Masculino, Feminino, mais ou menos

Macho ou fêmea? A pergunta parece banal, mas a resposta é complexa. O que define o sexo de um indivíduo? Os cromossomos? Os hormônios? A aparência dos órgãos genitais? Que fazer quando esses elementos entram em contradição?

A ideia de só existirem dois sexos é simplista e não corresponde à realidade da natureza humana. É o que afirma, em síntese, um longo artigo publicado recentemente na prestigiosa revista científica Nature. Mesmo não sendo novidade na comunidade de biólogos, a concepção de um “espectro” ou de uma “sucessão” de sexos está longe de ser conhecida do grande público. Poucos sabem que a presença ou ausência de um cromossomo Y não é suficiente para definir um macho ou uma fêmea de forma absoluta.

Na verdade, a pesquisa científica – que aqui também inclui a psicologia – aproxima-se cada vez mais da convicção de que o sexo masculino ou o feminino puros, absolutos, simplesmente não existem. Cada um de nós é uma das infinitas combinações de componentes masculinos e femininos. Nesse sentido, o conjunto dos seres humanos é tão diversificado que, atualmente, pode-se afirmar que a equação sexual de um indivíduo faz parte da sua própria identidade pessoal. Assim sendo, na espécie humana, existiriam tantos sexos quanto o número de seres humanos que caminham, já caminharam ou caminharão na superfície deste planeta.

Genética fluida

O sexo cromossômico de uma pessoa pode dizer uma coisa, mas suas gônadas (ovários ou testículos), ou sua anatomia podem dizer outra diferente. Para alguns cientistas, uma pessoa em cada grupo de cem apresenta algum tipo de anomalia do desenvolvimento sexual. Mas essas anomalias não resultam necessariamente em patologias e não contam nada sobre a sexualidade dos indivíduos afetados. No que diz respeito à genética, a fronteira entre os sexos se mostra ainda mais fluida. Ao mesmo tempo, a hipótese comumente aceita segundo a qual todas as células contêm o mesmo número de genes é errônea. Tais constatações explicam diversas doenças cromossômicas, como a síndrome de Turner (quando o indivíduo tem somente um cromossomo X, em vez de um par) ou a síndrome de Klinefelter (quando o indivíduo possui três cromossomos – XXY –, em vez de dois).

Cada um de nós combina componentes masculinos e femininos de forma única (Foto: Luciano Marques)

Os cientistas descobriram também que as células XX e XY se comportam de maneira diferente, mas que isso pode acontecer independentemente da ação dos hormônios sexuais. Portanto, se você quiser saber se alguém é homem ou mulher, os especialistas dizem que o melhor é perguntar… e aceitar tranquilamente a resposta. Essa não é a primeira vez que a revista Nature trata da questão. Um artigo publicado em fevereiro de 2013 voltava a trazer para o primeiro plano da ciência o debate a respeito do sexo e de como é impossível defini-lo em termos binários. Mesmo assim, naquele ano a ideia estava longe de ser novidade. Em 1968, Keith L. Moore havia definido, em artigo na revista Journal of the American Medical Association, nove componentes da identidade sexual. Depois dele, em 1993, Ann Fausto Sterling, num artigo publicado na revista The Sciences, sugeriu a existência de cinco sexos.

Atribuição forçada

A compreensão do sexo como uma função humana de largo espectro permite levar em conta a grande quantidade de variações cromossômicas, hormonais ou outras do ser humano. São essas variações que fazem com que determinadas pessoas nasçam com órgãos genitais cuja aparência não corresponde à norma definida em termos médicos, ou com combinações de cromossomos menos habituais (XXY), ou com insensibilidade a determinados hormônios. Por exemplo, uma insensibilidade aos hormônios andrógenos (masculinos) pode fazer com que um indivíduo com cromossomos XY possua testículos internos, ao mesmo tempo que apresenta órgãos genitais externos e características fisiológicas próprias do sexo feminino.

