Milho corpo e alma do México

Ninguém sabe quando os índios americanos descobriram o milho.

Filhos do milho

À esquerda, imagem de Cintéotl, deus do milho. Na mitologia dos índios mexicanos, o cereal surgiu das unhas dessa divindade. Conhecido pelo epíteto de “O Senhor Amado”, por causa do enorme valor da sua dádiva, ele é um dos principais deuses do panteão mexicano. Até hoje, no país, vários ritos estão associados a Cintéotl. Ao lado, acima, vendedora de tortilhas na Cidade do México.

Em 1954, escavando em algumas cavernas da região de Tamaulipas, no México, o cientista canadense Richard MacNeish achou grãos de Euma planta silvestre conhecida pelo nome indígena de teocintle. Em meio a restos humanos, cacos de cerâmica e carvão de fogueiras, esses grãos tinham se conservado quase intactos por milhares de anos. Essa e outras descobertas arqueológicas permitem afirmar que os indígenas mexicanos “inventaram” o milho há cerca de oito mil anos.

O termo “invenção” é pertinente. Como diz a pesquisadora mexicana Silvia Riveiro, “o milho é o sucesso agronômico mais importante da história da humanidade: de uma simples gramínea de pastagem (o teocintle), os povos indígenas da América Central criaram uma planta de enorme versatilidade, que pode ser cultivada em muitos ecossistemas diferentes e tem uma multiplicidade de usos.”

É incrível pensar que, em sua origem, a espiga de milho media apenas 2,5 centímetros. Por meio de um processo de seleção, ela foi pouco a pouco se transformando e sendo substituída até se converter no milho que conhecemos hoje. É certo que, sem a mão do homem, o milho provavelmente não existiria. Ele não pode se reproduzir sozinho devido às características de suas sementes, que são pesadas e firmemente presas à planta. Elas se dispersam com muita dificuldade por estarem recobertas por folhas particularmente duras e resistentes, sobretudo quando secas. O tamanho médio atual da espiga é de 30 centímetros. Existem mais de 200 espécies de milho, 59 das quais são endêmicas do México.

Quando os europeus chegaram ao continente americano, o milho era cultivado do leste do Canadá até as proximidades da Terra do Fogo, na América do Sul. Os marinheiros de Cristóvão Colombo o conheceram em 1492, de acordo com o relato de um deles. Esse navegante descreve a planta em seu diário como um “trigo gigante”, com um caule elegante e grãos dourados. Depois da conquista, espigas de algumas espécies foram levadas para a Espanha. Em 1494, pela primeira vez, o milho foi semeado em Sevilha. A partir daí, ele se propagou por todo o continente europeu, embora durante muitos anos tenha sido utilizado unicamente como alimento para animais.

A história do milho está intimamente relacionada com o México. Até hoje diz-se no país que “o deus do milho criou o homem para que este lhe prestasse tributo”. Como explica o historiador mexicano Guillermo Bonfil, “as grandes civilizações do passado e a própria vida de milhões de mexicanos de hoje têm como raiz e fundamento o generoso milho. Ele foi e continua sendo um eixo fundamental para a cultura e a criatividade de centenas de gerações. Exigiu o desenvolvimento e o aperfeiçoamento contínuo de inumeráveis técnicas para o seu cultivo.”

“Levou ainda ao surgimento de uma cosmogonia e de um sistema de crenças e práticas religiosas que consideram o milho uma planta sagrada, permitiu a elaboração de uma arte culinária de surpreendente riqueza, marcou o sentido do tempo e organizou o espaço em função de seus próprios ritmos e exigências e deu motivo para as mais variadas formas de expressão estética. Por tudo isso, o milho é o próprio fundamento da cultura mexicana.”

…Uma espiga de 2,5 cm

A espiga de teocintle, o milho original ainda hoje encontrado no México, possui apenas 2,5 cm de comprimento. Dele surgiram todas as outras variedades desse cereal. Ao lado, boneca artesanal feita com palha de milho.

Mas são poucos os mexicanos que param para pensar na importância do milho e na estreita relação criada entre ele, a cultura e a sociedade do país.

