Madagascar: ver para crer

Na costa oriental da África, Madagascar é uma ilha com fartura de recursos ecológicos singulares, mas seus habitantes estão entre os mais pobres do planeta.

Paisagem insólita: o baobá Adansonia madagascariensis, o maior da África, chega a atingir 40 metros de altura.

Com vastos 587 mil km² sob o Trópico de Capricórnio, pouco maior que Minas Gerais, Madagascar, quando vista do alto, se assemelha a um barco vagando na costa sudeste da África. Quarta maior ilha do mundo, depois da Groenlândia, da Nova Guiné e do Bornéu, o país é uma arca de Noé à deriva há 160 milhões de anos, quando se separou do supercontinente Gondwana. Nesse território atravessado por um maciço montanhoso antigo, 85% das plantas e dos animais seguiram evolução autônoma e diversa do resto do planeta.

A geografia isolada da ilha oferece uma síntese das mais belas paisagens da Terra. Em poucas horas, passa-se do deserto saariano às montanhas cobertas de florestas subtropicais; dos terraços com plantações de arroz, no estilo indonésio, às extensas planícies com baobás e palmeiras; e dos maciços semelhantes à Chapada Diamantina a praias com recifes e água cristalina, como as da Polinésia.

Os primeiros pesquisadores naturalistas dos séculos 18 e 19 julgavam estar diante do paraíso. “É em Madagascar que posso anunciar aos naturalistas que existe a verdadeira terra prometida a eles; as formas mais insólitas e mais maravilhosas se encontram a cada passo”, escreveu em 1771 o botânico francês Joseph- Philibert Commerson. De fato, das 12 mil espécies vegetais existentes na ilha, 9,5 mil são endêmicas, isto é, só crescem ali. Para se ter uma ideia da megadiversidade do país, comparável à da Amazônia, enquanto em todo o continente africano só existe uma espécie de baobá, em Madagascar há sete, entre as quais a singular Adansonia madagascariensis, que atinge 40 metros de altura. Da seiva, retira-se um óleo especial; do tronco, madeira para construção das pirogas (espécie de canoas compridas); e da cortiça, um composto medicinal para combater a epilepsia. O baobá é árvore sagrada para os nativos da ilha, os malgaxes, e ao seu redor se realizam rituais de fertilidade, fartura e prosperidade.

A ilha é o paraíso dos naturalistas: das mais de 12 mil espécies vegetais existentes, 9,5 mil são endêmicas, ou seja, só dão lá

Nas savanas, crescem as pequenas árvores-garrafa, ou pé-de-elefante, e os espinhosos pachypodiuns, que parecem cactos suculentos. Nos bosques espinhosos, surgem a Didieracées trolli e a Ravenala madagascariensis, a palmeirados-viajantes, símbolo do país, com folhas que se abrem como um enorme leque e um caule que sempre tem água acumulada. Também se encontra ali a mais famosa orquídea malgaxe, a Angrecum sesquipedale, fecundada por uma borboleta que desenrola uma língua de 30 centímetros de comprimento para poder beber o néctar acumulado no fundo alongado da flor. Como o visitante é um inseto noturno, a orquídea se veste de branco luminoso para guiar a borboleta na escuridão da floresta. Coisa de desenho animado.

 

 

“Tena tsarabê” (muito bonito)

Quando o assunto é geologia, Madagascar desafia a compreensão dos cientistas. Ninguém consegue imaginar como essa ilha pode ser um museu de mineralogia, rica ao mesmo tempo em prata, ouro, níquel, cromo, titânio, monazita, hematita, grafite, mica, quartzo e mais gemas semipreciosas, como topázio, água-marinha, rubi, safira, ametista, amazonita, jaspe, ônix, celestite (de um suave azul), zircônia, turmalinas em tons diversos e cristais.

Nesse cenário singular, que os malgaxes classificam de tena tsarabê (“muito bonito”), cujos segredos as ciências tentam decifrar, a zoologia reforça o ambiente de fábula com os lêmures. Esses animais característicos da fauna da ilha se situam mais próximos ao homem do que o macaco na cadeia evolutiva. O nome lêmure, segundo a crença dos antigos romanos, evoca o espectro dos mortos que voltavam para assombrar os vivos. Os bichos foram assim denominados em virtude dos hábitos noturnos e da aparência espectral dos seus olhos esbugalhados.

Acima, desmatamento em Manantenina, um camaleão da ilha e o extinto pássaro dodô.

 

Há 30 espécies de lêmure na ilha. O maior e mais elegante é o indri, com seu impressionante grito quase humano. Ele alcança a altura de uma criança de 5 anos; todo coberto de pelo branco e negro, é capaz de executar saltos com impulso de até 10 metros de distância, com uma coreografia próxima à de um bailado. O gracioso sifaka tem penugem branca e máscara negra sobre o nariz. Destacam-se ainda o catta, com longa cauda anelada branca e preta, e os encantadores e pequenos lêmures noturnos, só vistos à luz de lanterna – verdadeiros gnomos da floresta.

