Morte no ar

A poluição atmosférica matou cerca de 7 milhões de pessoas em 2012, afirma a Organização Mundial da Saúde. Só na China, 4 mil indivíduos morrem diariamente por esse motivo, aponta um estudo americano. No Brasil também há regiões com um poder letal similar

O ar que possibilita a vida é o mesmo que vem matando muita gente ao redor do planeta. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que, em 2012, cerca de 7 milhões de pessoas morreram no mundo em consequência da exposição à poluição atmosférica. Isso equivalente a 12,5% das mortes no perío­do e 5 milhões a mais de mortes do que as provocadas pelo cigarro. Segundo a OMS, esses números representam mais do que o dobro das estimativas anteriores e reforçam a ideia de que a poluição do ar constitui hoje o maior risco ambiental à saúde. Reduzi-la, portanto, não é apenas uma ajuda para conter o aquecimento global: vai contribuir decisivamente para salvar milhões de vidas.

O drama dos efeitos da poluição atmosférica é facilmente perceptível e quantificável na China, grande líder mundial quando o assunto é ar sujo, graças sobretudo a velhas usinas movidas a carvão. Ano após ano, especialmente no inverno, cidades inteiras atingidas pelo smog (a mistura de nevoeiro e poluição) praticamente somem nas fotos. Na Olimpíada de 2008, em Pequim, os governantes chineses tiveram de recorrer a medidas radicais, como circulação restrita de veículos e paralisação das atividades em fábricas poluidoras, para tentar garantir um ar respirável aos esportistas e visitantes.

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Cena de rua em Pequim: a capital chinesa tomou medidas radicais antipoluição para a Olimpíada de 2008

Um caso bem emblemático da atual situação chinesa é o de Li Guixin, que mora e trabalha em Shijazhuang, no norte do país, cerca de 260 km a sudoeste da capital, Pequim. Emprego nunca foi problema para ele e os mais de 10 milhões de pessoas que vivem ali. Capital da província de Hebei, o município abriga um parque industrial gigantesco, com empresas que produzem sobretudo substâncias químicas, tecidos, aço, máquinas e equipamentos eletrônicos.

Com suas chaminés, elas ajudam a compor um coquetel poluente que asfixia a população do país. A qualidade do ar é ruim o ano todo, mas piora consideravelmente no inverno, quando muito carvão é queimado no esforço para manter aquecidos mais de 1,3 bilhão de almas chinesas. Como a maioria de seus vizinhos, Li só sai de casa com o rosto parcialmente coberto por uma máscara. Quando chega do trabalho, sua primeira providência é ligar o purificador de ar. Por conta do risco de exercitar-se na rua, comprou uma esteira.

Tosse insistente

Com a fartura de dinheiro e postos de trabalho, os moradores de Shijazhuang pareciam conviver bem com a dificuldade de ver o azul do céu. Mas Li perdeu a paciência e processou o governo. Em ação que corre na Justiça desde fevereiro de 2014, ele pede que o poder público cumpra a lei de despoluir o país, distribua máscaras e pague uma indenização simbólica de cerca de R$ 5.500. Mesmo que vença a causa, terá pouco a comemorar. Uma forte e insistente tosse já pontua há anos a sua fala, e ele corre o risco de engrossar uma estatística alarmante: 4 mil de seus compatriotas morrem diariamente em decorrência de males causados pela poluição do ar, mostra o mais recente estudo sobre o assunto.

Fundado em 2010, o Berkeley Earth é uma instituição sem fins lucrativos que junta os maiores especialistas em clima da universidade homônima, na Califórnia. Um deles é Robert Rhode, Ph.D. em física teórica e especialista em extrair verdades ocultas por trás das estatísticas. Entre 5 de abril e 5 de agosto de 2014, ele se debruçou sobre os dados fornecidos a cada hora por 945 estações medidoras de poluição do governo chinês, mais 640 das províncias e 236 em países vizinhos. Passou os números por uma rigorosa peneira de qualidade, que deixou de fora cerca de 8% deles. Por fim, aplicou sobre o levantamento a metodologia da OMS que associa a (falta de) qualidade do ar com mortes decorrentes, principalmente, de problemas pulmonares, cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.

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Com margem de confiabilidade de cerca de 95%, o cientista crava que a poluição atmosférica vai matar 1,6 milhão de chineses neste e nos próximos anos. Ou seja, responderá por 17% de todas as mortes na China. Para comparar, no segundo país­ mais poluidor do mundo, os EUA, morrem entre 63 mil e 88 mil pessoas afetadas pela poluição por ano. Rhode e sua equipe não tiveram nenhuma espécie de ajuda de Pequim para fazer o levantamento. Tampouco encontraram barreiras. “Tivemos que descarregar e arquivar os dados, mas não diria que foi difícil. Eles são coletados e disponibilizados pelo próprio governo chinês e podem ser vistos por qualquer um”, disse o pesquisador a PLANETA.

Na China, atividades corriqueiras como checar as atividades dos amigos nas redes sociais exigem dribles mirabolantes no controle que o Estado exerce sobre a internet. Por outro lado, quando o assunto são os dados sobre poluição, o governo é mais liberal que muita democracia por aí. E possui tecnologia para levantar os números com precisão invejável. Nesse campo, só encontra pares à altura entre os eternos rivais japoneses, os países do norte da Europa e parte dos EUA. Segundo Rhode, “sem isso, não dá para precisar os impactos na saúde”.

