Menos é mais

Por que um número cada vez maior de pessoas se propõe a viver com simplicidade

A família Dannemiller concentra todos os clichês da classe média americana. Uma casa com três quartos nas cercanias de Nashville, dois carros na garagem, dois filhos e bons empregos. Scott, o patriarca, se define como aquele suburbano típico que você vê da janela do carro, de sandálias Crocs e meias, tentando ligar o cortador de grama enquanto assovia um rock dos anos 80. Gabby, sua mulher, era uma bem-sucedida gerente de operações de uma empresa de computadores, enquanto o marido dava treinamentos técnicos para trabalhadores em tecnologia. Dinheiro nunca foi problema para os Dannemiller.

Embora trabalhe na área de tecnologia, o casal notou que estava desconectado. Ela encarava jornadas diárias de até dez horas no escritório. Ele viajava pelos EUA para ministrar treinamentos. Durante um jantar há dez anos, enquanto cada um reclamava do trabalho, o casal criou uma imagem para definir sua situação. Viram-se presos naquela roda na qual os ratinhos de estimação correm sem ir a lugar algum. Concluído o diagnóstico, uma frase do consultor financeiro americano Dave Ramsey começou a ecoar nas cabeças de ambos: “Compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”.

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Presbiterianos dedicados e assíduos, Scott e Gabby iniciaram seu exercício de desapego trabalhando um ano como missionários na Guatemala. Durante esse período, dividiram a casa com uma família nativa, descendente dos maias. E foi ali que começaram a se questionar sobre o que de fato importa na vida.

Cerca de sete anos e dois filhos depois, o casal resolveu radicalizar. Scott virou dono da própria empresa, continua viajando, mas controla seu tempo de modo mais generoso, no que diz respeito a abrir a agenda para estar com mulher e filhos. Gabby cuida da casa e das crianças e tem um trabalho flexível como gerente de projetos. Estavam prontos os alicerces para que eles resolvessem passar o ano de 2013 sem comprar nada.

A experiência está toda registrada no livro The Year Without a Purchase (O Ano sem Nenhuma Compra), lançado em agosto nos EUA pela Westminster John Knox Press e ainda sem tradução no Brasil. A primeira dificuldade foi se livrar das armadilhas preparadas pela indústria do consumo. “Tanto fazia se era um carro novo, roupas novas ou o mais recente gadget, eu pesquisava o item, fazia a compra e trabalhava muito para ter o dinheiro necessário para quitar a fatura. Eu nunca me perguntava ‘por que’ queria aquilo”, lembra Scott. Segundo ele, esse tipo de comportamento serve a apenas dois propósitos: 1) ser mais parecido com aqueles que já têm aquele item; 2) ganhar a aprovação daqueles que ainda não o possuem.

Natal enxuto

Desafio ainda maior foi convencer as crianças de que pode ser bacana um Natal sem um monte de brinquedos descartáveis sob a árvore. Hoje com 9 e 7 anos, respectivamente, Jake e Audrey foram criados ouvindo muito “não” em lojas. A desculpa era sempre a mesma, lembra Scott: “Isso é muito caro”. Com o tempo, o casal passou a dizer aos filhos “não vamos comprar porque não precisamos disso”.

Isso pavimentou o terreno para que a família toda embarcasse na experiência de passar um ano inteiro comprando apenas comida, artigos de higiene e “experiên­cias” como passeios, viagens e entretenimento. Muito do experimento ficou incorporado ao dia a dia da família até hoje. Scott resume em uma frase o estado de ânimo atual na casa dos Dannemiller: “Estamos mais felizes”.

A família Dannemiller: um ano inteiro sem comprar bens de consumo
A família Dannemiller: um ano inteiro sem comprar bens de consumo

Pessoas de vários estratos sociais e culturais encontram e defendem aspectos positivos no consumismo. Para Steven Quartz, professor de filosofia e neuro­ciência no Instituto de Tecnologia da Califórnia, a busca do nosso cérebro pelo que é cool­ ajuda na constituição da autoestima, na aceitação em grupos sociais e na vitalidade econômica. Este último aspecto também é alardeado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vê no crédito e no consumo saídas para o atual atoleiro da economia brasileira. Todavia, há uma questão matemática que põe contra a parede argumentos como esses. PLANETA mencionou, em matéria de 2010, que a Terra precisava então de quase um ano e meio para produzir os serviços ecológicos que os 7 bilhões de humanos utilizam em um ano. Hoje, esse tempo já subiu para 1,6 ano.

Redução inevitável

Ou seja, se quisermos retardar a necessidade de colonizar outro planeta, precisamos criar um jeito de reduzir nosso consumo desses serviços. Não é uma transformação indolor e sem esforço. Desde a Revolução Industrial, no século 18, nosso sistema econômico é baseado no consumo. Com o tempo, os gênios do marketing desenvolveram formas de nos transformar em compradores mecânicos, que sempre querem mais – e mais novo.

De novo, a matemática pode aju­dar nessa hora. Somados, o crescimento populacional e a urbanização nos encaixotam em moradias cada vez menores. Mas o ser humano é resiliente, não desiste facilmente. Quer coisas novas mesmo sem ter espaço para guardá-las. O resultado disso é que a indústria de armazenagem pessoal é uma das que mais crescem no mundo e fatura cerca de R$ 126 bilhões por ano. Para não alimentar essa máquina, uma conta de subtração ajuda: quanto menos compramos, menos temos para estocar, menos espaço usamos, podemos trabalhar menos, nos estressamos menos e geramos menos lixo. Como ninguém acredita que 7 bilhões de pes­soas vão virar monges budistas da noite para o dia, o jeito é desenvolver estratégias para a Terra não sofrer tanto com os nossos ímpetos consumistas.

