Línguas à beira da morte

Apenas 15% das línguas existentes na época do descobrimento do Brasil sobreviveram.

Em janeiro passado, o novo delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Marcos Carneiro Lima, desferiu um golpe numa língua moribunda, ao emitir uma portaria abolindo o uso de termos em latim nos boletins de ocorrência e memorandos internos. Sua justificativa, bastante razoável, é que os registros devem ser objetivos e os termos em latim, muitas vezes escritos erroneamente, prejudicam a clareza do documento.

Menino aprendendo a escrever em tupiguarani, em escola indígena de Diamante D’Oeste, no Paraná.

“O tempora, o mores!” (“Que tempo, que costumes!”), diria o tribuno romano Cícero. Apesar de ter sido a língua franca do Ocidente, cultivada pela Igreja Católica e a aristocracia de vários países até o século 19, o latim foi perdendo sua força desde que deixou de ser ensinado nas escolas. Expressões latinas são hoje usadas apenas em textos científicos e religiosos. O desaparecimento do latim reflete uma tendência mundial: o desuso de línguas faladas por uma minoria devido ao convívio e ao domínio de outra.

A morte de uma língua pode ocorrer quando todos os falantes morrem numa mesma ocasião, devido a uma epidemia ou a conflitos entre nativos e povos invasores na região, ou pela contingência de os falantes serem obrigados a viver em um ambiente em que a maioria fala uma língua diferente. Para que haja interação social e convívio pacífico, a minoria se vê obrigada a aprender a nova língua e usá-la na maior parte do tempo – como ocorre no caso das línguas indígenas. Diz-se que uma língua é “moribunda” quando deixa de ser aprendida pelas crianças. Ela se torna “ameaçada” quando está em via de deixar de ser aprendida por jovens. Língua “segura” é a que não se enquadra nas categorias acima.

Patrimônio linguístico

O Brasil tem uma enorme variedade linguística. Aqui, são faladas cerca de 210 línguas, entre variações de línguas europeias, asiáticas, indígenas e de sinais. Este ano, pela primeira vez, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) criou uma seção para as línguas indígenas, cujos dados serão apresentados a partir de abril. Com a iniciativa, o órgão pretende facilitar a implementação de políticas públicas voltadas à preservação e à promoção das línguas pouco conhecidas.

As 180 línguas indígenas naturais do país representam apenas 15% do total existente na época do descobrimento, em 1500. O linguista Gilvan Muller Oliveira, autor do artigo Plurilinguismo no Brasil, mostra que ao longo da nossa história foi adotada uma política de imposição do português como único idioma. Durante esse período, várias línguas nacionais foram extintas, como o nheengatu, mistura de tupi e português que era a língua mais falada no Brasil até o século 17 – expressamente proibida pelo Marquês de Pombal, em 1758 -, e muitas tiveram o seu uso reduzido drasticamente.

“Um dos fatores que acarretam o enfraquecimento do uso de uma língua e, frequentemente, levam à sua morte, como aconteceu no Brasil durante o período colonial, é o domínio de um povo demograficamente minoritário por outro mais forte. A sujeição de conviver com falantes majoritários de uma ou mais línguas diferentes implica o fim da língua mais fraca”, explica Aryon Dall’Igna Rodrigues, coordenador do Laboratório de Línguas Indígenas (Lali) e professor da Universidade de Brasília.

Num cenário em que ocorre a mistura de povos e o domínio linguístico de um sobre o outro, os primeiros afetados pela diferença cultural são os mais jovens. Obrigadas a estudar em escolas em que são minoritárias, as crianças acabam falando mais a língua dominante e, gradualmente, perdem o interesse pela língua de seus pais. “Essa falta de interesse decorre naturalmente do convívio com as pessoas dos grupos dominantes e da preferência dada pelos administradores à língua majoritária para todos os tipos de comunicação”, explica Rodrigues.

 

Trecho da cartilha Bureko Watotire (Passagem das Estações), usada no ensino médio da língua tuyuka, do Alto do Rio Negro, no Amazonas, na fronteira com a Colômbia. A publicação registra os recursos econômicos e os rituais sociais de uma comunidade indígena de mil falantes, ameaçadas por uma língua regional (o tukano) e duas línguas nacionais (o português e o espanhol).

A globalização acelera a padronização linguística e a mortandade das línguas. O desenvolvimento da economia mundial induz ao domínio das línguas majoritárias sobre as minoritárias, imposto progressivamente nos sistemas de educação e comunicação. Mas as perdas impactam não só a comunidade falante como a humanidade como um todo. “Para o povo do qual se originou, o desaparecimento da língua representa o esquecimento da maior parte de seus conhecimentos e bens culturais, especialmente os imateriais, como o acervo de tradições e a memória histórica e mítica”, ressalta Rodrigues. Desaparecem, também, modos alternativos de ver e de compreender o mundo. “Com o fim das línguas indígenas, por exemplo, perde-se a maneira de tratar equilibradamente o meio ambiente, de utilizar inteligentemente a flora e fauna regionais e também uma experiência acumulada e aperfeiçoada em séculos de vida no local”, avalia o linguista.

