Mudança do clima tira mais de 20 milhões de pessoas de seus lares por ano

Mais pobres são os que menos contribuem para a poluição, mas os que mais sofrem com as alterações

Vista aérea de Port Arthur, no Texas, após a passagem do furacão Harvey, em 2017: esse tipo de desastre em países ricos não obriga tanta gente a deixar suas casas. Já em países pobres, o cenário é bem diferente. Crédito: SC National Guard/Wikimedia

Os desastres climáticos tornaram-se a principal causa da deslocamento de pessoas em todo o mundo na última década e forçaram mais de 20 milhões por ano a deixarem as suas casas, alertou hoje a organização não governamental internacional Oxfam.

A organização apresentou hoje (2 de dezembro) o relatório “Obrigados a deixar as suas casas”, coincidindo com o dia em que começa, em Madri, a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP25), que se prolongará até o dia 13 e abordará temas como o apoio financeiro às comunidades afetadas pelos desastres naturais, inclusive aos deslocados afetados pela crise climática.

O documento da Oxfam adverte que atualmente é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos, e até sete vezes mais do que por terremotos ou erupções vulcânicas”.[

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Segundo a ONG, que analisou dados de 2008 a 2018, a Espanha é o terceiro país da Europa, depois da República Checa e da Grécia, com maior risco de ter sua população forçada a deslocar-se por desastres provocados pelo clima.

Em particular, a Oxfam destacou no relatório que os mais vulneráveis são os cidadãos dos países pobres, que, apesar de serem “os que menos contribuíram para a poluição causada pelo CO2, são os que estão em maior risco”.

Impacto desigual

De acordo com a organização, o impacto da crise climática no mundo é desigual e a população dos países de rendimento médio-baixo e baixo, como Índia, Nigéria e Bolívia, tem quatro vezes mais probabilidades de ser forçada a deslocar-se como resultado de desastres naturais do que a que vive em países ricos, como os Estados Unidos.

Além disso, sete dos dez países com maior risco de movimentos internos de populações resultantes de fenômenos meteorológicos extremos são pequenos estados insulares em desenvolvimento.

Entre 2008 e 2018, em média, cerca de 5% da população de Cuba, República Dominicana e Tuvalu foi obrigada a deslocar-se, por ano, devido às condições climáticas extremas. “O equivalente a quase metade da população de Madri”, destacou a Oxfam, acrescentando que as emissões per capita destas áreas são “um terço das emissões de países de rendimento elevado”.

O diretor executivo interino da Oxfam International, José María Vera, disse que são as “pessoas mais pobres, dos países mais pobres, que pagam o preço mais alto”.

Na conferência sobre o clima, espera-se que a ONU conclua a primeira revisão do Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos, e ainda que os países em desenvolvimento “impulsionem a criação de um novo fundo para ajudar as comunidades a recuperar-se e a reconstruir os seus bens após as emergências climáticas. Os governos podem e devem tornar a Conferência de Madri importante. Devem comprometer-se a reduzir as emissões mais rapidamente e com mais força e a criar um novo fundo para perdas e danos que ajudará as comunidades pobres a recuperar-se das consequências dos desastres climáticos”, concluiu José María Vera.

 

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