Incentivos em discussão

Uma das soluções apregoadas para melhorar a educação no Brasil e em outros países do mundo, a remuneração por desempenho dos professores não garante totalmente esse resultado, e às vezes pode até atrapalhar na aprendizagem

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Avaliar o professor apenas por incentivos monetários pode até prejudicar os alunos quanto à aprendizagem

Durante a última década, muitos países elevaram seus gastos em educação como parcela do produto interno bruto. Entre 1999 e 2012, eles subiram de 2 a 3 pontos percentuais em nações tão diversas como Brasil, Benin, Quirguistão e Moçambique, informa o Instituto de Estatística da Unesco (UIS). Mas esse investimento não levou necessariamente a melhorias no desempenho escolar, segundo avaliações internacionais. As perguntas sobre por que isso acontece tendem a se concentrar nos professores, seus salários, avaliação e remuneração por desempenho.

Segundo a UIS, os salários dos docentes podem responder por até 80% do orçamento da educação. Em alguns países, os docentes são bem qualificados, mas mal pagos. Em outros, os maus resultados dos alunos indicariam que eles recebem demais. Em um estudo para a Comissão Europeia, Fredriksson (2008) comparou os salários de professores do ensino primário com dez anos de experiência aos de outras profissões especializadas.

Segundo ele, na maioria das 29 cidades europeias com dados disponíveis, um professor ganhava menos que os primeiros seis tipos de trabalhadores qualificados, mas mais que os outros. Em suma, o estudo mostra as limitações de uma avaliação baseada no desempenho dos alunos. Não há altos e baixos – apenas pessoas que trabalham em circunstâncias e sociedades diferentes.

Para alguns analistas, incentivos econômicos baseados nos resultados dos alunos são o método para melhorar o ensino. Mas é preciso antes definir que resultados medir. Professores prestam serviços para partes interessadas com expectativas diversas: diretor da escola, alunos, pais, contribuintes, políticos, etc.

Muitos sistemas de educação dependem de testes dos alunos para avaliar o desempenho do professor, mas é quase impossível medir com precisão todas as áreas de aprendizagem. Deve-se reconhecer ainda o caráter cumulativo do processo educacional: as competências adquiridas por uma criança em um dado ano não refletem apenas o trabalho do professor. E deve-se considerar o impacto do ambiente mais amplo de uma criança (na casa e na comunidade).

Dada a complexidade dos sistemas de educação, incentivos explícitos para os professores podem fazer mais mal do que bem para os estudantes em termos de resultados de aprendizagem (Fehr e Falk, 2002). Isso pode explicar por que resultados dos alunos não melhoram necessariamente com a remuneração por desempenho, em que o salário de um professor aumenta em relação a um resultado, como as notas dos alunos em um teste padronizado. O dinheiro pode não ser tudo o que importa na educação (Steele, Murnane e Willett, 2010).

Aspecto ignorado

O debate em torno da remuneração por desempenho ignora razões não pecuniárias, como o prazer em ensinar. Incentivos econômicos não garantem amor à profissão. Por isso, é essencial considerar as possíveis ligações entre motivação e incentivos, tal como delineado na tabela abaixo, uma vez que a motivação intrínseca poderia ter muitos aspectos.

Parte do problema com a remuneração por desempenho é supor que só os professores respondem pelo desempenho dos alunos. Para ser justa, ela também deve estar ligada a incentivos claros para o estudante. Cada país tem professores altamente qualificados frustrados por alunos desmotivados ou o oposto – estudantes motivados frustrados por mestres não qualificados. Como identificar essas dinâmicas a partir de um resultado de teste?

Segundo a Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizagem 2013 (Talis, na sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, alguns países revelaram que 90% dos professores participantes amavam seu trabalho apesar de algumas condições laborais difíceis.

No lado positivo, os professores que atuam em ambientes com intercâmbio de ideias relataram maior satisfação no trabalho e confiança em si mesmos. No entanto, mais de 50% disse que raramente ou nunca trabalha como uma equipe, e apenas um terço pôde ver como seus colegas ensinam.

Ainda segundo a Talis, para nove em dez professores as avaliações de desempenho levaram a mudanças positivas, desde que não tratadas apenas como uma exigência administrativa (a aparente regra). Mas 46% dos professores disseram que nunca receberam feedback do diretor da escola.

No geral, a pesquisa mostra que os professores são a influência mais importante nas escolas sobre a aprendizagem das crianças. Sendo assim, em vez de tentar puni-los ou recompensá-los por meio de esquemas salariais, talvez devamos assumir a liderança de sua inspiração pessoal para ingressar em uma profissão.

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