Nasa descobre vestígios de lagos na superfície de Marte

Rover Curiosity registra evidências da existência de lagos salgados na Cratera Gale há bilhões de anos

Foto que cobre 90 cm de comprimento da esquerda para a direita mostra rede de rachaduras em solo marciano que pode ter se formado a partir da secagem de uma camada de lama há mais de 3 bilhões de anos. Crédito: Nasa/ JPL-Caltech/MSSS

O rover Curiosity, da Nasa, encontrou sedimentos ricos em sal na Cratera Gale, em Marte, que explora há sete anos. A descoberta indica que a área já teve lagos salgados, os quais passaram por sucessivos ciclos de transbordamento e secagem em virtude de mudanças climáticas. A novidade, apresentada ontem em artigo na revista “Nature Geoscience”, reforça as observações de satélite que indicam que Marte se tornou substancialmente mais seco após a formação da Cratera Gale, cerca de 3,5 bilhões de anos atrás.

A Cratera Gale é o remanescente de um enorme impacto na superfície marciana. Os sedimentos transportados pela água e pelo vento acabaram preenchendo o chão da cratera, camada por camada. Depois que o sedimento endureceu, o vento esculpiu a rocha em camadas no imponente Monte Sharp, no centro da cratera, que o Curiosity está escalando. Cada uma das camadas expostas nas encostas das montanhas revela uma era diferente da história marciana e contém pistas sobre o ambiente predominante na época.

“Fomos à Cratera Gale porque ela preserva esse registro único de Marte em mudança”, disse William Rapin, cientista planetário do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e principal autor do artigo. “Entender quando e como o clima do planeta começou a evoluir é uma peça de outro quebra-cabeça: quando e por quanto tempo Marte foi capaz de suportar a vida microbiana na superfície?”

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Datação incerta

Desde sua chegada ao Planeta Vermelho, em 2012, o Curiosity tem subido lentamente as encostas mais baixas do Monte Sharp. À medida que sobe, o rover tem observado sedimentos cada vez mais recentes. Até agora, o veículo espacial subiu várias centenas de metros ao longo de 21 quilômetros de viagem, mas ainda não se sabe quantos anos de estratigrafia isso significa.

“Estamos lutando um pouco com isso, porque as técnicas detalhadas de datação por rochas que usamos na Terra ainda não podem ser transportadas para Marte”, afirmou Rapin. “Mas acreditamos que é da ordem de dezenas de milhares a milhões de anos.”

As camadas rochosas mostram que, durante esse intervalo, as condições marcianas variaram bastante. Exames por espectrômetro revelaram que, nos pontos mais baixos da cratera, onde o Curiosity pousou, há evidências de sedimentos de um lago de água doce. Conforme o Curiosity foi subindo, os sedimentos começaram a mostrar camadas salgadas, indicando que o lago que ocupava o fundo da Cratera Gale há 3,5 bilhões de anos secou o suficiente para que os sais dissolvidos se precipitassem, assim como o cloreto de sódio se precipita pela evaporação da água do mar.

Normalmente, quando um lago seca completamente, deixa pilhas de cristais de sal puro para trás. Mas os sais marcianos são diferentes. Por um lado, são sais minerais, não sal de mesa. Eles também são misturados com sedimentos, sugerindo que se cristalizaram em um ambiente úmido, possivelmente logo abaixo de lagoas rasas e evaporantes cheias de água salgada.

Tais sais, segundo Rapin e seus colegas, fornecem “impressões digitais geoquímicas” das condições antigas dos lagos. No caso da Cratera Gale, essas impressões digitais contam uma história de oscilações repetidas entre água doce, uma impressão digital de tempos de chuva, e água extremamente salina, comparável ao deserto do Altiplano, na Bolívia.

Mudanças

“Isso nos dá um instantâneo de como o clima evoluiu e flutuou em algo progressivamente mais severo”, disse Rapin. “Vemos esses depósitos como evidência da mudança do nível da água e da cristalização do sal.”

Segundo Rapin, essa é uma descoberta importante, em parte porque mostra com que tipo de ambiente a vida – se existisse em Marte – teria de lidar naquele momento.

As rápidas flutuações climáticas podem ter sido causadas por rápidas mudanças no ângulo de rotação de Marte, afirmou o cientista. Hoje, o eixo de rotação do planeta é inclinado em 25°, muito semelhante à inclinação de 23,5° da Terra. Diferentemente do nosso planeta, porém, Marte é propenso a mudanças drásticas de inclinação, o que acarreta alterações drásticas correspondentes em suas estações.

Transição

Quando estava secando, o lago da Cratera Gale já havia perdido bastante de sua atmosfera para o espaço devido à erosão do vento solar. O planeta já vivia o processo de transição de sua juventude quente e úmida para as atuais condições de frio e secura.

O Curiosity já vislumbrou mais camadas inclinadas adiante que contêm sulfato. Os cientistas planejam levar o rover até lá nos próximos dois anos e investigar essas estruturas rochosas. Se elas se formaram em condições mais secas que persistiram por um longo período, isso pode significar que o estrato de argila representa um estágio intermediário – uma porta de entrada para uma era diferente na história aquosa da Cratera Gale.

“Não podemos dizer se ainda estamos vendo depósitos de vento ou rio na unidade de argila, mas estamos confortáveis em dizer que definitivamente não é a mesma coisa que o que veio antes ou o que está por vir”, disse Chris Fedo, especialista em camadas sedimentares da Universidade do Tennessee e membro da equipe de cientistas autores do artigo.