"Minha visão idealista da religião já foi colocada em xeque"

Aos 12 anos, e por escolha própria, Michel foi morar num mosteiro budista no sul da Índia e se tornou lama.

Michel: desgosto com os monastérios, mas certeza da importância da religião em sua vida.

BUDISMO ESTÁ CADA VEZ MAIS POPULAR NO BRASIL. SEGUNDO O IBGE, SÃO 246 MIL SEGUIDORES, NÚMERO TRÊS VEZES MAIOR QUE O DE JUDEUS E DUAS VEZES MAIOR QUE O DE SEGUIDORES DO CANDOMBLÉ. A QUE ATRIBUI O INTERESSE DOS BRASILEIROS PELO BUDISMO? Mais do que uma religião, o budismo é uma filosofia de vida e uma crença sem dogmas ou proselitismo. O conceito principal é a transformação interior. No Brasil, há várias tradições vinculadas à cultura dos imigrantes chineses e japoneses. Como não existe comunidade tibetana no Brasil, quem segue essa tradição do budismo aqui é motivado por uma identificação pessoal, não por ter recebido os ensinamentos da família. A popularidade do budismo no mundo pode ser explicada pelo fato de ele nos trazer muitas respostas e uma vida mais satisfatória e feliz. Lida com nossas dificuldades, conflitos internos, e nos ajuda a chegar ao equilíbrio. Além disso, é uma religião que não quer crescer ou converter ninguém. Os ensinamentos exigem uma sinceridade verdadeira e deixam claro que não basta fazer apenas a parte cerimonial.

ALGUNS BUDISTAS MISTURAM AS PRÁTICAS DA RELIGIÃO COM AS PRÓPRIAS CRENÇAS E PEGAM CARONA NO ESOTERISMO. OS VERDADEIROS PRESSUPOSTOS DA RELIGIÃO TÊM SIDO RESPEITADOS PELOS NOVOS ADEPTOS OU HÁ DISTORÇÕES? Em todas as tradições religiosas, diferentes formas de práticas, cerimônias e simbologias são elaboradas para representar a essência do signifi- cado religioso e se manter na cultura local. O risco é se tornar apenas um ritual sem o significado profundo. Muitas pessoas que apenas seguem rituais não entendem que a transformação de sentimentos não ocorre de forma intelectual, mas natural. Ninguém se prepara para ficar com raiva, por exemplo. O sentimento vem. Não se pode lidar com as emoções apenas com o conhecimento intelectual. É necessária a meditação, que é um método mais profundo. Alguns centros budistas no Brasil mantêm a tradição de forma fiel. Outros misturam budismo, hinduísmo e religiões dos índios da América e fazem uma grande sopa. Não diria que é negativo, mas não é o que eu seguiria. Cada tradição tem sua particularidade e um caminho próprio.

MUITAS PESSOAS SE INTERESSAM PELO BUDISMO A PARTIR DOS BENEFÍCIOS DA MEDICINA ALTERNATIVA, ALIMENTAÇÃO NATURAL, IOGA E TÉCNICAS DE RESPIRAÇÃO. ACREDITA QUE ESSAS PESSOAS QUE SE INICIARAM NO BUDISMO PARA ATINGIR UM OBJETIVO ESPECÍFICO SE ENTREGAM DE FATO À RELIGIÃO COM O TEMPO? Sez o interesse se limitar às razões marginais, instrumentais, e não aos aspectos fundamentais da religião, a pessoa desistirá quando lhe for exigido um esforço maior. Mas, se houver um interesse em aprofundar o conhecimento, vai se dedicar mais à religião, talvez, com uma entrega total.

QUAL É A DIFERENÇA ENTRE O BUDISMO TIBETANO, COREANO, JAPONÊS, CHINÊS E DO SUDESTE DA ÁSIA? A base é a mesma: as Quatro Nobres Verdades. 1) O sofrimento existe. Trata-se do reconhecimento do estado pessoal no momento. Não posso sair de uma situação ruim sem reconhecê-la como negativa. 2) Causas do sofrimento. Entender, não apenas intelectualmente, o que nos faz sofrer. A razão está sempre dentro da pessoa, nunca é externa. 3) Verdade da secessão. É possível sair do ciclo de sofrimento e ser feliz, ou seja, atingir a iluminação, que consiste na eliminação completa de todos os venenos mentais e em desenvolver ao máximo nossas qualidades internas. 4) Caminho interior. Mostra como é possível eliminar o sofrimento através de métodos padronizados e por vias individuais. Os conceitos fundamentais, como carma e reencarnação, também são comuns a todas as tradições, que levam ao mesmo resultado. Há pequenas diferenças de princípios. No sudeste da Ásia, a ênfase do budismo está na liberação pessoal do sofrimento; no norte, o enfoque é no desenvolvimento do amor e da compaixão por todos os seres.

