Incêndio danifica laboratório russo que guarda vírus de varíola e ebola

Autoridades russas garantem que a população não foi exposta a microrganismos armazenados ali

Funcionários lidam com o vírus da varíola em Atlanta, nos EUA: o vírus altamente perigoso só existe ali e no complexo russo. Crédito: CDC

Uma explosão de gás causou um incêndio em um complexo de laboratórios na Sibéria (Rússia) que armazena vírus extremamente perigosos, noticiou o jornal “The Guardian”. Segundo representantes do Centro Estatal de Pesquisa de Virologia e Biotecnologia, o incêndio não expôs a população aos patógenos armazenados no interior. Entre os vírus guardados ali estão os da varíola e do ebola, além de formas altamente contagiosas de gripe aviária e cepas de hepatite.

Segundo os representantes do complexo, a explosão ocorreu durante os reparos em uma sala de inspeção sanitária do quinto andar da instalação, denominada Vector, em Koltsovo, na região de Novosibirsk. Local de pesquisas secretas de armas biológicas durante a era soviética, o complexo é agora um dos principais centros de pesquisa de doenças da Rússia.

O vírus da varíola sobrevive em apenas dois lugares da Terra: em Vector e em outro laboratório de alta segurança nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA, em Atlanta.

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As autoridades russas sublinharam que a sala onde ocorreu a explosão não continha substâncias perigosas e que nenhum dano estrutural foi causado. Segundo o prefeito de Koltsovo, o laboratório em questão não armazenava amostras de doenças por causa dos consertos em andamento.

A explosão estourou o vidro do prédio e o fogo se espalhou pelo sistema de ventilação. Um incêndio de 30 metros quadrados foi posteriormente extinto. Segundo os relatos, houve apenas um ferido – um trabalhador que sofreu queimaduras de terceiro grau.

Transparência escassa

A Rússia não tem se notabilizado pela transparência em eventos capazes de afetar a saúde de populações do entorno. Em agosto, autoridades do país demoraram a divulgar informações sobre uma explosão em um local de testes militares que elevou os níveis de radiação na região de Arkhangelsk. A explosão ocorreu quando um foguete movido a líquido com material nuclear explodiu, matando pelo menos cinco pessoas.

As autoridades inicialmente negaram que o incidente tivesse ocorrido. Segundo informações, elas tampouco disseram à equipe do hospital local que as vítimas haviam sido expostas a níveis mortais de radiação. A Rússia não divulgou no que os funcionários militares trabalhavam. Especialistas especularam que pode ser um míssil de cruzeiro nuclear citado em 2018 pelo presidente Vladimir Putin.

O complexo Vector também não inspira confiança absoluta. O jornal “The Guardian” lembra que surtos de antraz e varíola causados ​​por programas soviéticos de desenvolvimento de armas nos anos 1970 foram posteriormente encobertos pelo governo. Na década de 1990, o local enfrentou falta de recursos para manter-se, o que criou em analistas a suspeita de que pesquisadores do complexo poderiam vender seus conhecimentos ou amostras biológicas reais a governos como Iraque e Coreia do Norte.

Em 2004, uma pesquisadora morreu no Vector depois de ser picada acidentalmente com uma agulha contaminada com o vírus ebola. Segundo a mídia russa, essa foi a única morte causada pelo vírus no país. Dois anos depois, um esconderijo de armas, incluindo lançadores de granadas, supostamente pertencentes a um grupo da máfia, foi encontrado próximo à instalação em 2006.