“Má interpretação do Islã” eleva natalidade em país africano, diz presidente

Presidente do Níger, país com a taxa de natalidade mais alta do mundo, alerta que o crescimento populacional prejudicará a adaptação climática e investe em “paternidade responsável”

Issoufou, presidente do Níger: batalha para reduzir a taxa de natalidade recorde de seu país. Crédito: UNCTAD/Wikimedia

A taxa de natalidade recorde apresentada pelo Níger, país do centro-oeste da África, tem um culpado, segundo seu presidente: uma leitura errada do Islã, noticiou o jornal “The Guardian”.  Segundo o mandatário, Mahamadou Issoufou, o equívoco dificulta a luta do país para se adaptar à crise climática e preservar recursos cada vez menores.

Issoufou também alertou que a questão tem consequências para a Europa, uma vez que a migração originária de seu país pode exceder os níveis atingidos durante a Segunda Guerra Mundial.

“Tudo está conectado em uma aldeia global. Como se costuma dizer, uma borboleta bate as asas no Brasil e pode haver um tornado em Houston”, disse Issoufou, que foi homenageado por Emmanuel Macron e Angela Merkel como um dos líderes mais articulados da África.

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A população do Níger, um dos países mais pobres do mundo, era de 8 milhões em 1990. Em 2018, atingiu 22,4 milhões. “Temos um aumento anual de 4% na população”, afirmou Issoufou ao “Guardian”. “A população dobrará nos próximos 17 anos. Em 2050, poderemos ter a segunda maior população da África, ao lado da Nigéria.”

Segundo o presidente, ele tem diminuído lentamente a taxa de natalidade de seu país, de mais de sete filhos por mulher – a maior taxa do mundo na última década.

Filhos aos 12 anos

“Antes do Islã, as mulheres costumavam se casar aos 18 anos de idade, mas, devido a uma leitura errada do Islã, as jovens estavam tendo bebês com 12 ou 13 anos”, ele disse. “Mas o que o Alcorão diz? Se uma pessoa educada lê o Alcorão, fala sobre paternidade responsável. O Islã diz que você só deve ter filhos se puder cuidar bem deles e educá-los adequadamente.”

Ele acrescentou: “As escolas precisam educar as meninas porque não queremos que elas tenham filhos aos 12 ou 13 anos. Idealmente, queremos mantê-las na escola o maior tempo possível, até os 18 anos. Isso é algo novo para nós”.

Embora o Níger seja 98% muçulmano, os pontos de vista do presidente não entram em conflito com imãs ou líderes religiosos. Issoufou reconheceu ter enfrentado resistência de alguns líderes muçulmanos por defender o planejamento familiar, mas insistiu: “Os líderes religiosos estão conosco para aumentar a conscientização entre as pessoas, e é por isso que estamos vendo (…) uma diminuição [nas taxas de natalidade]”.

Segundo os últimos números oficiais do Banco Mundial, de 2016, cada mulher do Níger tinha 7,2 filhos. Com a disseminação das escolas de contracepção e planejamento familiar para homens, a taxa de natalidade diminuiu lentamente para cerca de 6 filhos por mulher. Mas é preciso fazer mais, disse Issoufou.

Onda migratória

O problema do crescimento populacional não se limita ao Níger – atinge todo o continente, observou o presidente. “Na África, hoje existem 1,3 bilhão de pessoas (…) [e haverá] 2,4 bilhões até 2050. Isso significa 30 milhões de jovens por ano entrando no mercado de trabalho. Se não fizermos nada para manter as pessoas na África criando empregos no país, haverá uma enorme onda de migração à medida que essas pessoas procurarem empregos em outros lugares.”

Issoufou observou que a escala da migração do Níger depende de como a crise climática progride, mas previu que o Sahel (a faixa de terra logo abaixo do deserto do Saara) será uma das principais origens dos 230 milhões de migrantes previstos até 2050. “No Níger, já estamos vivendo com os resultados práticos das mudanças climáticas”, disse. “As inundações que se alternam com as secas já estão tendo enormes consequências na produção agrícola. Há uma degradação do solo, as florestas estão se perdendo, há menos terra e um avanço do deserto. O lago Chade perdeu até 90% de sua água e há mais problemas com os rios locais. O Níger perde 100 mil hectares de terras agrícolas a cada ano.”

Ele prosseguiu: “O povo do Níger pode não entender completamente as causas disso, mas está experimentando isso em suas vidas diárias. Eles sabem que existe uma ligação entre a degradação do solo e sua pobreza. O mundo se preocupa com um aumento de 2 °C, mas já experimentamos esse aumento desde os anos 1960”.

Promessas não cumpridas

“Os menos responsáveis ​​pelas mudanças climáticas sofrem suas piores consequências. A situação não é ajudada quando os países industrializados nem sempre cumprem suas promessas.”

Issoufou tem agido como pode para pelo menos amenizar todos esses problemas. No início deste ano, ele participou do lançamento de um plano de investimento climático de US$ 400 bilhões para a região do Sahel. Como presidente da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, ele também esteve envolvido nos planos de construir uma zona de livre comércio pan-africana de 1,2 bilhão de pessoas, atualmente apoiada por 54 estados africanos. Segundo ele, o objetivo da iniciativa, que entrou em vigor há alguns meses, é acabar com o que descreve como “a balcanização do continente pelos colonialistas”.

Em 2015, o Níger, por solicitação da União Europeia, tornou-se o primeiro país a criminalizar o contrabando de pessoas. A UE concedeu ao país € 610 milhões para policiar o que se tornou de fato a nova fronteira da África com a Europa, após o colapso da Líbia. A meta era retardar o fluxo de migrantes para a Líbia, cujo passo seguinte – a migração para a Itália através do Mediterrâneo – atingiu o pico em 2017 e ajudou a direita populista italiana a chegar ao poder.

Issoufou foi acusado por críticos de se tornar a “polícia” africana da migração ilegal. Quanto a isso, ele contra-argumentou: “Não estou preparado para ver os africanos morrerem em trânsito no calor do Saara ou serem explorados por quadrilhas de contrabando.”