Essa influência está implícita em diversos mitos provenientes das culturas pré-colombianas que tratam de explicar a origem sagrada do milho.

Os povos nahuas, por exemplo, contam que um casal de deuses – ele, chamado Piltzintecuhtli; ela, Xochipilli – teve um filho, Cintéotl. Esse deus-filho penetrou na terra e se fundiu a ela para produzir diferentes vegetais úteis ao homem. Assim, dos seus cabelos surgiu o algodão; de uma orelha, a planta denominada huauhtzontli; do nariz, a sálvia; dos dedos, a batata- doce; e do resto do corpo, muitos outros frutos.

O fruto mais importante de todos, o milho, surgiu das unhas do deus. É por conta da sua principal criação que esse deus recebeu seu nome principal, Cintéotl (o deus-espiga), ao qual se juntou o epíteto de tlazopilli (o senhor amado), devido ao enorme valor da sua dádiva. Até hoje, praticam-se no México diversos rituais antigos e tradicionais associados a esse cereal.

No México moderno, o milho está presente em manifestações culturais, é inspirador de criações artísticas e artesanais e aparece constantemente na vida cotidiana dos habitantes do país. Como bem escreveu o poeta mexicano López Velarde: “Pátria: tua superfície é o milho.”

A milpa e a tortilha

A milpa é um sistema agrícola tradicional mexicano que está em perfeito equilíbrio com a natureza. Equivale à “agricultura familiar” dos brasileiros. Sua prática vem dos tempos pré-hispânicos. Nos povoados rurais, a milpa ocupa um lugar muito importante, pois entre os principais produtos que cultiva está o milho. O México, com uma população de 100 milhões de pessoas, tem o maior consumo per capita de milho do mundo. Em algumas comunidades, esse consumo chega a mais de 120 quilos por ano, provendo cerca de 70% das calorias e 50% das proteínas consumidas diariamente.

O alimento básico do mexicano continua sendo a tortilha. Calcula-se que no país são consumidos 450 milhões de tortilhas por dia. O consumo de milho diz respeito a toda a população mexicana, embora sua importância seja inversamente proporcional à das classes econômicas: para os mais desfavorecidos, a tortilha, o feijão e a pimenta são os alimentos básicos. Esses mesmos ingredientes constituem apenas uma parte da dieta do resto da população.

As mil e uma utilidades do milho

No mundo moderno, os cereais constituem a fonte de uma importante matéria-prima, natural e reciclável: o amido. Cerca de 75% da composição do milho é puro amido, glicose cada vez mais utilizada pela indústria alimentícia e várias outras. O papel, por exemplo, se beneficia do amido: ele serve para que as fibras vegetais tenham maior aderência. O amido também está presente em certas resinas para a pintura de automóveis, no sabão, nos dentifrícios, nos desodorantes, nos cremes hidratantes e nos plásticos biodegradáveis, entre outros itens.

No universo farmacêutico, a glicose proveniente do amido nutre as bactérias que produzem a penicilina – a base da maioria dos antibióticos. Como se isso não bastasse, a substância também é empregada na fabricação das cápsulas medicinais e nas finas camadas que recobrem e protegem as pílulas.

Hoje, sobretudo nos Estados Unidos, o milho é o principal ingrediente da biomassa utilizada para a produção do etanol, carburante biodegradável e muito menos poluidor do que os derivados do petróleo. Embora os custos atuais desse carburante ainda se mostrem muito elevados, o desenvolvimento de uma tecnologia mais eficiente permite apontar o milho como um dos possíveis substitutos do petróleo.

TRANSGENIA NO BRASIL

País ainda não definiu o modelo produtivo que deseja usar. A favor ou contra os produtos geneticamente modificados

Por Ibiapaba Netto

O Brasil possui uma relação dúbia no que se refere aos alimentos geneticamente modificados. De um lado, produtores lutam para que novas sementes, mais produtivas e resistentes a diversos problemas, cheguem mais rapidamente ao mercado. Do outro lado da mesa, grupos ambientalistas fazem a mesma força para barrar essas liberações. No meio da confusão está a Comissão Técnica de Biotecnologia (CTNBio), órgão responsável por aprovar ou não essas novas variedades. Enquanto isso, o consumidor segue com pouca ou nenhuma informação a respeito.

