Mão na massa

A bioarquitetura, técnica de construção que usa materiais naturais locais, é uma forte opção sustentável disseminada nos dias de hoje, sobretudo nas ecovilas

Concepção artística do projeto ReGen Villages, na Holanda (Foto: Divulgação)

Ao mesmo tempo que surgem novas soluções com tecnologia avançada, atualmente se vê um resgate de técnicas ancestrais de construção que geram menos impactos negativos sobre o meio ambiente. Conhecidas como bioarquitetura, essas maneiras de construir com materiais não processados ganham espaço principalmente entre aqueles que estão revendo todo seu estilo de vida. Outro diferencial dessas técnicas é que elas não dependem de produtos da indústria, permitindo que os interessados coloquem as mãos na massa e construam imóveis inteiros a baixíssimo custo. “Sustentável é o saber fazer”, afirma o arquiteto e professor Rodrigo Mindlin Loeb.

Esse saber popular, cada vez mais respaldado pelo conhecimento contemporâneo, tem sido muito aplicado e disseminado hoje em dia em cursos oferecidos pelas chamadas ecovilas. Essas comunidades rurais procuram praticar a vida em harmonia com a natureza, obtendo comida das próprias plantações, tratando água e esgoto localmente e, muitas vezes, gerando a própria energia. Não é de se estranhar que na maior parte delas as casas sejam construídas pelos próprios moradores ou voluntários.

Casa com estilo japonês na multiétnica Auroville (Foto: Divulgação)

Mas essa não é uma regra. A ecovila Viver Simples, em Itamonte (MG), optou por uma alternativa igualmente sustentável. “Pegamos o bioconstrutor mais experiente da região e o transformamos em empreiteiro. Empregamos muitos vizinhos e deixamos cerca de R$ 1 milhão para a população local”, conta Ely Britto, idealizadora e coordenadora geral da ecovila criada há 10 anos. Os problemas vieram, logo em seguida, com as discordâncias entre as 13 famílias moradoras. “Queriam transformar o espaço em condomínio de luxo”, resume rapidamente.

Para Ely, entretanto, a proposta das ecovilas não é voltar a ser primitivo. “Isso deixaria uma carência na alma daqueles que estudaram e viajaram. Somos mais sofisticados, queremos ler, ouvir música, nos cuidar. Mas todo dia temos uma lista de tarefas para manter a ecovila em ordem: plantar, colher…” Segundo a idealizadora, atualmente, o que está em processo de reconstrução na Viver Simples é a parte humana. E tem aparecido muita gente interessada em se instalar ali.

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Distância do caos

Outra ecovila brasileira que está abrindo espaço para a residência fixa de novas famílias é a Bioaldeia Arawikay, em Antônio Carlos (SC). A procura também tem sido grande. “Agora, no século 21, as ecovilas estão se tornando uma necessidade, porque a vida urbana virou um caos”, comenta Tânia Valladares, cocriadora e moradora da bioaldeia há 17 anos. Mas para conseguirem se des­prender da área urbana, as pessoas precisam enfrentar diversas questões, principalmente relativas a como vão se sustentar.

Atividade coletiva na ecovila Arca Verde, em São Francisco de Paula (RS) (Foto: iStockphotos)

A bioarquitetura é forte até mesmo no maior exemplar desse estilo de viver, Auroville, que surgiu na Índia em 1968. A cidade, que atualmente conta com 2,5 mil moradores de diferentes nacionalidades, define-se como uma comunidade universal e estimula as práticas sustentáveis de habitar, produzir e viver.

Uma releitura de ecovila que pretende se espalhar pelo mundo é o projeto ReGen Villages, desenvolvido pela empresa holandesa homônima com o escritório de arquitetura dinamarquês EFFEKT. Esse novo sistema de urbanização sustentável e high-tech não depende da rede de fornecimento de energia, água e esgoto, e conta com áreas de plantio doméstica e coletiva, entre outras estruturas, para garantir autonomia aos seus moradores. Um piloto com 100 casas já está em etapa de implantação na Holanda.

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