Muro de Berlim: história, fatos e curiosidades

Há 30 anos caía um dos mais vergonhosos exemplos da capacidade humana de impor divisões descabidas entre seus indivíduos

Vista do Muro de Berlim na área da Bernauer Strasse em 1973. Crédito: Karl-Ludwig Lange/Wikimedia

Este 9 de novembro marca o 30º aniversário da derrocada de um dos mais infames muros da história: o que separou Berlim, antiga e atual capital da Alemanha, em duas partes, durante a Guerra Fria entre o Ocidente e o bloco soviético. O Muro de Berlim, que funcionou entre 1961 e 1989, foi um dos maiores símbolos da divisão ideológica entre capitalismo e comunismo, e sua queda foi também o prenúncio do fim do regime da União Soviética, no ano seguinte. Confira aqui 30 fatos sobre esse monumento à divisão humana.

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O muro poderia ter sido construído em 1953, a depender da vontade dos governantes da Alemanha Oriental. Entre 1949 (ano de criação da Alemanha Oriental) e 1961, mais de 2,7 milhões de alemães orientais, a maioria trabalhadores e profissionais qualificados, escaparam para o Ocidente. Cidadãos estrangeiros, alemães ocidentais, berlinenses ocidentais e militares aliados podiam entrar em Berlim Oriental, mas os berlinenses orientais precisavam de um passe especial para sair.

Quando as deserções para Berlim Ocidental atingiram o número de 1.000 pessoas por ano, o líder soviético, Nikita Kruschev, resolveu autorizar o pedido dos governantes da Alemanha Oriental.

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Ainda em 1956, os governantes da Alemanha Oriental restringiram legalmente quase que a totalidade das viagens de seus cidadãos ao Ocidente. Mikhail Pervukhin, embaixador soviético na Alemanha Oriental, disse na ocasião que “a presença em Berlim de uma fronteira aberta e essencialmente descontrolada entre os mundos socialista e capitalista, sem querer, leva a população a fazer uma comparação entre as duas partes da cidade, o que, infelizmente, nem sempre é favorável à Berlim democrática [oriental]”.

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Um obstáculo importante para não se interromper antes o trânsito entre a Alemanha Oriental e Berlim Ocidental foi o fato de que essa medida bloquearia grande parte do tráfego ferroviário na Alemanha Oriental. A construção de uma nova ferrovia contornando Berlim Ocidental, o anel externo de Berlim, foi iniciada em 1951 e concluída dez anos depois. Isso já viabilizava o fechamento da fronteira.

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Com as crescentes dificuldades impostas pelos governantes para impedir os alemães orientais de sair do país, Berlim se tornou a principal rota rumo ao Ocidente. Para impedir seus planos, o Muro de Berlim foi construído de 12 (sábado) para 13 (domingo) de agosto de 1961. Na manhã do dia 13, os berlinenses descobriram que cercas de arame farpado separavam a fronteira entre as seções leste (sob domínio alemão oriental e, portanto, soviético) e oeste (sob domínio americano, inglês e francês) da cidade. Dias depois, começou a ser erguida uma barreira de concreto fortificado, vigiada por guardas de fronteira da Alemanha Oriental armados. A barreira só começou a ser desfeita em 9 de novembro de 1989.

Construção do Muro de Berlim, 1961. Crédito: National Archives/Wikimedia

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O muro entre Berlim Oriental e Ocidental tinha cerca de 3,5 metros de altura, 1,2 metro de largura e 43,7 quilômetros de comprimento. Cada um de seus segmentos pesava 2,75 toneladas. Havia duas paredes de concreto, entre as quais uma “faixa da morte”, de até 160 metros de largura, continha 302 torres de vigia, quilômetros de trincheiras antiveículos, cães de guarda, holofotes e metralhadoras, além de 55 mil minas terrestres. Para evitar tentativas de escalar as paredes ou cavar por baixo delas, os construtores reforçaram a obra com arame farpado, espigões, grades de metal e veículos transformados em obstáculos.

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A “faixa da morte”, ou “terra de ninguém”, foi criada destruindo-se as casas contidas entre as cercas, cujos habitantes foram realocados. Os guardas nas torres de vigia podiam atirar em qualquer um que tentasse escapar.

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No total, o comprimento total do muro em torno de Berlim Ocidental era de 156,4 quilômetros. A cidade, vale lembrar, estava incrustada em território da Alemanha Oriental.

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Havia oito postos de controle que possibilitavam a passagem entre os dois lados do muro. O mais famoso deles era o Checkpoint Charlie, um ponto de verificação que separava a zona de Berlim Ocidental controlada pelos americanos da Berlim Oriental controlada pelos soviéticos. A casa de guarda do Checkpoint Charlie foi removida em outubro de 1990 e agora está no Museu Aliado, em Berlim-Zehlendorf. O último remanescente do Checkpoint Charlie, uma torre de vigia da Alemanha Oriental, foi demolido em 2000.