Outro animal que faz Madagascar ser reconhecida pela sua megadiversidade especial é o camaleão. Trinta espécies já foram catalogadas, entre elas o Parson, o maior do mundo, com 65 cm de comprimento, e o Brookesia peyrierasi, o menor vertebrado do planeta, com 2 cm. Todos têm em comum a aparência de monstros pré-históricos.

Nessa terra de fauna anômala, chama a atenção a grande variedade de sapos, borboletas e morcegos. Entre estes últimos, os maiores são as raposas- voadoras, que fascinam os zoólogos e parecem guarda-chuvas negros pendurados nas árvores. Há 400 anos, também vivia na ilha o pássaro-elefante, o Aepyornis, uma espécie de avestruz de três metros de altura. Seus ovos, com circunferência de 50 centímetros e peso de 10 quilos, ainda podem ser encontrados nas areias do litoral e são vendidos a colecionadores.

“Tompoko” (quais as novidades?)

Uma viagem a Madagascar não pode ser curta. É necessário algum tempo para assimilar uma cultura tão diversa. Segundo o geógrafo Jared Diamond, os antepassados malgaxes são provenientes da atual China e, antes da África, colonizaram Java e Indonésia. Parte dessa onda migratória resultou nos polinésios, que povoaram as ilhas distantes do leste do Pacífico e do Oceano Índico, chegando, pelo oeste, a Madagascar e Comores, entre os anos 300 e 800 de nossa era. Esse movimento populacional, chamado de expansão austronésia, foi um dos maiores deslocamentos humanos dos últimos 6 mil anos.

Ex-colônia portuguesa e depois francesa, a República Malgaxe nasceu em 1960, passou por diversos golpes de Estado e ditaduras, foi um regime marxista de 1975 a 1993 e hoje é uma república presidencialista. Desde a adoção da Constituição de 1992, pode-se dizer que os ventos da democracia começaram a soprar a favor do desenvolvimento da ilha, principalmente no que se refere ao turismo. O atual presidente é o empresário e ex-disc-jóquei Andry Rajoelina, de apenas 37 anos, ex-prefeito da capital, Antananarivo, posto no poder por um golpe militar em 2009.

A reserva

de Ankarana

A natureza de Madagascar se reflete na alegria e na hospitalidade de seus habitantes, mas destoa da pobreza degradante da imensa maioria da população. É aí que reside o calcanhar vulnerável do país. Dos 20 milhões de malgaxes, divididos em 18 etnias (50% seguindo a religião cristã), quase 80% vivem na linha da miséria, com renda mensal de US$ 50 ou menos. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas, que mede riqueza, educação, natalidade e esperança de vida, entre 169 países Madagascar está no modestíssimo 135º lugar.

Tal como na Amazônia brasileira, os malgaxes queimam florestas para abrir caminho à agricultura, usando a técnica do tavy, parecida com a coivara dos índios brasileiros: aproveitam a fertilidade superficial das cinzas, cultivam a terra por um ou dois anos, abandonam a lavoura que vira pasto e vão queimar florestas mais adiante para expandir as culturas. Muitas espécies já desapareceram da ilha, entre elas o famoso e pacífico pássaro dodô, extinto no século 19.

Durante décadas, as vilas malgaxes que ficam ao lado do Maciço de Isalo, no sul da ilha, mantiveram pouco contato com o mundo exterior. Marginalizados pela falta de infraestrutura e pela deficiência dos governos, os aldeões até recentemente foram pouco visitados por turistas. Todos seguem um mesmo padrão de pobreza rústica: casas em adobe, ruas de terra com carroças puxadas por zebus, um ou dois bares, um armazém e mais nada. O comércio é feito diretamente na rua.

Entre os 169 países incluídos no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Madagascar ocupa o modesto 135º lugar

O mercado de Zoma, na capital

O que se vende? Legumes, frutas, cestas, chapéus (cada etnia usa um modelo próprio) e tecidos estampados em cores vistosas para os lambas, os saris utilizados por homens e mulheres. A vida nesses povoados ganha alegria quando acontecem as festas “dança do pilão” ou da fecundidade. A principal delas é a famadiahana, festa do retorno dos mortos, quando se realiza a exumação dos ossos.

Contudo, à margem do panorama social desalentador, há um sopro de boas notícias – tompoko (quais as novidades?), como dizem os malgaxes. O crédito é do governo de Andry Rajoelina, que está construindo novas estradas e incentivando a iniciativa privada e estrangeira a levantar hotéis e promover o turismo, riqueza inexplorada da ilha.

Rajoelina autorizou a formação de parcerias de organizações não governamentais com o objetivo de comprar terras para o estabelecimento de reservas biológicas e naturais. Nos últimos dois anos, houve redução no desmatamento, a vegetação começou a se recuperar e, mais importante, houve uma acentuada diminuição da pobreza. Sem visitar a ilha não é possível ter ideia da riqueza e da biodiversidade do planeta. É preciso conhecer e salvar o legado de Madagascar.

 

 

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