Isolamento social: as táticas de exploradores polares para enfrentá-lo

Música, leituras, culinária e jogos como xadrez estavam entre as estratégias adotadas pelos exploradores polares no início do século passado que podem ser utilizadas em tempos de coronavírus

Integrante da Expedição Terra Nova cozinha carne de foca, em foto de 1º de janeiro de 1913: variações culinárias eram uma forma de escapar da rotina dos ambientes confinados. Crédito: R. F. Scott/Wikimedia

Devido ao inverno extremo da Antártida, que inclui quatro meses de escuridão total, os exploradores polares enfrentaram intenso confinamento em locais próximos por longos períodos de tempo.

O pioneiro americano Richard Byrd explicou: “Pequenas coisas (…) têm o poder de levar até os mais disciplinados (…) à beira da insanidade. Os que sobrevivem com um certo grau de felicidade são aqueles que podem viver profundamente de seus recursos intelectuais, pois os animais em hibernação vivem de sua gordura.”

Como os exploradores antárticos do início dos anos 1900 sobreviveram ao tédio muito antes da internet?

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Música

A música era vital para a sanidade e o bem-estar dos exploradores. “É preciso ficar isolado da civilização (…) para perceber completamente o poder da música para recordar o passado (…), para acalmar o presente e dar esperança para o futuro”, disse um dos membros mais jovens da Expedição Terra Nova (oficialmente conhecida como Expedição Britânica-Antártica, 1910-13).

A Expedição Nacional Antártica Escocesa (1902-04) incluiu um tocador de gaita de fole oficial. O almirante Byrd levou um fonógrafo para a base avançada em 1934, chamando a música de seu “único luxo real”.

Ao abandonarem o navio Endurance, que afundava lentamente, os homens do explorador irlandês Ernest Shackleton, da Expedição Imperial Transantártica (1914-17), tiveram permissão para carregar apenas dois quilos de objetos pessoais. Mas Shackleton insistiu que o meteorologista Leonard Hussey levasse seu banjo de dez quilos, dizendo: “É um remédio mental vital, e precisamos dele”.

Cães da expedição de Shackleton observam o afundamento do navio Endurance, em 1915: o banjo de 10 quilos do explorador não ficou na embarcação por ser considerado um “remédio mental vital”. Crédito: Frank Hurley/Wikimedia
Leitura

Os livros tiveram um papel enorme na vida dos exploradores polares. A biblioteca a bordo do Endurance incluía peças de teatro, poesia, livros sobre exploração, a Enciclopédia Britânica e romances como Os Irmãos Karamazov. Quando o navio afundou, Shackleton resgatou um poema de Rudyard Kipling. Ele arrancou a primeira página de uma Bíblia que lhe foi dada pela rainha Alexandra, abandonando o restante do texto pesado, embora um membro da tripulação o tenha guardado secretamente.

Um explorador explicou que a poesia “era útil, porque dava algo a aprender de cor e repetir durante a hora em branco (…), quando a mente ociosa está muito apta a pensar (…) em queixas puramente imaginárias”.

Alguns homens até tentavam aprender um idioma. O norueguês Roald Amundsen, líder da Expedição Fram à Antártida (1910-14), estudou gramática russa. Enquanto outros terminavam rapidamente suas histórias mais leves, a leitura de Amundsen “teve a vantagem de ser incomparavelmente mais rígida. Os verbos russos são incomumente difíceis de digerir e não devem ser engolidos às pressas”.

Escrever um diário

Os diários eram extremamente comuns entre os exploradores polares. Primeiramente, os homens estavam cientes de que suas experiências poderiam ter valor monetário no futuro. Em segundo lugar, os diários serviram como registros e lembranças para suas famílias. Além disso, como muitos dias costumavam correr juntos, os diários se tornaram uma maneira de diferenciar um dia do outro. Enfim, como um explorador explicou: “Um diário nesta vida é uma das únicas maneiras pelas quais um homem pode desabafar”.

Jornais da expedição

Há uma longa tradição de exploradores polares criarem jornais para si mesmos. Relatórios sobre o tempo ou relatos de visitas a colônias de pinguins foram intercalados com histórias curtas, poesia, entrevistas, palavras cruzadas e jogos de palavras. Eles foram ilustrados com desenhos humorísticos e artísticos. Com o tempo, esses textos adquiriram uma grande quantidade de conteúdo sexual, incluindo piadas obscenas e fantasias.

Como um explorador explicou: “A importância de não permitir que nenhum sentimento de depressão se tornasse parte da atmosfera de nossa vida era clara para todos”.

Jogos

Carsten Borchgrevink, líder da Expedição Southern Cross à Antártida (1898-1900), disse: “A mesmice daquelas noites frias e escuras ataca a mente dos homens como um espírito maligno furtivo. Descobrimos que (…) jogar xadrez e cartas eram passatempos muito valiosos”. Às vezes, os homens “gritavam e pulavam durante o jogo, e é uma maravilha que eles não tenham derrubado o tabuleiro em que jogavam”.

O xadrez também foi rei na Expedição Terra Nova (1910-13). De acordo com Robert Falcon Scott, “nosso jogo mais popular para recreação noturna é o xadrez; tantos jogadores se desenvolveram que nossos dois conjuntos de peças de xadrez são inadequados”.

Comida

Para os exploradores antárticos, quase todos os alimentos eram secos ou consumidos em latas. O hoosh, um ensopado feito de uma mistura de carne seca e gordura chamada pemmican, engrossada com cereais, forneceu muitas das calorias das primeiras expedições.

Para acabar com a monotonia na cozinha, os homens experimentavam novos alimentos, como pinguins ou carne de foca. Em alguns casos, como a expedição Fram e a Expedição Imperial Transantártica, eles até comeram seus cães.

O cardápio muitas vezes insosso significava que os homens eram frequentemente obcecados com comida. Muitas de suas conversas giravam em torno de suas refeições ideais em casa. Em 1934, Byrd escreveu em seu diário: “Encontrei o livro de receitas! (…) O grito de alegria que proferi soou tão alto que fiquei realmente envergonhado. (…) Nenhum livro levado à costa para um náufrago poderia ter sido mais avidamente estudado.”

Amundsen (primeiro à esquerda) e colegas no polo sul, em foto de 1911: para o explorador norueguês, o álcool, “com moderação”, era “um medicamento nas regiões polares”. Crédito: Olav Bjaaland/Wikimedia
Álcool

As expedições polares eram geralmente muito bem abastecidas com cerveja, vinho e bebidas destiladas.

Houve um debate sobre o valor do álcool nessas expedições – ninguém queria incentivar a embriaguez, e o álcool poderia ser perigoso no campo. Mas Amundsen, o primeiro homem a chegar ao polo sul, sentiu uma diferença: “Um copo ocasional de vinho ou um pouco de bebida destilada eram coisas com as quais todos, sem exceção, estávamos muito satisfeitos. Pessoalmente, considero o álcool, usado com moderação, como um medicamento nas regiões polares. (…) Dois homens que brigaram um pouco ao longo da semana são reconciliados de uma só vez pelo cheiro do rum.”

Cérebros ou músculos?

Então, que tipo de homem sobreviveu melhor sob severo isolamento? De acordo com Apsley Cherry-Garrard, da Expedição Terra Nova (1910-13), “os homens com maior estoque de energia nervosa foram os melhores nessa expedição. (…) sua força mental triunfou sobre sua fraqueza corporal. Se você quer um bom viajante polar, pegue um homem sem muito músculo (…) e deixe a mente dele em fios – de aço.

 

* Daniella McCahey é professora de História da Universidade de Idaho (EUA)

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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