Moda justa

Em uma sociedade de consumidores cada vez mais críticos e conscientes, a indústria da moda não pode ficar de fora das mudanças sociais.

Chiara Gadaleta Klajmic pode ser considerada uma personificação do “estilo” , estilo próprio, avesso ao clichê. O não convencional é o que move a ex-modelo. Tanto que assumiu a difícil missão de introduzir a sustentabilidade na moda, um conceito aparentemente oposto à inconstância e à velocidade da indústria fashion. Mas, para a ex-modelo, a questão é criar e construir pontes em vez de se conformar com muros.

Nascida em Nápoles (Itália) há 39 anos, Chiara mudou-se com a família para São Paulo aos 4 anos. Em função da educação italiana rígida, ignorou os primeiros convites para modelar e preferiu estudar. Quando afinal se rendeu à moda, seu primeiro trabalho foi com o fotógrafo Bob Wolfenson, seguido por editoriais para a revista Vogue e por uma mudança para a Europa, em 1992, onde fez desfiles de alta-costura para as marcas Versace e Christian Lacroix. Em 1994, deixou a vida de modelo para estudar estilismo no parisiense Studio Berçot, onde, anos depois, daria aulas.

De volta ao Brasil, lançou-se na carreira de stylist, assumiu desafios e criou, em 2005, a Tarântula, marca que começou com acessórios feitos 100% a mão por ela mesma. Logo passou a produzir roupas como caftans. Hoje, após atuar como apresentadora do programa Tamanho Único, no canal por assinatura GNT, trabalha com uma loja própria no bairro dos Jardins, em São Paulo, com 20 multimarcas brasileiras e exporta para locais como a ilha de Saint-Barth (nas Antilhas Francesas), Dubai e Tóquio.

Criatividade regional: acima e ao lado, Chiara Gadaleta em oficina de moda sustentável, em Jericoacara, no Ceará, produzindo biojoias com materiais e recursos locais

No auge das vendas, Chiara foi aconselhada a produzir peças na China e na Índia, dez a 15 vezes mais baratas. A proposta soou-lhe descabida: “Foi aí que resolvi parar e disse a mim mesma que só voltaria a produzir se fosse da maneira justa e inclusiva”, explica. Aliadas a muita pesquisa, suas inquietações deram forma ao Instituto Ser Sustentável com Estilo, lançado em janeiro, no Rio de Janeiro.

A missão do instituto é produzir moda baseada nos pilares do comércio justo, da sustentabilidade e do diferencial de criatividade do Brasil, país rico em capital natural e humano. Tais valores se manifestam nos produtos, nas roupas e em ações como a realização de palestras, workshops e capacitações. O portal www.sersustentavelcomestilo.com.br oferece notícias sobre moda e sustentabilidade, além de colunas de colaboradores especialistas. Nesta entrevista, Chiara fala da aproximação e da distância entre os dois universos que lhe são tão caros: moda e sustentabilidade.

O Instituto Ser Sustentável com Estilo propõe uma “nova maneira de ver e pensar a moda”. O que caracteriza a maneira antiga e a nova?

Para mim, a maneira convencional é aquela que pensa e vê a moda simplesmente como uma indústria que produz roupas, gera lucros e não tem o hábito de preocupar-se com suas relações sociais e com os trabalhadores. Já a “nova era da moda” é aquela que está muito preocupada com a maneira como a roupa chega aos guarda-roupas, como foi confeccionada, de que forma, com qual material, onde e por quê. É uma maneira mais consciente e conectada com a sociedade atual.

 

Mas é viável manter uma marca de moda bem-sucedida assumindo a preocupação com os pilares da sustentabilidade (econômico, social e ambiental)? Acredito que uma marca que está no mercado há alguns anos precisa adequar- se. É preciso um planejamento para a mudança de hábitos da empresa. A Gucci, por exemplo, anunciou que em dez anos todo o seu material de merchandising, displays, sacolas e manequins será feito de materiais reciclados e recicláveis. Esse exemplo mostra como nada acontece de um dia para o outro. Já marcas mais novas ou menores têm mais mobilidade para transformações. As marcas que já nascem sintonizadas com “a nova era da moda” têm a sintonia e a vantagem de ter a sustentabilidade como princípio, e não como valor.

Ainda que o termo “sustentabilidade” esteja se tornando um clichê cada vez mais maleável, ele sugere despojamento e simplicidade. Como associar sustentabilidade a estilo? Como tornar a sustentabilidade um tema interessante e sexy?

O caminho é promover ações, movimentos, coletivas, conversas, etc., nos quais a beleza, o estilo e a qualidade sejam os atrativos. O nosso Instituto Ser Sustentável acredita que qualquer produto de moda sustentável precisa ser tão benfeito ou mais que qualquer outra peça de moda convencional. Só com criatividade e inovação vamos quebrar os paradigmas.

A indústria da moda baseia-se na criação de desejos efêmeros e em alto consumo. Ideias como reciclagem e consumo consciente têm espaço nesse setor de negócios frenético e supérfluo? Precisam ter. As empresas começam a perceber que, se não passarem a se comunicar com seus consumidores de outra forma, vão perder clientes. Exemplos são a rede internacional de fast fashion H&M, que já tem uma coleção feita com materiais orgânicos, e a Speedo, que enviou seu estoque de décadas atrás para um coletivo de estilistas ingleses que trabalham com o conceito de customização desde os anos 1990. São maneiras criativas de usar o descarte e prolongar a vida útil das peças.

Uma das preocupações do Instituto é a valorização da cadeia produtiva da moda, na qual há muitas denúncias de irregularidades. Em 2009, o Greenpeace lançou um relatório acusando as cadeias texteis da Gucci de estarem envolvidas no desmatamento da Amazônia. Como combater de fato esse tipo de problema? Acredito que organizações como o Greenpeace têm a função de denunciar. Imagine quantas empresas não estão envolvidas no desmatamento? A cada denúncia, o mundo dos negócios é obrigado a reagir. O trabalho do Greenpeace é de extrema importância nesse sentido. Nós não somos ativistas ambientais, e sim profissionais da economia criativa. Buscamos soluções para que a moda possa impactar, cada vez menos, o meio ambiente e a sociedade. Na comunicação da sustentabilidade, cada um tem um papel. O nosso é criar e levar beleza para o desenvolvimento sustentável. Assim poderemos chegar mais perto de todos.

O que o consumidor pode fazer para se tornar uma pessoa sustentável com estilo?

O primeiro passo é questionar e tornar-se um consumidor ativo e responsável pelo ato de compra. Olhar as etiquetas das peças e procurar saber como elas são feitas. Conhecer quem faz e onde. Pesquisar a marca que estamos consumindo é o primeiro passo para uma mudança de hábitos de consumo.

Qual é sua visão para o futuro do instituto? Como toda organização não governamental, nosso sonho é deixar de existir. Quando a moda e a beleza forem entendidas também como maneira de educação, de inclusão e de geração de renda para a comunidade, além da conscientização quanto às questões ambientais, nossa missão terá sido alcançada. Enquanto isso, vamos continuar trabalhando com pequenas ações que geram grandes resultados.

 

Chiara Gadaleta Para a ex-modelo e estilista, moda e sustentabilidade são dois universos que devem se reconciliar.

 

 

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