A Metamorfose de Hermafrodita e Salmacis: no mito grego, masculino e feminino num só ser (Foto: Divulgação)

Na maioria dos casos, essas formas de intersexualidade (palavra que veio substituir o estigmatizado termo “hermafroditismo”) não causam problemas de saúde. No entanto – por razões predominantemente culturais –, nossa concepção de sexo se ancora num sistema binário, que leva a que seja “atribuído” um sexo aos que nascem como intersexuais, por meio de cirurgia dos órgãos genitais e/ou terapias hormonais. Trata-se de uma mutilação muitas vezes não consentida, por ocorrer quase sempre em tenra idade e por decisão expressa dos pais. Essa é a opinião da imensa maioria das associações de defesa dos direitos dos intersexuais. Em 2015, Malta, arquipélago localizado no Sul da Europa, tornou-se o primeiro país onde as operações desnecessárias em crianças intersexuais são proibidas.

Ambiguidade esportiva

Desde meados do século passado, as organizações desportivas fazem testes para determinar quem está apto para concorrer na categoria feminina ou na masculina. Mas os resultados foram com certa frequência pouco conclusivos e, diversas vezes, desastrosos para as atletas. Se o gênero se constrói socialmente, ancorado no que diz respeito à biologia em um modo binário masculino/feminino, a natureza simplesmente zomba dessas categorias. Mamãe natureza parece querer nos dizer que quem estabelece os gêneros somos nós, mas quem determina o sexo é ela, e ela faz o que bem entende.

A transexual Caitlyn Jenner, que, como Bruce Jenner, venceu o decatlo na Olimpíada de 1976 (Foto: Divulgação)

Nossas concepções estereotipadas – e muitas vezes preconceituosas – a respeito da existência exclusiva de apenas dois sexos entre os seres humanos são a cada dia mais contrastadas pelas evidências obtidas pelas ciências médicas e humanas e pela psicologia. Nas modalidades desportivas de alto nível, por exemplo, as variações e a ambiguidade sexual não são toleradas. Desde o século passado são efetuados testes de feminilidade, cujo objetivo é assegurar que cada concorrente está na categoria “certa”. Inicialmente, tratava-se de um controle ginecológico e morfológico do sexo de cada concorrente, da força muscular e da capacidade respiratória. Tais controles consistiam em constrangedores desfiles de atletas femininas nuas que eram examinadas e medidas em detalhes.

Essa modalidade de controle foi considerada demasiado humilhante e substituída em 1968 pelo teste do corpúsculo de Barr (também chamado de cromatina sexual), que permite revelar a presença de um segundo cro­mossomo X. Ele foi posteriormente substituído pelo teste PCR/SRY, no qual se tenta estabelecer se o cromossomo Y está presente ou não.

Impossibilidade

Numa entrevista recente, a francesa Anais Bohuon, estudiosa da história e da sociologia do corpo e autora do livro Le Test de Féminité dans les Competitions Sportives (“O teste de feminilidade nas competições esportivas”, ainda não traduzido para o português), explica: “As alterações nos critérios do teste de feminilidade mostram as múltiplas dimensões do sexo biológico e a consequente dificuldade em determinar o ‘verdadeiro’ sexo num debate que ultrapassa o mundo do esporte, colocando questões a toda a nossa sociedade. Essa dificuldade se transforma em impossibilidade, porque existem pessoas que se revelam ‘intersexuais’, ou seja, é impossível classificá-las como macho ou fêmea. Mais ainda: um grande número de investigações veio sublinhar a impossibilidade de determinar de maneira exata o sexo biológico de todos os indivíduos, sejam eles intersexuais ou não”.

A corredora sul-africana Caster Semeneya (Foto: Divulgação)

Essa dificuldade é ilustrada pela corredora sul-africana Caster Semenya. Como ela havia batido duas vezes o recorde mundial nas provas de 800 metros rasos em 2009 – a segunda delas no Campeonato Mundial de Atletismo, em Berlim –, sua “feminilidade” foi posta em causa e ela foi obrigada a submeter-se a testes. Os resultados foram negativos para doping, mas mostraram que seu corpo produzia mais hormônios andrógenos do que o da maioria das mulheres.

Atualmente, para competir, atletas hiperandrogênicas como Caster têm de manter por pelo menos um ano antes da competição a taxa de testosterona abaixo de um valor arbitrário – 10 nanomoles/litro de sangue – que é o novo limiar do sexo feminino. (Na maioria das mulheres, esse índice é de pouco mais de 3 nanomoles/litro.) Esse limite obriga tais atletas a regular, utilizando meios artificiais, sua produção hormonal natural. Outras atletas, que nasceram com testículos internos, tiveram de retirá-los para poder prosseguir na carreira esportiva. (As novas regras, a propósito, não impediram Caster de ganhar a medalha de ouro nos 800 metros rasos nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e do Rio de Janeiro, em 2016.)