O latim resistiu como língua do clero católico e das elites europeias até o século 19, mas hoje só é ensinado em seminários

 

Foi o papa Dâmaso I que encomendou a São Jerônimo a tradução da Bíblia para o latim, em Roma, no ano 404. Graças a essa versão o latim difundiu-se como língua franca na Europa católica durante mais de mil anos.

Como reverter a situação?

Para salvar uma língua é necessário promover ações que estimulem o aprendizado e valorizem o seu uso e a preservação. O estímulo passa pelo desenvolvimento de sistemas de escrita e pela produção de materiais específicos para a educação das crianças e dos jovens. “Também é importante promover a gravação e a transcrição de relatos tradicionais e de conversações para publicação, seja como material didático, seja como literatura, com o objetivo de cultivar o hábito de leitura. Isso pode servir de reforço à autoestima dos falantes da língua minoritária”, afirma Rodrigues.

Aluno da Escola Indígena Baniwa Coripaco, no Rio Içana, Alto Rio Negro, no Amazonas.

O especialista avalia que as línguas minoritárias (não só as indígenas, mas também as alienígenas, originadas fora do país) são pouco desenvolvidas e estudadas nas universidades. No entanto, há programas especiais que estimulam a preservação linguística. A organização não governamental Comissão Pró-Índio do Acre, por exemplo, desenvolve programas voltados para a preservação do território, da cultura e das tradições indígenas do Estado.

Além disso, o projeto do Inventário Nacional da Diversidade Linguística, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Ministério da Cultura, recentemente aprovado pelo governo federal, vai promover o levantamento da diversidade linguística do país. “O projeto abre boas perspectivas não só para a identificação da situação em que se encontram essas línguas, mas também para o desenvolvimento de outros projetos de análise, de descrição, de documentação e de elaboração de programas de ensino, assim como dos correspondentes materiais didáticos para as respectivas comunidades”, avalia Rodrigues.

Para salvar uma língua é preciso produzir materiais de ensino específicos para o aprendizado de falantes crianças e jovens

Tecnologia a favor

No ano passado, cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, abriram novas perspectivas para a preservação das línguas. Eles desenvolveram um programa de computador com um modelo estatístico que decifrou o ugarítico, uma língua semítica, extinta, datada de 1500 a.C., decifrada por estudiosos em 1932. A língua foi usada para medir o grau de exatidão das respostas geradas pelo computador.

Para desenvolver o modelo, os cientistas se inspiraram em técnicas de tradução que simulam a intuição humana, imprescindível para se decifrar uma língua morta. O cientista da informação Benjamin Snyder, orientador da pesquisa, assumiu que a língua a ser decifrada teria parentesco com uma existente hoje – no caso do ugarítico, o hebraico. Assim, criou-se um modo sistemático de mapear e associar um alfabeto ao outro, levando em conta a frequência de prefixos e sufixos. Também foram exploradas as associações de cognatos, as palavras que apresentam origens comuns, como aire (espanhol), air (francês), air (inglês) e aria (italiano).

“Uma das dificuldades foi conseguir uma cópia eletrônica dos textos ugaríticos. Depois, pesquisamos os cognatos hebraicos relacionados à língua, disponíveis em materiais de referência. Tivemos de fazer isso para testar as predições do modelo”, explica Snyder. O grande desafio foi desenvolver um sistema de simulações de intuição humana para conseguir respostas em um espaço de tempo razoável.

“Nosso método mapeou corretamente 29 das 30 letras do ugarítico e traduziu com sucesso 60,4% de todos os cognatos”, escreveram os pesquisadores no artigo A Statistical Model for Lost Language Decipherment. É bom lembrar que o intuito da ferramenta é ajudar os decifradores humanos, e não substituí-los.

Tábua de argila com escritura cuneiforme do alfabeto ugarítico, gravada em Ugarit, na Síria, no século 13 a.C. É a segunda escrita mais antiga do mundo, depois do alfabeto cananita, da Palestina.

Snyder afirma que, na sua configuração atual, o modelo deve funcionar para línguas em que é recorrente o uso de sufixos e prefixos. As de maior complexidade ainda são um desafio. “Para começar, peguei um caso mais ‘simples’ para provar que modelos computacionais podem ser úteis para o ato de decifrar”, explica. Apesar de ter interrompido temporariamente o trabalho, o pesquisador pretende analisar escritos em harappan (língua filipina), etrusco (língua italiana pré-latina) e rongorongo (língua de hieroglifos da Ilha da Páscoa).

O pesquisador do MIT destaca que nos próximos anos a tecnologia desempenhará um papel importante na preservação linguística e no resgate de culturas, uma vez que inúmeras línguas estão desaparecendo em ritmo acelerado. “É essencial que haja esforço para documentar as línguas em risco de extinção. Acredito que a tecnologia de informação será crucial no desenvolvimento de ferramentas para coletar dados e fazer triagem dos fenômenos linguísticos. Os modelos computacionais serão nossos aliados para priorizar dados.”

 

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