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O Muro de Berlim fazia parte de uma fronteira muito maior. A fronteira interna da Alemanha tinha 1.400 quilômetros de extensão, atravessando 24 quilômetros de cursos d’água. A Alemanha Oriental instalou nessa divisa mais de um milhão de minas terrestres e empregou ali cerca de 3.000 cães de ataque.

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Em junho de 1961, Kruschev avisou ao presidente americano, John Kennedy, que bloquearia Berlim Ocidental se as forças ocidentais não fossem removidas de lá, um ato beligerante que poderia levar à guerra. Quando Kennedy ouviu a notícia de que os comunistas haviam construído o muro, confidenciou a um assessor: “Não é uma solução muito agradável, mas um muro é muito melhor do que uma guerra. Este é o fim da crise de Berlim. O outro lado entrou em pânico – não nós. Não vamos fazer nada agora, porque não há alternativa, exceto a guerra.”

Cada segmento do muro pesava quase 3 toneladas. Crédito: Wikimedia

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Pelo menos 140 pessoas morreram nas proximidades do Muro de Berlim, por tiros, acidentes fatais enquanto tentavam escapar ou por suicídio. A primeira vítima foi Ida Siekmann, que morreu em 22 de agosto de 1961, depois de tentar pular para uma rua de Berlim Ocidental abaixo da janela de seu apartamento, no quarto andar de um prédio de Berlim Oriental. A última morte ocorreu em março de 1989, quando o engenheiro elétrico alemão oriental Winfield Freudenberg, que tentava sobrevoar o muro em um balão de ar quente, colidiu com as linhas de energia.

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O número de pessoas que passaram por cima ou por baixo do Muro de Berlim com sucesso, porém, foi bem maior: mais de 5 mil. O primeiro desertor a escapar foi o cabo Conrad Schumann, guarda da fronteira da Alemanha Oriental de 19 anos, imortalizado em filme ao saltar sobre um rolo de arame farpado de um metro e meio de altura, apenas dois dias depois de a Alemanha Oriental fechar o fronteira.

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Com o tempo, o Muro de Berlim foi ganhando recursos mais sofisticados, e com isso os planos de fuga ganharam em complexidade. Os fugitivos se escondiam em compartimentos secretos de carros dirigidos por visitantes berlinenses ocidentais, cavavam túneis secretos e rastejavam pelos esgotos. Os três irmãos Bethke fizeram as fugas mais espetaculares. O irmão mais velho, Ingo, escapou flutuando em um colchão inflável para o outro lado do rio Elba, em 1975. Oito anos depois, Holger sobrevoou as paredes com um cabo de aço que disparou com arco e flecha para um telhado em Berlim Ocidental. Em 1989, os dois usaram um avião ultraleve para voltar e pegar o irmão mais novo, Egbert.

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Entre 1961 e 1989, 574 soldados da Alemanha Oriental fugiram para Berlim Ocidental.

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No mesmo período, cerca de 100 mil pessoas fugiram do restante da Alemanha Oriental para o Ocidente.

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Foram registradas 37 tentativas de dinamitar o muro.

Uma das torres de vigia do Muro de Berlim, em foto de 1990. Crédito: Ralf Roletschek/Wikimedia

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A explicação da Alemanha Oriental para a construção do Muro de Berlim foi um bom exercício de desinformação. Chamando a construção de “Baluarte Antifascista”, o governo local declarou que erigiu o muro para impedir a entrada de fascistas, espiões e ideias ocidentais. Duas semanas depois de encomendar a construção do “Antifaschistischer Schutzwall”, o então líder da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht, disse: “Selamos as rachaduras no tecido de nossa casa e fechamos os buracos pelos quais os piores inimigos do povo alemão poderiam se infiltrar”.

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O lado do muro voltado para o setor ocidental foi coberto por grafites. O lado oriental ficou intacto.

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Os berlinenses ocidentais usavam o Muro de Berlim como uma maneira ideal de se livrar do lixo. Se eles tinham algo que precisava ser jogado fora, jogavam-no por cima do muro.

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A construção do muro representou um imenso problema para o transporte público em Berlim. Algumas linhas U e S-Bahn (trens metropolitanos que englobam a rede de metrô berlinense) caíram inteiramente em uma metade da cidade ou na outra; outras linhas foram divididas entre as duas jurisdições, com trens partindo apenas para a fronteira e depois voltando. Linhas que percorriam a maior parte de Berlim Ocidental, mas cruzavam um pequeno trecho do bairro de Mitte (o centro histórico da cidade), território de Berlim Oriental, continuaram abertas aos berlinenses ocidentais; no entanto, os trens não paravam na maioria das estações localizadas dentro de Berlim Oriental.