Hoje a sexualidade é expressada de formas variadas (Foto: Johnny Greig)

Um estudo com atletas de alto nível competitivo mostrou que 16,5% dos homens possuíam uma taxa de testosterona inferior à média masculina, enquanto 14% das mulheres apresentavam uma taxa superior à média feminina. Mas, se os pés gigantescos do nadador Michael Phelps lhe davam vantagem, ninguém nunca sugeriu que ele os cortasse para continuar a competir…

Era da indefinição

No futuro, o gênero deverá ser tão fluido como o que está acontecendo neste momento com a orientação sexual. Provavelmente deixará de ser preciso definir o gênero nos documentos, da mesma forma que, atualmente, está deixando de ser necessária a definição da orientação sexual. Em todo o mundo, existe uma nova leva de homens e mulheres jovens que expressam sua se­xualidade de maneiras diversas. Classificam-se, por exemplo, como “de preferência heterossexual”, mas declaram-se abertos ao amor homossexual. E a comunidade transgênero dá passos gigantescos em matéria de aceitação e reconhecimento. Há dez anos, vale lembrar, a maioria das pessoas nem sequer conhecia o termo correto para designar uma pessoa trans…


Polêmica no vôlei

Uma das atrações da Superliga, a principal competição feminina do vôlei brasileiro, é a atacante Tifanny, de 1,92 m, do Vôlei Bauru (SP). Ela, que estreou apenas em dezembro, é a primeira jogadora transexual a disputar esse campeonato. Na sua sétima partida, Tifanny bateu o recorde de pontos do torneio – foram 39 na derrota de sua equipe para o Praia Clube. Tifanny nasceu em Paraíso do Tocantins (GO) há 33 anos, como Rodrigo Pereira de Abreu, e disputou torneios masculinos no Brasil e na Europa antes de iniciar a transição de gênero, em 2012. Esse processo foi concluído em 2015, e no início de 2017 veio a autorização para jogar em campeonatos profissionais.

Pelas regras do Comitê Olímpico Internacional (COI) vigentes até os Jogos Olímpicos de Inverno deste ano, uma atleta trans não precisa fazer a cirurgia para mudança de sexo – basta que seu nível de testosterona não supere 10 nanomoles por litro de sangue. Tifanny mantém a taxa em 0,2 nmol/l. Nas sete primeiras rodadas da Superliga, ela havia feito 160 pontos, mais do que suas concorrentes diretas, mas seu índice de eficiência é inferior ao delas. Na sétima rodada, por exemplo, Tandara (Osasco) atingiu 56% de eficiência, e Bruna Honório (Pinheiros), 46%, enquanto Tifanny chegou a 44%.

Esses dados não impedem a polêmica. Para alguns especialistas, o fato de ter moldado seu corpo como atleta masculino, ou seja, com muita testosterona, é um diferencial importante para Tifanny frente a outras atletas. Muitas colegas, além de técnicos e dirigentes, evitam se manifestar sobre o assunto. Mas o técnico da seleção brasileira, José Roberto Guimarães, já admitiu que poderia convocá-la.


Inadequação na infância

A progressiva abertura para o tema de diversidade de gênero expôs um dado ignorado por muitos: a existência de um número considerável de crianças que se dizem inadequadas em seus corpos – meninos em corpo de menina e vice-versa, por exemplo. Ainda não se conhece exatamente a dimensão dessa faixa populacional – nos Estados Unidos, alguns estudiosos afirmam que a proporção é de uma criança transgênero para cada grupo de 500; outros, que a proporção seria de 1 para 20 mil.

De qualquer modo, já existe uma percepção maior em relação aos problemas enfrentados por esses menores, como o preconceito de colegas, professores e familiares, o bullying, a rejeição e o isolamento, que podem mais tarde levar a pessoa a tentar o suicídio. Segundo um estudo da organização britânica National Centre for Transgender Equality divulgado em 2016, 40% dos indivíduos transexuais tentam dar fim à própria vida em algum momento da sua existência. A maior aceitação de tais casos ajudará a reduzir essa porcentagem elevada.

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