Mesmo que queira, você não ignora a aparência ou a fala das pessoas

Estudo americano tem implicações para estereótipos raciais

Estudo mostra que aparência física ou sotaque pesam na avaliação das pessoas, mesmo que esses dados não devam ser levados em consideração numa análise. Crédito: Steven Depolo/Flickr

Suas percepções sobre alguém que você acabou de conhecer são influenciadas em parte pela aparência e por como elas soam. Mas você pode ignorar a aparência de alguém ou seu sotaque, se lhe disserem que isso não é relevante? Provavelmente não, pelo menos na maioria dos casos, revelou um estudo da Universidade Estadual de Ohio (EUA) publicado na revista “Journal of Sociolinguistics”.

Por exemplo, alguns participantes do estudo receberam uma foto de um rosto e ouviram um breve trecho de discurso ao mesmo tempo e disseram que a foto e a voz pertenciam a pessoas diferentes.

Em alguns casos, os participantes foram instruídos a avaliar quão forte era o sotaque que achavam que a pessoa mostrada na foto teria. Os participantes acharam que o indivíduo fotografado teria uma voz mais carregada se as palavras que ouviram também tivessem um sotaque mais forte – apesar de receberem a imagem e o som provenientes de duas pessoas diferentes.

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“Mesmo quando dissemos aos participantes para ignorarem a voz, eles não podiam fazer isso completamente”, disse Kathryn Campbell-Kibler, professora associada de linguística da Universidade Estadual de Ohio e autora do estudo. “Algumas das informações da voz se infiltravam na avaliação do rosto.”

Influência

O mesmo aconteceu quando os participantes foram convidados a avaliar a beleza de uma pessoa a partir de uma voz específica. Eles foram influenciados pela foto que viram, mesmo quando lhes foi dito que se tratava de uma pessoa diferente da dona da voz que ouviram.

Embora os participantes do estudo geralmente não pudessem ignorar as informações irrelevantes, houve uma exceção intrigante: os participantes temiam mostrar um estereótipo racial quando se tratava de avaliar vozes com sotaque.

O estudo incluiu 1.034 pessoas que visitaram uma exposição organizada pelo Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Ohio no Centro de Ciência e Indústria, um museu de ciências em Columbus.

Aos participantes foram mostradas fotos de 15 homens em uma tela de televisão. Conforme cada foto era mostrada, eles ouviam uma gravação de uma única palavra repetida três vezes ao longo de cinco segundos, também por um dos 15 homens. Dependendo do grupo em que estavam, os participantes tinham de avaliar o quão carregado de sotaque ou bonito o rosto ou a voz eram.

Eliminação impossível

Alguns dos indivíduos que esses participantes do estudo ouviram haviam sido classificados por pessoas em um estudo anterior como soando relativamente sem sotaque. Outras vozes eram de pessoas que aprenderam inglês em idades mais avançadas e foram classificadas como tendo mais sotaque.

Quando os participantes avaliaram o rosto e a voz combinados e não foram instruídos a ignorar nada, consideraram “boa aparência” com base principalmente no rosto e “sotaque acentuado”, na voz – conforme o esperado.

Mas algumas participantes foram instruídos a avaliar o rosto enquanto ignoravam a voz, ou a avaliar a voz enquanto ignoravam o rosto, porque ali estavam representadas duas pessoas diferentes. Nesses casos, alguns indivíduos avaliaram o rosto na dimensão “boa aparência” e outros avaliaram o rosto na dimensão “sotaque”. O mesmo aconteceu com a avaliação da voz. Nos dois casos, eles tiveram de ignorar a outra informação, a voz ou o rosto.

“Descobrimos que as pessoas poderiam exercer algum controle sobre quais informações favorecer, a voz ou o rosto, dependendo do que dissemos para fazer”, disse Campbell-Kibler. “Mas, na maioria dos casos, elas não conseguiram eliminar completamente as informações irrelevantes.”

Houve uma exceção: as pessoas foram capazes de ignorar completamente o rosto ao avaliar quão carregada de sotaque a voz era.

Risco de viés racial

Campbell-Kibler disse que o motivo parece ser que os participantes, a maioria brancos, estavam tomando cuidado para não mostrar nenhum estereótipo racial. “Alguns dos participantes nos disseram explicitamente que estavam tentando evitar respostas que poderiam ser vistas como estereotipadas”, disse ela.

Eles sabiam que a aparência de um indivíduo não tem uma conexão real com os sons que ele verbaliza, mesmo que os estereótipos raciais geralmente levem as pessoas a associar sotaques fortes a pessoas que não parecem brancas.

“Eles sentiram que é um perigo mostrar um viés racial quando se trata de avaliar sotaques. É por isso que tiveram o cuidado de excluir como era o rosto ao avaliar se a voz soava carregada de sotaque”, disse Campbell-Kibler. “Eles não tiveram esse problema ao avaliar ‘boa aparência’, porque isso é visto como subjetivo o suficiente para que você não possa estar errado”, afirmou Campbell-Kibler.

Como esse estudo usou fotografias em vez de vídeo, o áudio que as pessoas ouviram teve uma influência mais forte sobre elas do que na vida real, ressaltou a pesquisadora. Os vídeos provavelmente teriam um efeito mais forte nas avaliações das pessoas do que essas imagens estáticas. Mas a mensagem principal é a mesma: somos influenciados por todas as informações que temos disponíveis, sejam elas aplicáveis ​​ou não.

“É difícil ignorar informações socialmente relevantes que seus sentidos percebem, mesmo se dissermos que não são relevantes para a tarefa que você tem agora”, disse Campbell-Kibler.

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