Memórias que curam

Pesquisa encontra os caminhos para recordar eventos traumáticos escondidos no subconsciente e levanta a discussão: como é melhor lidar com memórias que temos medo de lembrar?

Muito já se especulou sobre o desejo e as possibilidades de apagar memórias traumáticas, como se um espinho que incomoda a mente pudesse ser retirado com pinça. Com a situação exatamente oposta a polêmica não é menor nem menos interessante. Lembrar eventos traumáticos que foram arquivados em um lugar bem escondido no cérebro pode ser a solução de muitos problemas de saúde física e mental aparentemente inexplicáveis. Apesar de se manterem inconscientes, essas memórias continuam arquivadas, e o paciente precisa conhecê-las para poder se libertar dos seus traumas. Por mais que a pessoa não se lembre da causa do sintoma, a dor está ali.

A última pesquisa no sentido de acessar essas lembranças dolorosas e difíceis de recuperar foi publicada em agosto na revista Nature Neuroscience. “O que nos levou a trabalhar nesse tema foi um enigma: algumas vítimas de traumas lembram claramente das experiências vividas, mas outras reprimem e dissociam suas memórias”, revela Jelena Radulovic, líder do estudo e professora da Universidade Northwestern (EUA). “Lembrar acontecimentos assim geralmente permite atenuar outros sintomas, como ansiedade, depressão ou disfuncionalidades sociais”, afirma.

Já se sabia que a formação desse tipo de memória depende do estado em que o indivíduo se encontra naquele momento – o que quer dizer que ela será mais bem evocada quando o cérebro estiver na mesma agitação mental de quando foi armazenada. “Muitos tipos de memórias são dependentes de estado de espírito ou farmacológico. A primeira descrição disso foi no filme Luzes da Cidade, de Charles Chaplin, de 1931”, ilustra o neurocientista Iván Izquierdo, referência internacional em estudos da memória. O personagem Vagabundo fica amigo de um milionário que só o reconhece em estado de ebriedade, mas, quando está sóbrio, não se lembra dele.

Muito já foi feito nessa linha, desde os anos 1970, inclusive por Izquierdo, comprovando a dependência de estado. Mas o estudo de Jelena deu um passo à frente ao revelar que as lembranças associadas ao medo são armazenadas por um sistema diferente daquele que codifica memórias normais. “Fomos os primeiros a identificar os caminhos moleculares e os circuitos neuronais que contribuem para esse tipo de aprendizado estado dependente”, anuncia Jelena.

Contraponto

O psicólogo e neurocientista Julio Peres reconhece a importância do estudo, mas coloca uma ressalva. Trazer à tona memórias encobertas sem que tenha uma estrutura cognitiva preparada para o processamento delas pode retraumatizar as pessoas e levá-las a outros transtornos psiquiátricos. Você aceitaria recordar o que o próprio cérebro decidiu esconder? No caso de abuso sexual infantil, por exemplo, quem seria responsável por decidir que é o momento de a criança conhecer os fatos ocorridos?

“Agora falo como psicólogo clínico e neurocientista: sabe por que a pessoa não se lembra? Porque ela ainda não tem estrutura psíquica para processar tamanha dor. Se eu injetar uma substância neuroquímica para fazê-la lembrar, posso agredir um sistema de defesa muito mais sábio”, adverte. Pela sua experiência profissional, à medida que o paciente desenvolve recursos para processar o que aconteceu, a lembrança vem à tona. “Os estímulos desenca­deantes estão por aí. Pode ser um simples olhar.”

Peres desenvolveu um estudo com policiais que sofreram ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), em 2006, para entender o processo de superação de traumas por meio da psicoterapia. As neuroimagens obtidas apontaram o que acontece no cérebro daqueles que superam e dos que não superam, antes e depois do tratamento. Ele explica que o trauma é uma situação inacabada, devido à ausência de processamento. O trauma é como fragmentos sensoriais e emocionais dispersos, sem uma integração cognitiva, sem uma expressão narrativa para o que aconteceu.

“Quando a pessoa consegue falar, significar e ressignificar o evento, e cria uma aliança de aprendizado com o que aconteceu, ela está ativando determinados circuitos cerebrais que favorecem maior atividade no córtex pré-frontal e no hipocampo. Isso tem relação direta com a superação do trauma”, relata. Já as pessoas que não superam os traumas apresentam uma expressão sensorial nas regiões posteriores, segundo seus achados publicados em periódicos especializados internacionais.

