Migrações e diversidade marcaram 12 mil anos de história de Roma

Análises de DNA revelaram que havia um fluxo incessante de pessoas de várias partes do mundo a uma das maiores cidades da antiguidade

Coroação de Carlos Magno na catedral de São Pedro, em pintura de Rafael: época que favoreceu o fluxo de pessoas do centro e do norte da Europa para Roma. Crédito: Wikimedia

Um estudo internacional baseado em análises de DNA revisitou a história de Roma e de regiões adjacentes da Itália nos últimos 12 mil anos. Esses dados genéticos revelam pelo menos duas grandes migrações para Roma, além de várias mudanças populacionais menores, mas significativas, nos últimos milhares de anos. O trabalho foi publicado na revista “Science”.

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A análise de DNA revelou que, à medida que o Império Romano se expandia ao redor do Mar Mediterrâneo, imigrantes do Oriente Próximo, da Europa e do Norte da África migraram para Roma, mudando significativamente a face de uma das primeiras grandes cidades do mundo antigo.

“Não esperávamos detectar uma diversidade genética tão extensa na época das origens de Roma, com indivíduos com descendentes do norte da África, do Oriente Próximo e das regiões mediterrâneas europeias”, afirmou Ron Pinhasi, da Universidade de Viena (Áustria) e um dos principais autores do artigo, ao lado de Jonathan Pritchard, da Universidade Stanford (EUA), e de Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza (Itália). Juntamente com Luca Bondioli, do Museu das Civilizações de Roma, Mauro Rubini, da Superintendência Arqueológica do Lácio, e outros antropólogos, eles conduziram a amostragem dos esqueletos examinados.

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Contato genético

Roma apresentou uma oportunidade interessante de usar as mesmas técnicas antigas de DNA que a equipe usou na última década para preencher detalhes deixados de fora dos registros históricos, disse Pritchard. “Os registros históricos e arqueológicos nos dizem muito sobre história política e contatos de diferentes tipos com lugares diferentes – comércio e escravidão, por exemplo –, mas esses registros fornecem informações limitadas sobre a composição genética da população”.

“Os dados antigos do DNA fornecem uma nova fonte de informação que está muito bem ligada à história social de indivíduos de Roma em diferentes idades”, afirmou Ron Pinhasi. Alfredo Coppa acrescentou: “Em nosso estudo, usamos a colaboração e o apoio de um grande número de arqueólogos, que nos abriram seus arquivos e nos permitiram entender melhor o que os dados genéticos estavam destacando”.

A equipe de Stanford fez uma parceria com seus colaboradores em Roma e Viena para coletar 127 amostras de DNA humano de 29 locais em Roma e arredores que datam do período entre a Idade da Pedra e os tempos medievais. Uma análise de algumas das primeiras amostras é mais ou menos compatível com o que foi encontrado na Europa – a um grupo de caçadores-coletores sobreveio um afluxo de agricultores originários da Turquia e do Irã há cerca de 8 mil anos, seguido de uma leva proveniente da estepe ucraniana em algum momento entre 5 mil e 3 mil anos atrás.

Com a fundação de Roma, tradicionalmente datada em 753 a.C., a população da cidade havia crescido em diversidade e se assemelhava aos povos modernos da Europa e do Mediterrâneo.

Estado em expansão

Mas para os autores, as partes mais interessantes ainda estavam por vir. Embora Roma tenha começado como uma cidade-estado humilde, em 800 anos havia conquistado o controle de um império que se estendia até a Grã-Bretanha, a oeste, o norte da África, ao sul, e Síria, Jordânia e Iraque, a leste.

À medida que se expandia, o Império Romano facilitou o movimento e a interação das pessoas por meio de redes comerciais, nova infraestrutura viária, campanhas militares e escravidão. Relatos contemporâneos e evidências arqueológicas sustentam estreitas conexões entre Roma e todas as outras partes do império – na verdade, a vida cotidiana de Roma dependia fortemente de bens comerciais de outras partes do império para abastecer seu enorme centro urbano.

Os pesquisadores descobriram que a genética corrobora, mas também complica o registro histórico. Houve uma mudança maciça na ascendência dos residentes romanos, mas essa ascendência veio principalmente do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Próximo, possivelmente por causa de populações mais densas em relação às regiões ocidentais do Império Romano na Europa e na África.

Os séculos seguintes foram cheios de turbulências: a mudança da capital para Constantinopla e a subsequente divisão do império, surtos de doenças que dizimaram a população de Roma e uma série de invasões, incluindo o saque visigodo de Roma em 410 d.C. Esses eventos deixaram sua marca na ascendência da cidade, que mudou do leste do Mediterrâneo para o oeste da Europa. Da mesma forma, a ascensão e o reinado do Sacro Império Romano trouxe um influxo de ascendência da Europa do centro e do norte.

Fluxo contínuo

O estudo mostra que o mundo antigo estava perpetuamente em fluxo, tanto em termos de cultura quanto de ancestralidade.

“Foi surpreendente para nós a rapidez com que a ancestralidade da população mudou, ao longo de alguns séculos, refletindo as alianças políticas em mudança de Roma ao longo do tempo”, disse Pritchard.

Outro aspecto marcante foi o quão cosmopolita era a população de Roma, começando mais de 2 mil anos atrás e continuando com a ascensão e dissolução do império. Mesmo na antiguidade, Roma era um caldeirão de diferentes culturas.

“Precisamos agora pensar em novos estudos que analisem a interação entre pessoas de diferentes classes sociais em todo o Império Romano, incluindo não apenas os movimentos de grupos específicos de diferentes regiões, mas também a mobilidade social nas duas regiões centrais e as várias províncias”, observa Ron Pinhasi. Alfredo Coppa acrescenta: “É preciso também analisar melhor as relações com os povos pré-romanos do centro-sul da Itália.”