“O BUDISMO NÃO USA CELEBRIDADES PARA CONVERTER PESSOAS, PORQUE NÃO SE PODE FORÇAR ALGUÉM A FAZER UMA OPÇÃO RELIGIOSA SÓ PELA EMOÇÃO”

NOS ANOS 1990, A LINHA TIBETANA TORNOU-SE POPULAR DEPOIS QUE O DALAI LAMA GANHOU O NOBEL DA PAZ E APÓS A CONVERSÃO DE CELEBRIDADES COMO RICHARD GERE E HARRISON FORD. NA MESMA ÉPOCA, AS ATRIZES CHRISTIANE TORLONI, CLÁUDIA RAIA E LETÍCIA SPILLER SE DECLARARAM BUDISTAS. ACREDITA QUE HÁ UM MERCADO INTERNACIONAL DA FÉ BUDISTA? As pessoas com uma imagem conhecida têm grande influência na vida das demais. Acho importante que elas usem esse poder de forma positiva, não apenas para ostentar a própria imagem, ganhar mais dinheiro ou promover uma empresa. Se uma pessoa, famosa ou não, encontra respostas positivas no budismo e quer compartilhar isso com os outros, não vejo nenhum problema que utilize os meios que tem. O budismo não procura celebridades para promover a religião ou converter pessoas, porque não se pode forçar uma pessoa a fazer uma opção religiosa só pelo coração, pela emoção.

O DALAI LAMA É ASSÍDUO NOS DEBATES SOBRE QUESTÕES GLOBAIS, COMO MEIO AMBIENTE, ECONOMIA E POBREZA. HÁ UM INTERESSE DO BUDISMO DE SE FAZER PRESENTE NO ÂMBITO POLÍTICO? Por um lado sim, pelo fato de o budismo ser uma filosofia viva. Ele lida com as questões políticas que afetam a vida das pessoas. Mas acredito que a religião, como um todo, deve ficar fora da política. Uma coisa é um religioso dar seu ponto de vista; outra é a religião tomar partido politicamente. O budismo deve estar nos problemas do dia a dia, na forma como se trabalha, de como se vive com a família. Mesmo que essa ação se reflita nos problemas globais, não deve ser esse o objetivo principal da religião. Diferentemente do Vaticano, que é um Estado com um líder soberano, o budismo não é centralizado, não há uma hierarquia. O dalai lama é o líder espiritual da tradição tibetana mais conhecido internacionalmente, mas não é o papa do budismo. A postura política dele é uma decisão pessoal. O budismo não quer ter uma posição na cena internacional.

Representação dos cinco Budas Dhyani, ou da sabedoria. eles são um tema comum na vertente Vajrayana do budismo.

COMO O BUDISMO PODE AJUDAR AS PESSOAS A LIDAR COM A CRISE ECONÔMICA? A crise é um reflexo de um sistema que seguimos no nosso dia a dia – lidamos com os sintomas, não com as causas. Se a pessoa está com dor de cabeça, toma um remédio. Esquece que não dormiu o bastante ou que tem uma alimentação inadequada. Se há violência na sociedade, as pessoas investem em segurança e fazem vista grossa às desigualdades. Resolve-se o sintoma num ponto, mas rapidamente ele aparece em outro.

A crise surgiu porque o sistema econômico não é sustentável. Não se pode manter um estado de bem-estar e crescimento que depende do sofrimento de outras pessoas – 3 bilhões vivem abaixo do nível de pobreza e 2,5 bilhões são pobres. É um sistema que depende do uso ilimitado de recursos esgotáveis. O bem-estar da sociedade é erroneamente associado ao bem-estar econômico e a avaliação da economia é baseada na estabilidade de poucos países ricos. A crise é consequência do egoísmo, da ganância pelo consumo e de um ponto de referência de sucesso no acúmulo de bens e dinheiro. O colapso do sistema está só no início. A solução que está sendo colocada continua olhando apenas o sintoma, não a raiz do problema.