Reação imprevisível

A neuropsicóloga Mariana Assed reafirma as considerações do colega. “Só lembrar o acontecimento não é muito eficiente. É preciso fazer algo com aquilo.” Para ela, assim como é possível se libertar de somatizações (doenças causadas por episódios de que alguém não consegue se lembrar) ou futuras neuroses desenvolvidas em função de vivências traumáticas, também é provável descompensar o paciente se ele não estiver pronto para enfrentar as questões que emergirem. “Seria fundamental que a pessoa contasse com uma equipe multiprofissional para dar sustento emocional. Ninguém sabe como vai reagir ao relembrar um episódio traumático. Assim como se pode evitar um surto, pode-se desencadear um surto.”

Mariana exemplifica com o caso de uma paciente com síndrome do intestino irritado com causas psicossomáticas. Quando chegou ao consultório, ela sofria com diarreias incontroláveis a qualquer hora. “Era constrangedor. Ela estava privada do convívio com outras pessoas.” Levou sete meses para conseguir evocar a memória de um episódio de muito medo com o pai, com quem tinha uma relação conflituosa. Assim pôde superar a síndrome e recebeu alta. “O processo da psicoterapia vai aos poucos. Talvez fosse bom para ela acelerar esse processo? Difícil dizer”, confessa.

O estudo não se tratava de uma tentativa para produzir uma pílula ou qualquer outra solução milagrosa de resgate de memórias relacionadas ao medo. Mas Jelena acredita que o trabalho pode estimular o desenvolvimento de novas abordagens para ajudar pacientes com estresse pós-traumático ou transtornos dissociativos. E que venham acompanhados com os cuidados terapêuticos para não se tornarem perigosas Caixas de Pandora.

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Os circuitos do medo

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Dentro do cérebro, dois neurotransmissores definem quando as células nervosas estão excitadas ou inibidas: o glutamato e o GABA (que se divide em dois tipos). Se a pessoa está em estado de vigilância, a concentração do glutamato aumenta. Para acalmar a mente, porém, entram em ação os receptores sinápticos de GABA. Já os receptores extrassinápticos de GABA agem independentemente do glutamato. Eles ajustam as ondas cerebrais e os estados anímicos do cérebro, criando a sensação de sonolência, excitação, sedação e até de psicose. O estudo “GABAergic mechanisms regulated by miR-33 encode state-dependent fear”, liderado por Jelena Radulovic, mostrou que eles ainda ajudam a codificar as memórias traumáticas e a escondê-las da consciência.

Antes se pensava que essa atividade elevada dos receptores GABA prejudicava o resgate das lembranças associadas ao medo. Mas o uso do gaboxadol, droga que estimula os receptores extrassinápticos de GABA, mostrou que o cérebro entra na mesma frequência do medo, permitindo que essas memórias antes inconscientes venham à tona. “A maior surpresa foi descobrir que uma droga que prejudica a memória e reduz o estresse e a ansiedade, na verdade, causou no cérebro o estado dependente de medo”, revela Jelena.

Os camundongos receberam uma injeção de gaboxadol no hipocampo, região do cérebro relacionada à memória, e foram levados a uma caixa, onde receberam um choque. Ao serem colocados na mesma caixa, outro dia, sem estarem sob efeito de gaboxadol, os animais agiram como se nunca tivessem vivido uma experiência estressante ali. Mas assim que receberam outra dose da droga, a reação de medo paralisou os animais, assustados com a possibilidade de levar outro choque.

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Herança traumática

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Outro estudo com foco no efeito das memórias de medo sobre a vida das pessoas aponta que alterações genéticas derivadas de traumas podem ser transmitidas aos filhos. Essa foi a descoberta feita em pesquisa liderada por Rachel Yehuda no hospital Mount Sinai, de Nova York, com sobreviventes do Holocausto e seus descendentes. Foram analisados 32 homens e mulheres ex-prisioneiros de campos de concentração nazistas, testemunhas de torturas ou que tenham se escondido durante a Segunda Guerra Mundial. Os resultados foram comparados com um grupo de judeus que não estava na Europa nesse período.

Tanto nos sobreviventes quanto nos seus filhos mais propensos a distúrbios de estresse foram encontrados marcadores epigenéticos na mesma parte de um gene associado à regulação dos hormônios de estresse, reconhecidamente afetado por traumas. Isso não aconteceu no grupo de controle. Os marcadores químicos ou epigenéticos são resultado de fatores externos (como fumo, hábitos alimentares e estresse) que se fixam ao DNA, ativando e desativando genes. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que somente os genes eram responsáveis por transportar informações biológicas. Mas pesquisas recentes vêm mostrando que alguns marcadores costumam escapar do processo de limpeza por que os genes passam na fertilização.

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