Lavagem delicada na lava-roupas libera muito mais microfibra plástica

Pesquisadores constataram que, no ciclo delicado, foram liberadas 800 mil microfibras de plástico a mais do que no ciclo padrão

Burgess, Kelly e Lant em meio às máquinas de lavar: o volume de água usada é o que importa na liberação das microfibras. Crédito: Universidade de Newcastle

Uma nova pesquisa liderada pela Universidade de Newcastle (Inglaterra) mostrou que o volume de água é o fator principal na liberação de microfibras plásticas das roupas durante o ciclo de lavagem, em vez da rotação da máquina de lavar. O estudo foi publicado hoje (26 de setembro) na revista “Environmental Science and Technology”.

Milhões de microfibras plásticas são descartadas a cada vez que roupas que contêm materiais como náilon, poliéster e acrílico são lavadas. Como são minúsculas, essas fibras saem das máquinas de lavar e podem chegar, no final, ao ambiente marinho. Uma vez no oceano, elas são ingeridas pelos animais que vivem lá. Há dois anos, cientistas da Universidade de Newcastle mostraram pela primeira vez que essas fibras atingiram as partes mais profundas do oceano.

Recentemente, em colaboração com a fabricante de produtos de higiene e limpeza Procter & Gamble (P&G), uma equipe da universidade liderada pelo professor Grant Burgess mediu o lançamento de microfibras plásticas de roupas de poliéster para uma série de ciclos e volumes de água. Os pesquisadores constataram que quanto maior o volume de água, mais fibras são liberadas, independentemente da velocidade e das forças abrasivas da máquina de lavar. Eles descobriram que, em média, 800 mil microfibras a mais foram liberadas em uma lavagem em ciclo delicado do que em um ciclo padrão.

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“Contraintuitivamente, descobrimos que ciclos ‘delicados’ liberam mais microfibras plásticas na água e depois no meio ambiente do que os ciclos padrão”, afirmou Max Kelly, aluno de doutorado da Universidade de Newcastle e primeiro autor do estudo.

Liberação maior

“Pesquisas anteriores haviam sugerido a velocidade na qual o tambor gira, o número de vezes que muda a direção da rotação durante um ciclo e a duração das pausas no ciclo – tudo isso conhecido como agitação da máquina – são o fator mais importante na quantidade de microfibra liberada”, observou Kelly. “Mas mostramos aqui que, mesmo em níveis reduzidos de agitação, a liberação de microfibras ainda é maior com taxas mais altas de volume de água. Isso ocorre porque o alto volume de água usado em um ciclo delicado, que supostamente protege as roupas sensíveis de danos, ‘arranca’ mais fibras do material.”

A poluição por plásticos é um dos maiores desafios que a sociedade enfrenta atualmente. Entender as principais fontes dela é um processo importante para ajudar a reduzir o impacto humano no meio ambiente.

A lavagem de roupa em máquina tem sido reconhecida como uma das principais contribuintes dos microplásticos. Até agora, contudo, era difícil medir a liberação dessas fibras com rigor devido ao fato de ser quase impossível simular precisamente a realidade do que acontece nas máquinas das pessoas em um laboratório.

Com testes minuciosos feitos em um centro de pesquisas da P&G, a equipe da Universidade de Newcastle mostrou que as recomendações anteriores dos grupos de recorrer a altos volumes de água e baixos níveis de agitação como forma de reduzir a quantidade de microfibras liberada estavam realmente piorando o problema.

Responsabilidade de todos

“A indústria de eletrodomésticos começou a introduzir filtros de microfibra em algumas novas máquinas de lavar e a indústria têxtil procura reduzir os níveis de descarte de fibras de roupas novas”, observou Neil Lant, pesquisador da P&G e coautor do estudo. “Esperamos que o problema seja finalmente resolvido por essas ações, e nosso trabalho sobre as causas mecanicistas ajudará no desenvolvimento dessas soluções.”

“Reduzir a quantidade de poluição de plástico é responsabilidade de todos e, muitas vezes, são as pequenas mudanças que fazem uma enorme diferença”, observou Kelly. “Ao evitar lavagens com alto volume de água em tecido, como os ciclos delicados e garantir cargas completas de lavagem, todos podemos fazer a nossa parte para ajudar a reduzir a quantidade dessas fibras sintéticas sendo liberadas no ambiente.”

Kelly acrescentou: “Felizmente, essas descobertas também podem ser usadas pelos fabricantes para influenciar o design de futuras máquinas de lavar e reduzir nossa pegada plástica. Com o tempo, essas mudanças também podem levar a uma redução global na quantidade de energia e de água necessária para lavar nossas roupas.”