“O DALAI LAMA É O LÍDER ESPIRITUAL DA TRADIÇÃO TIBETANA MAIS CONHECIDO INTERNACIONALMENTE, MAS NÃO É O PAPA DO BUDISMO. A POSTURA POLÍTICA DELE É UMA DECISÃO PESSOAL”

O budismo cultivado na Ásia parte da mesma base, as quatro nobres verdades. há pequenas diferenças de princípios, mas a base é a mesma.

A VENDA DE ANTIDEPRESSIVOS EM FARMÁCIAS E DROGARIAS DO BRASIL CRESCEU 42% NOS ÚLTIMOS QUATRO ANOS. ACREDITA QUE O MEDICAMENTO SE TORNOU UMA SAÍDA FÁCIL PARA QUALQUER PROBLEMA? Uma pessoa com um diagnóstico específico, e guiada por um bom médico, pode ter benefícios no uso de antidepressivos. Mas sou contra para outros casos. A grande maioria das pessoas perdeu a verdadeira liberdade de escolher interiormente como quer lidar com as situações. Se a cada vez que surge um problema eu escapo dele, a tensão se acumula. Hoje, suprimo o problema X. Amanhã, terei o Y. É o que ocorre com quem busca refúgio nos antidepressivos e nas drogas – sente-se melhor num dia e piora no outro. Essa pessoa esquece que, quando conseguimos superar uma dificuldade, saímos mais fortes dela, há uma lição apreendida. A fuga apenas fragiliza o indivíduo e não resolve o problema. Esses fenômenos são provas da falta de educação emocional e de autoconhecimento das pessoas.

O TEMA DA ESPIRITUALIDADE DEVERIA SER TRATADO NAS ESCOLAS? A espiritualidade não é uma escolha. É uma necessidade de tratar e cuidar de nosso mundo interior e de nossas emoções. As novas gerações estão crescendo com uma educação unicamente formal, só aprendem aquilo que vão usar para trabalhar. Como os pais trabalham em tempo integral, a educação não formal, com princípios e valores, não é oferecida em casa. As crianças são reféns da educação das emissoras de tevê. Até as gerações de jovens e adultos de hoje não têm estrutura emocional para lidar com as diferentes situações da vida. A grande procura por antidepressivos prova isso. Por isso, considero fundamental levar a educação não formal às escolas. Não se trata de levar o budismo, mas uma estrutura de valor para as crianças. O que somos hoje é, em parte, o resultado da educação emocional que recebemos e dos exemplos que tivemos na infância. As crianças de hoje têm ainda menos referências, e o resultado disso virá lá na frente, ainda pior do que hoje.

DESDE OS 12 ANOS, VOCÊ VIVE UMA VIDA DE EXTREMA DISCIPLINA E ENTREGA TOTAL À RELIGIÃO. SENTE FALTA DA LIBERDADE? Tenho uma vida bastante normal por um lado, mas, por outro, é bem estranha à maioria das pessoas.

BudaVajrasattva, símbolo do aprendiz que progride na prática esotérica.

Para mim é normal porque me sinto muito natural e espontâneo. Não sinto falta de festas, de encontro com amigos, de trocar e-mails, ficar conversando. Não sou assim. O que me motiva a me relacionar com as pessoas é a importância do que vou fazer com elas. Aos 12 anos, e por escolha própria, fui morar num monastério tibetano no sul da Índia. Fiquei lá até os 24 anos. A decisão veio desde que comecei a observar as pessoas e a me perguntar o que eu queria fazer da minha vida. Até então, o plano era estudar para chegar à universidade e encontrar um trabalho prazeroso que me pagasse bem. Mas eu olhava as pessoas que tinham emprego, dinheiro e família, e elas estavam sempre reclamando. Tanto as classes sociais mais simples quanto as mais altas nunca estavam satisfeitas. Até que, por meio dos meus pais, conheci o lama budista Gangchen Rinpoche, sempre tranquilo, feliz e estável. Descobri que queria ser como ele. Foi o que me deu força para ir ao monastério e ter clareza do meu caminho.