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Revenda de carros seminovos em Belgrado: reúso necessário

Em janeiro de 2016, chega ao mercado o livro Somebody Else’s Problem: Consumerism, Sustainability and Design (Problema dos Outros: Consumismo, Sustentabilidade e Design), do cientista australiano Robert Crocker, diretor do Zero Waste SA (centro de pesquisa para o design sustentável da Universidade do Sul da Austrália) e comissário do Centro China-Austrália para o Desenvolvimento Urbano Sustentável. No livro, ele recomenda novas formas de desenhar, produzir e usar os bens materiais e os serviços. A receita passa pela concepção de produtos mais duráveis, reutilizáveis e recicláveis. Tudo feito de um modo pelo qual a vida do consumista incontrolável continue a ter um sentido.

 

“Consumismo é a cultura da produção de desperdício”, diz Crocker. “Ele nos faz sentir que o que temos é insuficiente e precisa de melhoras. Isso significa que o velho deve ser descartado para abrir espaço para o novo e ‘melhor’. Tradicionalmente, o design ajudou a perpetuar essa situação, traduzindo a tecnologia em dispositivos vendáveis para o lucro de alguns. Temos de reconfigurar o design para ele usar a tecnologia com propósitos sustentáveis.”

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Design sustentável

Se a indústria assumir o seu papel de agente transformador de comportamentos, as pessoas vão junto, na visão do autor. Para tanto, basta que as empresas adotem, em toda a sua complexidade, o design sustentável. Isso vai muito além da caixa de papelão reciclado. Esse design busca desenvolver produtos e serviços em plena sintonia com o ambiente e a ecologia, não apenas durante a produção e consumo, mas também na hora do descarte.

Enquanto o dia em que todos os produtos forem feitos sob esses critérios não chega, a solução mais lógica é pôr em prática ao menos parte da filosofia dos Dannemiller. E é possível ser bem menos radical que eles e obter efeito similar. Para tanto, basta a mudança de um único hábito: exigir que os produtos e serviços sejam zero-quilômetro. O comércio fluente dos chamados carros seminovos está aí para mostrar que a nossa aversão a artigos usados não é irreversível. Se funciona para automóveis, por que não pode dar certo com roupas, livros, celular e até comida?

Locação de bicicletas elétricas em Curitiba
Locação de bicicletas elétricas em Curitiba

As novas gerações já se preo­cupam com isso. Pesquisa da consultoria americana Harris, em 2014, dá uma boa ideia de quanto o verbo “ter” vem perdendo espaço para o “vivenciar” na cabeça dos millenials, jovens entre 18 e 34 anos. Do grupo de pesquisados, 78% preferem gastar em experiências em vez de adquirir um bem material palpável, e 55% investem cada vez mais em eventos. Essas pessoas fazem girar cada vez mais rapidamente a roda da economia compartilhada.

Nesse modelo de economia, pessoas comuns estabelecem relações comerciais, negociam e compartilham seus próprios bens. O pagamento pode ser na forma de outro bem ou na prestação de algum serviço. Isso tudo é facilitado e viabilizado pela internet. As pontas mais visíveis desse escambo moderno são sites como Airbnb e Couchsurfing, que oferecem acomodações compartilhadas em todo o mundo por preços que podem ser frações do que é cobrado por um hotel quatro estrelas. Mas esse compartilhamento hoje se estende a carros, roupas e até comida.

Rejeição à posse

No Brasil, a economia compartilhada ainda está a caminho de atingir velocidade de cruzeiro. No estudo “Ter Menos e Compartilhar Mais – Uma Análise do Consumo Colaborativo”, Janaina de Holanda Costa Calazans, Rafaela Dias Lins e Cecília Almeida Rodrigues Lima apresentam a seguinte radiografia: “O modelo de propriedade individual vai sendo, aos poucos, substituído pela ‘mentalidade de uso’, com a qual as pessoas pagam pelo benefício que o produto proporciona, não necessariamente pela sua posse. Tais consumidores não querem o CD ou o DVD, mas sim a música e o filme que ali estão gravados, ou seja, elas querem as experiências, não os produtos”. Esse tipo de mentalidade se desenvolve sem a necessidade de discursos “ecochatos” ou como fruto de pregação religiosa.

O consumo tradicional induz à busca do novo e “melhor”, diz Robert Crocker. Mas para muitos a experiência é mais importante do que a posse
O consumo tradicional induz à busca do novo e “melhor”, diz Robert Crocker. Mas para muitos a experiência é mais importante do que a posse

“O consumismo incentivou-nos ao hábito do desperdício. Mas a comida que se deita fora é como se fosse roubada aos pobres e aos famintos”, postou o papa Francisco no Twitter. Ele usa a fé para convencer seu rebanho de que comprar não é tudo de bom. E foi com uma fé similar que os Dannemiller experimentaram passar um ano sem comprar nada.

Para Scott Dannemiller, não é preciso ser religioso para atenuar­ nosso lado consumista. “Antes de embarcar numa experiência como essa, é preciso ter clara a intenção. A nossa foi buscar uma conexão com fé, amigos e família. Para outros, o objetivo pode ser apenas economizar dinheiro. Há, ainda, os que entram nessa pela causa do meio ambiente.” Independentemente da motivação, os exemplos mais encorajadores que vêm da casa dos Dannemiller têm 9 e 7 anos. Se eles conseguiram, por que não você?

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