Letalidade brasileira

Quando o assunto é poluição no Brasil, São Paulo tem uma fama que os números não corroboram. Segundo o mais recente levantamento da OMS, publicado em 2014, a capital paulista fica atrás de Rio de Janeiro, Belo Horizonte e até de Limeira, no interior paulista, na lista das cidades com o pior ar do país. Ao longo dos anos, a metrópole substituiu seu caráter fabril pelo comercial e acabou assistindo a uma debandada das indústrias mais, digamos, sujas. Hoje, o maior vilão atmosférico paulistano são as pequenas chaminés nos escapamentos dos carros. Não é suficiente para matar com a eficácia chinesa, mas tem sua dose de letalidade.

Estudos mostram que o ar de São Paulo dobra as chances de infarto, aumenta em 30% o risco de câncer no pulmão e amplia em 25% a chance de ocorrência de abortos. Esses percentuais são estimados. Ainda não temos um levantamento tão preciso quanto o feito com os chineses. E é o caso de perguntar se é prioritário fazer pesquisas do tipo nas grandes cidades brasileiras. O sistema de monitoramento da poluição do ar em São Paulo fica a cargo da Cetesb, a companhia ambiental do Estado.

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Smog em Xangai: nem a proximidade do mar alivia a situação da cidade

O acompanhamento é feito por meio de 57 estações automáticas, das quais 28 ficam na região metropolitana e 29 estão espalhadas por interior e litoral. Há, ainda, 30 equipamentos móveis à disposição do órgão. “De 2011 para cá, aumentamos em 30% o número de estações automáticas. Temos uma boa cobertura, e priorizamos as regiões com mais fontes de poluição”, diz Maria Helena Martins, gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb. É suficiente para monitorar áreas problemáticas? Certamente que sim. Dá para produzir os dados necessários para um levantamento detalhado como o americano? Nem em sonho. Por esse motivo, vale a pena focar em áreas mais preocupantes.

Uma delas fica no bairro de Capuava, na divisa entre os municípios de Santo André, Mauá e São Paulo. Ali, em 1972 e com a presença do então presidente Emílio Garrastazu Médici, foi inaugurada a Petroquímica União. Várias outras empresas químicas passaram a orbitar em torno dela, numa época em que a preocupação ambiental no Brasil ainda engatinhava. A população local adorou a possibilidade de ter emprego bom perto de casa, mesmo pagando o preço de ver seus telhados amanhecerem cobertos por um pó branco, como numa versão macabra dos cartões de Natal. O problema é que o preço não para por aí.

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Vizinhança perigosa

Médica, pesquisadora e professora de endocrinologia da Faculdade de Medicina do ABC, Maria Ângela Zaccarelli Marino ficou intrigada com os sintomas de alguns pacientes que entravam em seu consultório em meados dos anos 1980. Fadiga, taquicardia e irritação nos olhos eram comuns entre eles. As fichas mostravam que, além de companheiros de infortúnio, os pacientes eram vizinhos do polo petroquímico. A doutora tirou o seu avental, vestiu o jaleco de pesquisadora e foi a campo investigar.

Entre 1989 e 2004, ela acompanhou 6.306 pacientes, divididos em dois grupos. Na região próxima à petroquímica viviam os 3.356 pacientes do grupo 1. O grupo 2 foi formado por 2.950 pessoas de uma região afastada. Entre os vizinhos do polo, a incidência de tiroidite crônica autoimune – uma doença descoberta pelo estudo – aumentou 57,6% entre 1992 e 2001. Ao final do levantamento, 905 pacientes do grupo 1 apresentavam essa doença.

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Fábrica no polo petroquímico de Capuava (SP): a área é um manancial de doenças

Maria Ângela não deu o trabalho por encerrado. Continua frequentando a região para coletar dados. “Quando volto para casa, meu marido me pergunta se eu apanhei, tamanho é o lacrimejamento nos meus olhos”, diz a médica. Agora ela não vai sozinha. O grupo de pesquisadores conta também com otorrinolaringologista, dermatologista, oftalmologista e pneumologista. Além disso, estatísticos e técnicos da Universidade de São Paulo (USP) integram a força-tarefa. Os primeiros resultados serão divulgados até o fim deste ano, mas devem ficar bem distantes dos chineses.

Se há um lugar no Brasil que poderia provocar um número elevado de mortes, ele está bem longe das metrópoles. Segundo o Inventário Brasileiro de Emissões de Carbono, 74% dos vapores nocivos vêm das queimadas na Amazônia. Se morasse mais gente ali, a contabilidade mórbida atingiria níveis alarmantes. Somados, os municípios de Alta Floresta e Tangará da Serra, no norte de Mato Grosso, não chegam a 150 mil habitantes.

A população pequena não os impede de ser recordistas nacionais em internação e mortes de menores de 5 anos em decorrência de doenças pulmonares, revela um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Durante a época das queimadas, a população desse canto do Brasil está exposta a um índice de poluição 17 vezes maior do que o limite civilizado. “Infelizmente, a questão econômica prevalece sobre a saúde dessas pessoas”, resume a pesquisadora Karla Longo, do Centro de Previsão do Tempo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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