“VER A INSTITUIÇÃO INSTRUMENTALIZADA PELA POLÍTICA, COM ESCOLHAS CONTRÁRIAS AOS PRINCÍPIOS ESPIRITUAIS DO BUDISMO, FOI DECEPCIONANTE”

JÁ QUESTIONOU A SUA VOCAÇÃO OU PENSOU EM DESISTIR? Nunca tive dúvidas sobre a minha escolha, mas confesso que enfrentei momentos que colocaram em xeque minha visão idealista da religião. Tive uma grande desilusão com os monastérios, que muitas vezes confundimos com o budismo. A instituição pode pisotear os princípios pelos quais foi criada para alcançar o próprio crescimento institucional. Uma das minhas decepções foi ver a instituição sendo instrumentalizada pela política, com escolhas que vão contra os princípios espirituais do budismo. Também me incomodava a confusão que se faz entre a cultura tibetana e a religião. Mesmo assim, agradeço os períodos de dificuldades, que me deram uma força maior para rever minha própria escolha. Jamais deixaria a religião.

Lama Michel ao lado de seu guru, o lama tibetano Gangchen Rinpoche.

COMO SE SENTE SENDO CONSIDERADO A REENCARNAÇÃO DE UM SÁBIO? Sempre fui e continuo a ser muito cético. Não gosto de mistificar as coisas. De fato, tenho grande afinidade com os ensinamentos tibetanos, e o que parece muito estranho a outras pessoas é normal para mim. Mas não me sinto superior a ninguém. Cada um tem sua própria história e vive o presente de acordo com o que foi o seu passado. O fato de ser reconhecido como a reencarnação de um grande mestre não quer dizer o quanto sou grandioso, mas quão grande é a responsabilidade que carrego. Devo retomar as qualidades do meu antecessor e dar continuidade ao trabalho espiritual começado por ele. Todos nós temos as qualidades e os defeitos de uma vida passada, mas as condições externas devem ser favoráveis ao desenvolvimento delas.

A OBRA O SEGREDO E OUTROS FILMES E LIVROS DE AUTOAJUDA POPULARIZARAM A IMPORTÂNCIA DO PENSAMENTO POSITIVO E ENFATIZARAM O PODER DA MENTE, QUE ESTÃO ENTRE OS FUNDAMENTOS BUDISTAS. ESSE TIPO DE ABORDAGEM FACILITA O ACESSO OU EMPOBRECE O ENTENDIMENTO DO BUDISMO? No Ocidente, as pessoas acreditam que o entendimento intelectual garante a transformação interior. Não é assim. É preciso assimilar para mudar. Isso não tem nada a ver com intelectualidade. Essas obras são simplistas e conduzem ao niilismo, como se tudo fosse fácil e que tudo é mente. O que existe é o caminho do meio, a percepção de que nada existe exclusivamente “para mim” ou “dentro de mim”. Há uma realidade externa interdependente de uma realidade interna. A questão é que, enquanto a ciência moderna chega às conclusões e fica nelas, o budismo mostra como aplicá-las na vida cotidiana. Não adianta entender sem alterar o modo de vida. É onde entra o processo prático, que exige uma análise demorada e o amadurecimento da pessoa que o quer compreender.

“NÃO ME SINTO SUPERIOR A NINGUÉM. CADA UM TEM SUA PRÓPRIA HISTÓRIA E VIVE O PRESENTE DE ACORDO COM O QUE FOI O SEU PASSADO”

É FAVORÁVEL À LIBERTAÇÃO DO TIBETE? Não gosto de falar sobre o Tibete pelo risco de uma interpretação unilateral e manipulada. O que sei é que a política não é conduzida de forma limpa e eu conheci as várias faces da moeda. É um jogo que exige clareza para onde se quer ir. Acredito que o budismo precisa se defender no território onde está, mas a questão é o caminho para se conquistar isso. Assim como o dalai lama, quando ouço discussões sobre a libertação do Tibete, respondo: “Caia na real.” Enquanto a China existir como país, jamais abrirá mão do território tibetano. Além disso, se o Tibete fosse independente, não significa que teria um governo correto – a província tem uma história de corrupção e feudalismo -, e se a política fosse questionada, seria confundida com a imagem religiosa do dalai lama. Considero a mistura do budismo com a política tibetana algo muito negativo. Defendo que o Estado deve ser laico. Política é uma coisa, religião é outra.

SERVIÇO

Conheça mais sobre o lama Michel no site www.centrodedharma.com.br

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