Jung e o pós-morte

O fundador da psicologia analítica nunca se furtou a desbravar territórios a princípio bloqueados ao meio acadêmico, como a existência da alma depois da falência do corpo físico. Ele aborda o tema no texto a seguir, publicado em 1973 em PLANETA

Não vejo como contestar que ao menos uma parte de nossa existência psíquica se caracteriza por uma relatividade de espaço e tempo. À medida que nos afastamos da consciência, essa relatividade parece elevar-se até a não especialidade e a uma intemporalidade absoluta. Não foram apenas meus próprios sonhos, mas também, na ocasião, os de outras pessoas que deram forma, revisando-os ou confirmando-os, a meus conceitos sobre a vida post-mortem.

Um desses sonhos teve particular importância: o de uma de minhas alunas, com quase 60 anos. Ela teve esse sonho mais ou menos uns dois meses antes de morrer: ela chegava ao além; numa sala de aula, nos primeiros bancos, estavam sentadas várias de suas amigas defuntas. Reinava uma atmosfera de espera geral. Ela olhou ao redor, procurando um professor ou um conferencista, mas não encontrou ninguém. Por fim, compreendeu que ela era a conferencista, pois todos os defuntos deveriam, imediatamente após a morte, apresentar um relatório sobre o total de suas experiências durante a vida.

(*) O trecho aqui reproduzido é um excerto de “A vida depois da morte”, texto da obra póstuma Memórias, Sonhos, Reflexões publicado em PLANETA 8 (abril de 1973).

Os mortos se interessavam bastante pelas experiências de vida relatadas pelos defuntos, como se os fatos e os acontecimentos da vida terrestre fossem decisivos. Na época em que teve esse sonho, ela temia a morte e procurava, na medida do possível, afastar essa eventualidade de seu pensamento consciente. Ora, isso deveria constituir um “centro de interesse” essencial para o homem que envelhece, exatamente para que ele se familiarizasse com essa possibilidade.

Uma inelutável interrogação se apresenta para ele e é preciso responder a ela. Para isso, ele terá necessidade de utilizar-se de um mito da morte, pois a “razão” não lhe oferece nada além da fossa escura onde ele está prestes a entrar; o mito poderá trazer outras imagens a seus olhos, imagens agradáveis e enriquecedoras da vida no país dos mortos. Se ele acredita nisso, ou apenas lhe dá algum crédito, não podemos dizer que esteja mais certo ou mais errado do que aquele que não acredita. Mas enquanto o que nega avança para o nada, o que obedece ao arquétipo segue as marcas de sua vida até a morte.

Certamente, tanto um quanto outro estão na incerteza, mas um vai ao encontro de seu instinto, ao passo que o outro caminha com ele, o que constitui uma diferença e uma vantagem importante em favor do segundo.


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