Lugar ao Sol

Práticas ultrapassadas de projetos de energia na construção civil já dispõem de várias alternativas sustentáveis e autossuficientes.

Já não há dúvidas de que as práticas tradicionais de construção e arquitetura estão defasadas. Mas, diante da competição Solar Decathlon Europe 2012, até mesmo as soluções sustentáveis mais recentes são postas em xeque. A segunda edição da disputa internacional de casas totalmente abastecidas por energia solar, em setembro, em Madri (Espanha), reuniu 17 residências de 11 países. Finalistas entre 45 projetos inscritos por equipes universitárias do mundo todo, 14 foram idealizados por jovens europeus, duas por asiáticos e uma por brasileiros, pela primeira vez presentes ao evento. Modernas e ousadas, as casas expostas na Vila Solar, nome do local da disputa, mostraram diferentes combinações de alta tecnologia com métodos simples e naturais de manter a funcionalidade das residências e a temperatura agradável nos ambientes – sem comprometer confortos como água quente e uso de eletrodomésticos e eletrônicos de última geração.

Pensadas para causar o mínimo de impacto negativo em seu ciclo de vida, as moradias foram avaliadas em todos os aspectos, desde os recursos naturais consumidos na construção até a influência na área de instalação e o destino dos resíduos produzidos.

A proposta do Solar Decathlon não é criar casas exuberantes para pessoas ricas, mas sim testar ideias e conceitos sustentáveis acessíveis ao máximo de gente possível, segundo Jonathan Hart, vice-presidente sênior de marketing da Schneider Electric, patrocinadora do evento. “Queremos inspirar os estudantes a seguir por esse caminho e a comercializar suas criações. Os profissionais de arquitetura e construção deveriam ficar envergonhados diante do que esses jovens estudantes de 20 ou 30 e poucos anos apresentam aqui”, pontua Hart.

Casas de amanhã, hoje

Para participar da competição é fundamental projetar casas portáteis, por dois motivos. Primeiro, porque são construídas nos países de origem, para avaliação inicial e, se selecionadas, devem ser transportadas – geralmente em contêineres em caminhão ou navio – até o local da competição. Segundo, para permitir que as soluções estruturais desenvolvidas possam ser produzidas em série, no formato de casas pré-fabricadas.

Enquanto a redução de custo e de desperdício de material, garantida pela fabricação em série, depende do futuro sucesso comercial de cada proposta, a redução do tempo de construção é evidente já na competição. Ao desembarcarem na Vila Solar, as equipes têm até dez dias para colocar os projetos em pé e em funcionamento. A partir de então, o desafio é enfrentar duas semanas de monitoramento do desempenho energético e as demais avaliações do júri. As casas são analisadas em dez quesitos: design arquitetônico; engenharia e construção; eficiência energética; autonomia energética; conforto; funcionalidade; inovação; sustentabilidade; comunicação e conscientização da sociedade; industrialização e viabilidade comercial.

Sempre baseado na energia solar, cada projeto incorporou os painéis fotovoltaicos a sua maneira, fosse para geração de energia elétrica ou para aquecimento da água. Algumas casas procuraram escondê-los no topo da laje e outras potencializaram a incidência dos raios de sol com telhados inclinados. Também houve quem apostasse em sistemas capazes de acompanhar o movimento do Sol.

O projeto português, Cem’ Casas em Movimento, foi um dos mais emblemáticos. A casa só possui o módulo da cozinha e banheiro fixos; o restante do piso gira sobre o próprio eixo e um sobreteto – paralelo às laterais da construção e cobrindo todo o teto – que também pode ser inclinado. Todo esse movimento consome pouca energia e melhora em 25% o aproveitamento do Sol, garantindo adequação a diferentes horários e estações do ano, além de propiciar variedade de paisagem aos moradores. Ao mesmo tempo em que usa uma solução altamente elaborada, a casa equipe portuguesa também lança mão de um elemento natural que se destaca por ser isolante térmico: a cortiça. Portugal é o maior produtor mundial desse recurso.

A opção por matérias-primas reutilizáveis de fontes renováveis e abundantes nas suas respectivas regiões norteou muitos outros projetos. O Patio 2.12, produzido por universidades da Andaluzia (Espanha), tomou como ponto de partida as propriedades dos jarros de cerâmica, como moringas, para desenvolver paredes e manter a temperatura do ambiente interno. No caso da Astonyshine, união de times da França e da Itália, os blocos de pedra das paredes foram feitos com lascas doadas por pedreiras que vinham desperdiçando o material.

Já a Ekó House, representante brasileira na competição, utilizou em seu entorno quebrasóis de bambu para fazer sombra sobre as janelas e corredores externos da casa, reduzindo os gastos com resfriamento. “Utilizamos também outros sistemas passivos como ventilação cruzada, vidros duplos, aerogel e lã de vidro nas paredes para isolamento térmico. Porque o ideal é consumir o mínimo possível – e não gerar o máximo possível”, afirma a mestranda em arquitetura Bruna Mayer de Souza. A casa leva um nome em guarani, “ekó”, que quer dizer “jeito de viver”, e foi criada por um pool de universidades brasileiras (federais de Santa Catarina e do Rio Grande do Norte, USP, UFRJ, Unicamp e Instituto Federal de Santa Catarina).

O projeto brasileiro apresentou ainda duas outras exclusividades: um sanitário seco, que realiza a compostagem dos dejetos em adubo, sem gerar mau cheiro – e, do lado de fora, uma zona de raízes para tratamento das águas usadas nas pias, funcionando como um mangue. Para obter autonomia da rede de saneamento e de água, já que foi planejada para lugares remotos, a residência conta ainda com reservatório de água da chuva para utilização no jardim e em limpeza.

Muitas outras casas apostaram nesse tipo de reservatório, mas duas foram muito além na reutilização do recurso: nos exemplares italiano, Med in Italy, e húngaro, Odooproject, a circulação da água incluía paredes, pisos e até o telhado e era usada para resfriar ou aquecer o ambiente interno.

Enquanto algumas equipes se dedicaram mais à questão da água, o time japonês – que tinha entre seus integrantes um mestrando brasileiro – buscou a autossuficiência alimentar. A The Omotenashi House previa uma plantação de arroz na frente; nas laterais, várias espécies aromáticas; em abajures, bonsais frutíferos; e, esbanjando tecnologia, uma estufa elétrica parecida com um forno elétrico que acelerava o crescimento de outras plantas.

Todos saem ganhando

A casa vencedora do certame foi a Canopea, francesa, a única proposta pensada na vertical, visando solucionar o problema de densidade populacional nas cidades andinas. Cada andar foi pensado para ser um apartamento, de sala ampla comunicada à cozinha e a um segundo cômodo, podendo estes últimos variar de tamanho de acordo com o deslizamento da parede que separa os dois. Na Vila Solar, foi apresentada também a cobertura do edifício: uma área comum a todos os moradores com serviços (lavanderia comunitária), estrutura para eventos (cozinha gourmet e mesa) e de relaxamento (com redes e poltronas).

Durante os 14 dias que esteve aberto ao público, o Solar Decathlon Europe recebeu a visita de 220 mil pessoas – número 10% maior ao da edição de 2010. Todo o consumo de energia do evento foi coberto pela produção excedente das casas, e ainda sobrou eletricidade para a rede pública de Madri. Na próxima edição, em 2014, a cidade beneficiada será Paris. Os Estados Unidos, onde o evento foi criado, em 2002, possuem uma edição própria, realizada nos anos ímpares, enquanto a versão europeia é realizada em anos pares.

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