doença também foram atribuídos ao problema.

“O estudo oferece um retrato detalhado dos subprodutos para a saúde originados da queima de carvão na China”, afirma Andrew Gray, o líder da pesquisa. A partir de simulações em computador, Gray conseguiu “desenhar um mapa claro traçando a trilha dos danos à saúde deixados pela fumaça de carvão de cada usina na China, separando a contribuição de empresas, de províncias e de usinas na crise de poluição que afeta o país”.

O estudo mostra que o consumo de carvão caiu nos últimos anos no país, mas alerta que 570 novas usinas que usam o combustível estão em fase de planejamento ou de construção. Se forem concluídas, haverá mais 32 mil mortes anuais prematuras.

Em setembro de 2013, o Conselho de Estado chinês anunciou um plano de 1,75 trilhão de iuanes (cerca de R$ 678,2 bilhões) para melhorar as condições do ar até 2017. A meta é reduzir em pelo menos 10% a poluição atmosférica nas maiores metrópoles, recorrendo sobretudo ao fechamento de usinas e fábricas mais poluidoras e à substituição de combustíveis fósseis por energias limpas.

Em janeiro, o prefeito de Pequim, Wang Anshun, anunciou um “esforço geral” para diminuir em 2,6 milhões de toneladas o consumo de carvão na região metropolitana da capital. Não falta ambição à proposta – mas, dada a dimensão do problema, ela talvez ainda sofra de modéstia.

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