A pendenga existe por uma clara divergência ideológica entre as partes envolvidas nessa discussão. Para os cientistas, não há equívoco: os alimentos transgênicos são seguros e ponto final. Já os ambientalistas rechaçam essa afirmação, salientando que os estudos existentes ainda não comprovaram uma pretensa e anunciada segurança ambiental e alimentar. Os argumentos de ambas as partes são pesados nessa guerra de informações.

“Muitos membros da CTNBio recebem financiamento de pesquisa de empresas ligadas à trangenia”, afirma Gabriela Vuolo, ativista do Greenpeace. Mas para Alda Lerayer, secretária executiva do Conselho de Informação sobre Biotecnologia (CIB), ONG favorável à transgenia, a situação é exatamente inversa. Segundo ela, das 18 empresas que atuam no mercado de defensivos agrícolas, os agrotóxicos, apenas meia dúzia trabalham com transgenia. Isso, para a cientista, pode levantar dúvidas sobre a origem dos recursos que bancam as campanhas contra os transgênicos, assim como os seus fins.

Recentemente, a CTNBio liberou três variedades de milho geneticamente modificados, que passam a ser utilizadas pelos agricultores brasileiros. A primeira, da Bayer CropScience, ficou dez anos na fila até ser aprovada, em março deste ano. De lá para cá, mais duas variedades, uma da Monsanto e outra da Syngenta, ambas multinacionais, também receberam o aval para serem plantadas.

“O problema é que os estudos não são suficientes para provar que essas espécies não trazem risco para a saúde e para o meio ambiente”, afirma a advogada Andréa Salazar, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), que se posiciona contra os transgênicos. Com opinião diferente, no entanto, a diretora-presidente da Associação Nacional de Biotecnologia (Anbio), Leila Oda, diz que todo o material apresentado pelas organizações contrárias à transgenia não passa de “pseudociência”.

Para ela, negar a validade dos estudos existentes é questionar a seriedade da Organização Mundial de Saúde, Academia de Ciências do Vaticano e Comissão Norte-Americana de Biotecnologia. “Será que todas essas entidades são irresponsáveis e só os ambientalistas estão certos?”, questiona. A discussão não tem data para acabar e muito milho ainda vai passar por cima dessa roça.

O México diante do MILHO transgênico

Em 1998, o governo mexicano decretou uma moratória proibindo todo cultivo de milho transgênico no território nacional. Mas, no final do ano 2000, um grupo de pesquisadores da União Zapoteco Chinanteca (Uzachi) e da Universidade de Berkeley, chefiado por Ignácio Chapela, cientista mexicano da mesma universidade, lançaram um programa para detectar marcadores de transgenes no milho originário da Serra de Juarez, província de Oaxaca.

Resultado: o que deveria ser apenas um procedimento protocolar se converteu numa controvérsia nacional. A pesquisa revelou a presença de material transgênico em diversas variedades nativas. Pesquisas e análises posteriores confirmaram essa descoberta, e diante dela a comunidade científica internacional e diversos grupos de ecologistas reagiram, dando origem a um debate público sem precedentes na história da agricultura mexicana.

O milho transgênico designa variedades da planta às quais o homem agregou um ou mais genes estrangeiros. Os genes são moléculas que se encarregam da fabricação de proteínas (eles contêm de forma concentrada toda a informação de que os organismos necessitam para viver e se desenvolver).As plantas contêm em média 25 mil genes distintos.

O milho transgênico surgiu para atender um grande número de finalidades (maior produtividade, maior resistência a pragas e a inseticidas, maior durabilidade, entre outras). No entanto, uma das contrapartidas do uso indiscriminado do cereal transgênico é o risco do desaparecimento das espécies nativas e da própria agricultura familiar relacionada ao milho.

A informação fornecida ao grande público sobre tudo isso é quase sempre incompleta, errônea ou então simplesmente colocada fora de alcance. Esse tipo de prática requer ainda investimentos que apenas alguns governos e determinadas empresas de grande poder econômico são capazes de financiar, o que facilita grandemente as situações de monopólio.

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