O presidente americano John Kennedy vê Berlim Oriental a partir de uma plataforma elevada no Checkpoint Charlie, ao lado de autoridades da Alemanha Ocidental e americanas, em 1963. Crédito: Museu Presidencial John F. Kennedy/Wikimedia

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As estações de metrô esvaziadas ganharam o nome Geisterbahnhof (estações fantasmas). Eram mal iluminadas e fortemente vigiadas. Nos mapas de metrô de Berlim Ocidental do período do muro, elas figuravam como “estações em que os trens não param”. Os mapas do metrô de Berlim Oriental não mostravam as linhas de Berlim Ocidental nem as estações fantasmas.

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No total, o Muro de Berlim provocou interrupções em 193 ruas e 12 linhas U e S-Bahn.

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O Muro de Berlim foi inspiração para diversas manifestações artísticas. Na literatura, por exemplo, ele está presente em O Espião que Saiu do Frio, de John Le Carré (transformado em filme de sucesso estrelado por Richard Burton e dirigido por Martin Ritt), e Jogo de Berlim, de Len Deighton. No cinema, Funeral em Berlim, com Michael Caine e direção de Guy Hamilton, e Ponte de Espiões, com Tom Hanks e direção de Steven Spielberg. A canção “Heroes”, de David Bowie, foi inspirada em um casal se beijando no muro. “Holidays in the Sun”, do grupo Sex Pistols, também tem o muro como personagem. Em 1982, o artista da Alemanha Ocidental Elsner criou cerca de 500 obras de arte ao longo da antiga faixa divisória em torno de Berlim Ocidental como parte de sua série de trabalho “Lesões na fronteira”.

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Um engano precipitou a queda do Muro de Berlim. Em uma entrevista coletiva na noite de 9 de novembro de 1989, um membro do politburo da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, anunciou prematuramente que as restrições aos vistos de viagem seriam levantadas. Quando perguntado sobre quando a nova política começaria, ele respondeu: “Imediatamente, sem demora”. Na verdade, a política seria anunciada no dia seguinte e ainda exigiria que os alemães orientais passassem por um longo processo de solicitação de visto.

As respostas confusas de Schabowski e os relatos errôneos da mídia de que a passagem da fronteira havia sido aberta levaram milhares de berlinenses orientais ao Muro de Berlim. No posto de controle da Rua Bornholmer, o chefe de serviço, Harald Jäger, enfrentou uma multidão cujo tamanho e frustração não paravam de crescer. Ao consultar seus superiores sobre o que fazer, Jäger não ouvia instruções, mas xingamentos. Aguardando os resultados de seus testes de diagnóstico de câncer no dia seguinte, ele, abalado, abriu a passagem por conta própria, e os outros postos logo o seguiram.

Alemães ocidentais e orientais sobre parte do muro diante do Portão de Brandemburgo, em 10 de novembro de 1989. Crédito: Wikimedia

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Três grandes concertos realizados em Berlim nos anos 1980 haviam mobilizado as pessoas em relação ao muro. Em 1987, David Bowie apresentou-se em Berlim Ocidental, perto do muro, num show acompanhado por milhares de alemães orientais. Em 1988, Bruce Springsteen fez um concerto em Berlim Oriental, no qual declarou que tinha ido até lá para “tocar rock’n’roll na esperança de que um dia todas as barreiras sejam derrubadas”. No último dia de 1989, o cantor e ator David Hasselhoff foi o principal destaque do concerto Freedom Tour Live, que reuniu mais de meio milhão de pessoas dos dois lados do muro.

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A demolição oficial do Muro de Berlim começou em 13 de junho de 1990. Mais de 40 mil seções de paredes foram recicladas em materiais de construção usados ​​em projetos de reconstrução alemães. Algumas centenas de segmentos foram a leilão.

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Muitas pessoas arrancaram lascas e pedaços do muro. Elas ficaram conhecidas como “Mauerspechte” – algo como “pica-muros”, um trocadilho com o nome do pássaro pica-pau.

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Os segmentos do muro leiloados estão agora espalhados pelo mundo. Um deles, por exemplo, está nos jardins do Vaticano; outro, no Santuário de Fátima, em Portugal; um terceiro, no banheiro masculino de um cassino de Las Vegas, onde os mictórios são montados em um segmento da parede coberto de grafite protegido por vidro.

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Todos os controles de fronteira entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental terminaram em 1º de julho de 1990. A Alemanha reunificada foi reconhecida como um país novamente a partir de 3 de outubro de 1990.

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Um membro do conselho de Berlim anunciou em 14 de agosto de 2018 que uma seção do muro anteriormente desconhecida foi descoberta recentemente em uma seção residencial da cidade. A parede estava coberta por arbustos cobertos de vegetação, e foi assim que permaneceu escondida por tanto tempo.

Fontes: CNN, History, Wikipedia